Regenerar o solo é regenerar o futuro do nosso sistema alimentar

Regenerar o solo é regenerar o futuro do nosso sistema alimentar

  • 22/06/2026 01:12
  • Redação

Na MC, há muito que a sustentabilidade deixou de ser uma dimensão paralela do negócio para se tornar uma componente estruturante da nossa estratégia e da nossa gestão. Não é um capítulo à parte nem um exercício de comunicação: é um critério que orienta a forma como crescemos, como decidimos e como nos relacionamos com as nossas pessoas, parceiros e comunidades. Esta convicção tem raízes longas. Fomos a primeira empresa do setor do retalho e distribuição em Portugal a apresentar uma Política de Ambiente, em 1998, e desde então temos procurado tratar a sustentabilidade com o mesmo rigor que aplicamos a qualquer outra área da empresa.

Esse rigor traduz-se em compromissos exigentes, suportados numa estratégia clara que assenta em quatro pilares – ação climática, circularidade, produção sustentável e oferta responsável – que é executada através de roteiros de ação concretos, e não de declarações de intenção. Mas é precisamente quando olhamos com honestidade para os números que encontramos o verdadeiro desafio.

A parte mais significativa da pegada de uma empresa como a nossa não está nas suas operações diretas, mas na sua cadeia de valor, na produção dos bens que chegam às nossas lojas. Assim, por mais que façamos dentro de portas, a transformação com maior impacto acontece junto de quem cultiva, cria e transforma. E essa transformação não se decreta: constrói-se, em conjunto, com tempo, conhecimento e confiança. É aqui que reside, simultaneamente, a maior dificuldade e a maior oportunidade.

Pela posição que ocupamos entre quem produz e quem consome, e pela escala que representamos, podemos ser aceleradoras desta mudança. Podemos contribuir para alinhar práticas, partilhar conhecimento técnico e criar as condições para que a inovação chegue a quem produz. É esse o propósito do Clube de Produtores Continente, que reúne mais de 360 produtores nacionais, e da sua academia, onde capacitamos parceiros em áreas como a biodiversidade, a circularidade e a agricultura regenerativa. É também o sentido do trabalho contínuo de certificação – do bem-estar animal aos selos de pesca e aquacultura sustentáveis – que reforça a transparência e a resiliência de toda a cadeia.

A agricultura regenerativa merece, neste contexto, uma reflexão própria, porque encerra um potencial transformador que vai muito além da redução de emissões. Falamos de um conjunto de práticas que trabalham com a natureza, e não contra ela: que devolvem matéria orgânica e vida ao solo, que melhoram a retenção de água, que protegem a biodiversidade e que tornam as explorações mais resilientes perante secas, cheias e a crescente imprevisibilidade do clima. Num país particularmente exposto aos efeitos das alterações climáticas, regenerar os solos não é um luxo ambiental: é uma estratégia de resiliência e segurança alimentar.

A regeneração do solo é, no fundo, um investimento no próprio alicerce do sistema alimentar. Um solo vivo produz melhor, durante mais tempo e com menor dependência de fatores externos. Protege os ecossistemas em vez de os esgotar. E ajuda a garantir que continuaremos a ter o que colocar nas prateleiras daqui a uma, duas ou três gerações. É por acreditarmos neste potencial que temos vindo a apoiar produtores no desenvolvimento e teste de práticas regenerativas, com o objetivo de aprender no terreno e escalar o que faz sentido no contexto agrícola nacional.

Seria, porém, desonesto descrever este caminho como simples. A transição regenerativa exige paciência e uma curva de aprendizagem que não é linear. Cada solo, cada cultura e cada região têm o seu ritmo, e os resultados medem-se em anos, não em trimestres. Implica acompanhar de perto os produtores, partilhar conhecimento e construir, passo a passo, a confiança necessária para experimentar e mudar. O nosso papel é estar ao lado de quem produz ao longo de todo esse percurso e isso só é possível com relações de longo prazo, proximidade e transparência.

Faço questão deste último ponto, porque a credibilidade desta agenda depende dele. Não basta dizer que somos sustentáveis. É preciso explicar as medidas que adotamos, os resultados que alcançamos, os objetivos que perseguimos, mas também os desafios que permanecem por resolver. É essa combinação de ambição, execução e prestação de contas que distingue uma estratégia sólida de um discurso conveniente. E é também o que nos obriga a admitir, com humildade, que nenhuma empresa, por maior que seja, transforma um sistema alimentar sozinha. O que podemos, e devemos, é assumir a parte que nos cabe e usar a nossa dimensão para promover esse caminho.

  • Fonte: Rádio Renascença
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