“Um jogo de quartos”. Como é que as pausas para hidratação afetam o futebol jogado no Mundial

“Um jogo de quartos”. Como é que as pausas para hidratação afetam o futebol jogado no Mundial

  • 20/06/2026 05:00
  • Redação

“A pausa é de três minutos, o que é um período relativamente grande e que permite o redirecionar do jogo. É tempo mais do que suficiente para os treinadores conversarem com os jogadores, mostrarem imagens no computador, simular movimentos e estimular novos posicionamentos. É uma grande possibilidade para se mudar o rumo dos jogos”, aponta o especialista.

O Alemanha-Curaçau é o exemplo escolhido por João Ferreira para provar isso mesmo. Quando o árbitro interrompeu a primeira parte, aos 22 minutos, o jogo estava empatado a um golo. “Curaçau estava a incomodar e tinha marcado. Com a intervenção do treinador Julian Nagelsmann na paragem, a Alemanha passou a estar por cima", descreve o comentador.

Os alemães marcaram dois golos nos minutos que se seguiram até ao intervalo e juntaram mais quatro na segunda parte. O resultado final foi uma goleada por 7-1. “A raiz da mudança esteve na paragem para hidratação da primeira parte”, conclui João Ferreira.

Mesmo que os treinadores não introduzam mudanças táticas significativas, a pausa quebra o ritmo do jogo e pode beneficiar quem estava em dificuldades até esse momento.

“As melhores equipas podem perder ritmo e ordem. E quem está pior pode reanimar e voltar mais confiante, porque a pausa trava o ímpeto do adversário”, aponta o treinador João Ferreira.

“A linguagem corporal dos jogadores quando voltam para o campo não era boa e a pausa vem num momento em que Portugal está bem, tinha marcado e estava a dominar o jogo. A pausa levou a um regresso mais relaxado, não que tivesse sido consciente. Não foi nada positivo para a seleção portuguesa”, sentencia.

Yash Takhur descreve o futebol como “um jogo de ritmo” e esse ritmo “demora bastante tempo a ser construído e estabelecido”.

Uma das surpresas da primeira jornada foi o triunfo da Austrália perante a Turquia, apontada por vários analistas como uma das seleções que poderia surpreender na competição.

“Os turcos dominaram o jogo todo e os dois golos que a Austrália marcou foram imediatamente a seguir às pausas”, exemplifica Yash.

Tudo isto está a “mudar a forma como olhamos para a estrutura do jogo”, defende Yash.

“Ouvimos sempre falar dos jogos de futebol como um jogo de duas partes distintas, mas agora parece que cada parte se divide noutras duas porque as equipas conseguem reajustar-se”, conclui.

“As pausas para hidratação são um esforço para garantir as melhores condições possíveis para os jogadores, com base na experiência dos torneios anteriores”, justificou a FIFA em comunicado.

João Ferreira concorda que “é preciso muito cuidado com a saúde dos jogadores”, mas defende que as pausas no Mundial “estão muito longe de ser apenas por motivos de hidratação".

Virgil Van Dijk, capitão da seleção dos Países Baixos, também não concorda com a obrigatoriedade das pausas e defende que deveriam ser definidas “jogo a jogo”. O selecionador dos EUA, o argentino Mauricio Pochettino, foi outra das vozes a manifestar-se contra a novidade.

A UEFA já anunciou que não planeia adotar a medida nas suas competições de seleções e clubes, o que significa que, na temporada 2026/27, será pouco provável que as noites frias de inverno durante a Liga dos Campeões tenham pausas para hidratação.

O comentador olha para o fenómeno como uma possível "bola de neve atrás da receita", porque a UEFA poderá ficar "pressionada para fazer mais dinheiro, porque os clubes também querem mais receita."

"As cinco substituições também eram apenas para o período de Covid-19 e está totalmente adquirido hoje como uma regra do jogo universalmente", aponta.

João Ferreira defende que a pausa "dá mais controlo aos treinadores, mas também tira emotividade e alguma magia ao jogo" e, por isso, acredita que a experiência pode ficar "circunscrita ao Mundial".

"Os Mundiais são uma plataforma de estudo. No fim da competição vão ser tiradas ilações. Acho que, mais cedo ou mais tarde, isto vai surgir noutras competições", diz.

Yash Takhur acredita, por sua vez, que a pausa representa uma mudança tão estrutural no desporto que, para ser introduzida como medida definitiva, será necessário um debate mais profundo.

"Tem claramente de ser discutido porque muda a forma como os jogos fluem. É preciso mais debate em redor do tema", salvaguarda.

"Vários fatores influenciaram esta decisão, mas acho que a forma como afeta a modalidade não foi um deles", conclui.

  • Fonte: Rádio Renascença
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