Notas do Sousa (dia 9 do Mundial): como assim, Arda e Kenan vão já para casa? E ainda o baile de Vini & Matheus na primeira da canarinha
- 20/06/2026 12:40
- Redação
Num texto de antevisão a este Mundial, antevi que a Turquia poderia ser uma das surpresas deste Campeonato do Mundo. Foi escrito a 10 de junho, publicado no dia seguinte e cá estamos nós, uma semana e meia depois, a procurar justificações para a precoce eliminação turca do torneio.
É injusto a turma de Vincenzo Montella ter já sido afastada? Talvez. O número de oportunidades claras geradas nos encontros face a Austrália e Paraguai era mais do que suficiente para ter vencido ambos os compromissos à vontade, mas a realidade pode ditar desfechos distintos do que a estatística conclui.
Se no encontro inaugural, faltou a melhor capacidade de definição e houve um guardião inspirado do outro lado, no desafio face aos paraguaios, a equipa turca foi manifestamente perdulária num período de jogo – segunda parte – em que já jogava contra 10, ante adversário completamente entrincheirado. Arda Güler foi criando algumas das jogadas mais promissoras a partir da meia-direita, houve alguma ameaça dos médios, mas percebeu-se que Kenan Yıldız não estava no auge físico (com o que isso afetou a capacidade de resolução). Até os dois centrais dispuseram de boas situações de perigo, numa equipa que tem um dos grandes “pecados” no centro do ataque: Montella insiste sem sucesso na solução Kerem Aktürkoğlu – minutos pobres como referência móvel neste Mundial e a alternativa Deniz Gül mostrou que a inconstância demonstrada no Dragão se transferiu também para o contexto “mundialista”.
Os médios apareceram, Vinícius galvanizou-se, Matheus marcou. “Habemus” Brasil?
Mais do que na estreia, certamente. Mas o Brasil ainda é um projeto em crescimento neste Campeonato do Mundo.
As nuances deste jogo não permitem enveredar por um caminho de euforia desmesurada: o Haiti foi uma caricatura da equipa competitiva da primeira jornada, defendendo com linha alta e permitindo que os médios da canarinha tivessem a margem para conduzir e meter os passes decisivos que haviam sido tão dificultados pela pressão marroquina.
Depois, com espaços e absolutamente galvanizado, Vinícius Júnior transformou cada situação em campo aberto numa oportunidade para o Brasil, sendo que Matheus Cunha, muito mais refinado e astuto que Igor Thiago, supôs um salto qualitativo na fase ofensiva brasileira (e não apenas pelo fator golo).
Ainda deu para espreitar algo de Rayan (pode vir a ser importantíssimo dada a ingrata lesão de Raphinha) e Endrick, mas da segunda parte também ficou a imagem de uma Seleção ainda não completamente fiável no setor recuado – o Haiti discutiu a posse por igual e concluiu várias jogadas no último terço.
Não é só Bouaddi, o filho de uma lenda tenista também brilha no meio-campo de Marrocos
Marrocos não precisou de uma exibição esmagadora para derrotar a Escócia, mas repetiu alguns dos ingredientes utilizados no empate da ronda inicial face ao Brasil: pressão alta nos primeiros minutos, capacidade para se estabelecer no meio-terreno adversário, circulação rápida, utilização alternada da dinâmica Brahim Díaz aberto (assim originou mais um belo golo de Saibari neste torneio) e Hakimi a invadir o corredor central. Voltou a chamar a atenção o trabalho complementar dos médios.
Bouaddi voltou a fazer um jogo sóbrio, com elegância na saída, capacidade para dar pausa nos momentos certos e recuperar, sendo complementado adiante pela liberdade de movimentos e critério de Ounahi e mais de perto por Neil El Aynaoui, já a brilhar na Roma e também destinado aos palcos maiores do futebol europeu. Tem uma compreensão tática do jogo acima da média, é um médio recuperador de agressividade constante (a correr alguns riscos, por vezes), com resistência, timing, mas também argumentos para distribuir e aparecer até mais adiantado. É filho de peixe que nadou em águas bem distintas: o pai, Younes El Aynaoui, foi possivelmente o melhor tenista marroquino de todos os tempos (ganhou cinco torneios ATP e fez quartos de final em dois Grand Slam). O brilhantismo está nos genes, esperemos que sem o azar com as lesões do progenitor.
Pochettino tornou os Estados Unidos numa máquina competitiva. Dá para fazer história?
Sim, dá, até porque a configuração deste Mundial pode permitir um sorteio favorável, mediante o desfecho de outros grupos, claro está.
Os sinais da turma de Mauricio Pochettino são, até ver, francamente positivos. Face à Austrália, vimos novamente uma equipa pressionante, a morder adversário de pele demasiado conservadora, utilizando referências de pressão que obrigavam os Socceroos a desfazer-se constantemente da posse. A partir de trás, Freeman fica próximo dos centrais num início de construção paciente, mas que sabe encontrar vertigem por fora, tanto à direita (jogaço de Dest, no um-para-um e a combinar com um McKennie que surge constantemente descaído para a faixa), como do lado esquerdo (onde nasceu o primeiro golo, com Robinson a ligar ao móvel ponta-de-lança Balogun).
Nesta 2ª jornada, Pulisic ficou a descansar, mas os companheiros deram boa conta do recado, apesar de um segundo tempo mais frouxo, já com 2-0 a favor e uma Austrália mais predisposta a arriscar (boas entradas de Irankunda e Volpato), mas a verdade é que os norte-americanos não sofreram demasiado atrás. Há boas razões para ter esperança.