Brexit: maioria dos britânicos quer reaproximação à UE, mas Governo mantém linhas vermelhas

Brexit: maioria dos britânicos quer reaproximação à UE, mas Governo mantém linhas vermelhas

  • 21/06/2026 15:51
  • Redação

Dez anos depois do referendo que decidiu a saída do Reino Unido da União Europeia, a maioria dos britânicos considera hoje que o Brexit foi um erro e defende uma relação mais próxima com Bruxelas. Apesar disso, o Governo trabalhista de Keir Starmer continua a excluir o regresso ao mercado único, à união aduaneira e à livre circulação de pessoas, limitando a margem para uma aproximação mais profunda ao bloco europeu.

Quando chegou ao poder, em 2024, Starmer comprometeu-se a melhorar a relação com a União Europeia sem reverter a decisão tomada pelos britânicos em 2016. Entre as prioridades apontadas estavam um acordo veterinário para facilitar o comércio agroalimentar, o reconhecimento mútuo de qualificações profissionais e a redução dos entraves burocráticos para artistas em digressão.

Dois anos depois, os resultados continuam modestos. As negociações centram-se sobretudo num eventual acordo fitossanitário destinado a simplificar o comércio de produtos alimentares entre o Reino Unido e a União Europeia.

A investigadora Jannike Wachowiak, do centro de estudos UK in a Changing Europe, considera que as opções assumidas pelo Governo trabalhista reduziram significativamente a capacidade negocial de Londres. Na sua perspetiva, o Executivo "limitou a sua própria margem de manobra" ao definir desde o início várias linhas vermelhas, excluindo cenários como o regresso ao mercado único ou à união aduaneira.

A especialista aponta ainda falhas na estratégia inicial do Governo. Segundo Wachowiak, a falta de clareza sobre as prioridades para a relação com Bruxelas e a demora em avançar com propostas concretas acabaram por desgastar parte do capital político conquistado após a vitória eleitoral.

Mesmo uma eventual mudança de liderança não alteraria rapidamente o cenário, defende a investigadora, sublinhando que "qualquer alteração substancial na relação entre o Reino Unido e a União Europeia demorará anos a produzir resultados visíveis", devido à complexidade técnica e política das negociações.

A avaliação económica da última década continua a ser um dos principais argumentos dos críticos do Brexit. Segundo estimativas recentes do Banco de Inglaterra divulgadas pela BBC, a economia britânica é atualmente cerca de 6% menor do que seria expectável caso o país tivesse permanecido na União Europeia.

Essa perceção é partilhada por uma parte significativa da população. Uma sondagem da YouGov concluiu que 57% dos britânicos acreditam que a saída da União Europeia foi uma decisão errada, incluindo quase um quarto dos eleitores que votaram a favor do Brexit em 2016.

Os resultados coincidem com um estudo divulgado pelo Conselho Europeu de Relações Externas (ECFR), realizado entre 7 e 14 de maio junto de mais de dois mil britânicos. A investigação concluiu que cerca de dois terços dos inquiridos consideram que o Brexit teve um impacto negativo no país, agravando o custo de vida e prejudicando a economia.

Para o diretor do ECFR, Mark Leonard, a mudança de perceção resulta do contraste entre as expectativas criadas durante a campanha do Brexit e a realidade vivida pelos cidadãos.

"Uma década depois, os britânicos percebem que as suas esperanças de uma vida melhor fora da União Europeia continuam por concretizar."

Leonard acrescenta que muitos eleitores consideram agora que o Brexit "está a limitar a capacidade do Reino Unido para enfrentar os desafios que mais preocupam os cidadãos".

Segundo o mesmo estudo, 56% dos inquiridos acreditam que a saída da União Europeia teve efeitos negativos no comércio, na burocracia e no combate à imigração ilegal. Além disso, 57% consideram que o Brexit reduziu as oportunidades disponíveis para os jovens britânicos.

A imigração foi um dos temas centrais da campanha que conduziu ao Brexit. No entanto, a sondagem do ECFR revela que mais de metade dos britânicos considera que a estratégia seguida após a saída da União Europeia falhou neste domínio.

O estudo mostra ainda que 56% dos inquiridos apoiariam o restabelecimento da liberdade de circulação com a União Europeia caso essa medida permitisse melhorar as relações comerciais com o bloco comunitário.

Outras sondagens apontam para uma crescente abertura dos britânicos a uma revisão da relação com Bruxelas. Um estudo do King's College London concluiu que o Partido Trabalhista poderia reforçar significativamente o seu apoio eleitoral caso defendesse a realização de um novo referendo sobre a relação do Reino Unido com a União Europeia.

Ainda assim, Jill Rutter, antiga alta funcionária pública britânica, alerta para uma leitura cautelosa destes números. A especialista considera que o descontentamento popular não pode ser explicado apenas pelo Brexit, estando também ligado à crise do custo de vida e às dificuldades económicas que o país enfrenta.

No entanto, acrescenta, o debate regressou ao centro da vida política porque muitos britânicos concluíram que a saída da União Europeia não trouxe os benefícios económicos prometidos pelos defensores da rutura.

O estudo do ECFR conclui ainda que a abertura a uma maior aproximação não se limita aos britânicos. Três quartos dos britânicos defendem atualmente relações mais estreitas com a União Europeia, enquanto uma sondagem paralela realizada em 15 Estados-membros mostra que cerca de dois terços dos cidadãos europeus apoiariam o regresso do Reino Unido ao bloco comunitário no futuro.

A investigação revela igualmente uma mudança na perceção dos britânicos sobre as alianças internacionais do país. Quando questionados sobre o parceiro de segurança preferencial do Reino Unido, os inquiridos apontaram maioritariamente a Europa, enquanto apenas 18% escolheram os Estados Unidos.

Para Mark Leonard, estes resultados mostram que, passados dez anos sobre o referendo de 2016, tanto britânicos como europeus encaram a relação entre Londres e Bruxelas de forma mais pragmática, num contexto marcado por desafios económicos e de segurança comuns.

Apesar da crescente vontade popular de reforçar os laços com a União Europeia, um regresso ao bloco continua fora da agenda política imediata. Em Londres, tanto o Governo como a oposição evitam defender esse cenário, enquanto em Bruxelas prevalece a convicção de que qualquer mudança estrutural exigiria anos de negociações e um amplo consenso político.

Dez anos depois do referendo que mudou o rumo do Reino Unido, a maioria dos britânicos parece ter mudado de opinião sobre o Brexit. Mas transformar esse sentimento numa alteração concreta da relação com a União Europeia continua a ser um desafio político de longo prazo.

  • Fonte: Rádio Renascença
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