Violência doméstica: "Em mais de metade dos casos os homicidas tinham arma de fogo e legal"

  • 22/06/2026 02:00
  • Redação

Há mais de 30 anos na psicologia forense e no estudo de vários crimes, entre eles os ligados à violência doméstica, como o homicídio nas relações de intimidade, a psicóloga Cristina Soeiro diz, no podcast Romper o Silêncio, que estes agressores têm uma mentalidade e um pensamento muito específicos.

“Têm uma relação quase que simbiótica, de fusão com a vítima, ou seja, pensam: ‘ela sem mim não é ninguém, não pode ficar sozinha’”. A especialista da Polícia Judiciária questiona: “se eles sabem que vão para isto [prisão], porque é que fazem isto?”.

Cristina Soeiro lembra um estudo que durante sete anos avaliou 75 arguidos envolvidos em processos de homicídio em contexto de intimidade, já resolvidos pela justiça, foi entre 2015 e 2022. Destes 12 eram de mulheres agressoras.

“Mais de metade dos casos os indivíduos tinham armas de fogo legais, porque somos um país com prática da caça e estas pessoas usam armas legais”, instrumento que é usado, diz, na sua maioria pelo sexo masculino na hora do crime.

“Em cerca de 70% a 80% dos casos, há história de violência prévia na relação de intimidade e depois há 25 a 30% de indivíduos que mataram as mulheres sem qualquer episódio de agressão anterior”, revela.

O homicídio, adianta, surge de um crescendo de fenómenos que se vão instalando na relação, sendo necessária uma avaliação de vários factos para se perceber como se chega a ele.

As ameaças são um dos fatores. “Existem algumas frequentes: ‘qualquer dia ficas sem pai’, aos filhos ‘ficas sem pai e sem mãe’, ‘qualquer dia vais deixar de fazer isso que fazes’. Ameaças que são veladas, ou por vezes concretas, e principalmente quando se juntam com o acesso à arma de fogo há de facto um risco maior”.

Cristina Soeiro diz que muitos homens controlam as vítimas “desde a conta bancária, às saídas ao supermercado, o telemóvel, que é o top do controlo, tudo o que tem a ver com ela, a ida ao médico, que leva muitas vezes à privação das mulheres a terem acesso à saúde, como ir ao ginecologista, etc…”

São três os perfis do criminoso: “há os que têm ciúme patológico e com sentimento de posse, os antissociais e, por fim, os que têm disfunção emocional”.

Neste episódio do Ppodcast Romper o Silêncio, a especialista fala também da perseguição e do "stalking", que muitas vezes ocorre. “Estudámos um caso em que o homicídio ocorreu quatro ou cinco anos após a separação”.

O agressor explicou: “nós já estávamos divorciados, já tínhamos tido namoradas e namorados, mas eu, quando a vi com aquele rapaz, percebi que ela não ia nunca mais voltar para mim porque ela estava verdadeiramente apaixonada” e colocou fim à vida da ex-companheira.

Montam esquemas de controlo. “Eles podem ter comportamentos mais visíveis, que é aparecer no local onde a mulher vai, ir ao ginásio dela, ao café, mas há outros que fazem outro tipo de acompanhamento, de monitorização, que é através dos próximos, ou seja, mantêm contacto com os familiares da ex-mulher ou da mulher, com os amigos, com as amigas, mostrando aparentemente preocupação, mas é um comportamento de controle”.

A separação é um dos momentos de perigo e tensão que deve merecer atenção das autoridades e da mulher.

“As mulheres, no contexto da intimidade, a maior parte delas matou o parceiro íntimo por razões de defesa ou resultado de uma situação continuada no tempo de violência doméstica. E este é um padrão que é internacionalmente também identificado”, afirma.

Cristina Soeiro dá o exemplo de uma arguida. “Foi uma senhora que disse: 'os meus filhos já estavam casados, já tinham a vida arrumada, eu não aguentava mais isto, agora estou aqui na prisão'”. Isto é uma solução que encontram para acabar com anos de violência doméstica.

As mulheres também usam armas? Menos que os homens, indica a especialista da Polícia Judiciária.

Cristina Soeiro é taxativa: “não há relação direta entre doença mental e crime, é importante que se diga, os doentes mentais não são pessoas violentas, de modo geral não cometem crimes”.

No entanto, em algumas situações “nós podemos ter indivíduos cuja presença de depressão crónica, ou outro tipo de patologias mentais, ou mesmo algumas questões na área da psicose, esse fator é facilitador de violência”.

Cristina Soeiro defende mais intervenção junto do agressor, nomeadamente medidas de vigilância eletrónica.

“A mim não me faz sentido uma mulher ter que usar um aparelho de socorro, de SOS, e na verdade o aparelho devia estar no indivíduo, porque ele é que não tem controle, portanto, as duas coisas têm que coexistir.”

Os dados revelam que a reincidência do homicídio, não é muito grande, mas o risco de desenvolver atos de violência doméstica já é. “Estes indivíduos que praticam o homicídio continuam a ter um elevado risco de violência na relação de intimidade, a probabilidade da violência escalar não é clara, mas temos que pensar nisto, porque estes indivíduos não têm prisão perpétua e saem para a comunidade”, refere a psicóloga.

Portugal tem “um perfil marcado de homicida-suicida”, Cristina Soeiro explica que, normalmente, essa percentagem ronda agora os 10%, mas na altura do estudo (entre 2015 e 2022) era de 38%. “Individuo com ideação suicida, depressão forte, problemas financeiros graves e têm uma relação simbiótica com a mulher, matam a mulher e a seguir colocam fim à sua vida”.

E conclui: “os homicídios têm diminuído, mas este homicídio na relação da intimidade não, porque esta forma este homicídio tem a ver com os aspetos expressivos, tem a ver com controlo, domínio e agressividade".

  • Fonte: Rádio Renascença
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