Pacto Climático Europeu propõe “Clima Clubes” nas escolas e formação em sustentabilidade para trabalhadores
- 22/06/2026 04:01
- Redação
A criação de uma rede nacional de “Clima Clubes” nas escolas básicas e secundárias, a introdução de uma unidade curricular obrigatória de “Sustentabilidade Aplicada” no ensino superior e o reforço da formação em sustentabilidade para trabalhadores são algumas das principais propostas apresentadas pelos embaixadores do Pacto Climático Europeu à Agência Portuguesa do Ambiente (APA), no âmbito da revisão da Estratégia Nacional de Educação Ambiental (ENEA 2030).
No parecer enviado à APA, os embaixadores defendem que a educação ambiental deve evoluir para uma abordagem mais orientada para a ação, capacitando os cidadãos para enfrentar os desafios colocados pelas alterações climáticas.
Segundo o documento, a ENEA 2030 deve promover “abordagens pedagógicas multidisciplinares e interdisciplinares, baseadas na esperança ativa, na participação cívica e na capacitação para a ação”, reforçando simultaneamente a aprendizagem ao longo da vida através da educação formal, não formal e da participação em organizações da sociedade civil.
Entre as medidas propostas destaca-se a criação dos chamados “Clima Clubes”, estruturas que funcionariam nas escolas básicas e secundárias com uma oferta curricular interdisciplinar, envolvendo áreas como História, Filosofia, Ciências e Expressões Artísticas. O objetivo passa por integrar a sustentabilidade e a ação climática em diferentes domínios do conhecimento.
No ensino superior, os embaixadores recomendam a implementação de uma disciplina transversal de “Sustentabilidade Aplicada” em todos os cursos politécnicos e universitários, independentemente da área de formação.
O parecer sugere ainda o reforço da literacia climática nas escolas profissionais, especialmente nas áreas ligadas à agricultura, produção agropecuária e desenvolvimento rural, setores que deverão enfrentar profundas transformações devido aos impactos ambientais e climáticos.
Para Sabrina Fialho, investigadora em Alterações Climáticas e Práticas de Desenvolvimento Sustentável no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa e embaixadora do Pacto Climático Europeu, os currículos atuais não acompanham a realidade vivida pelo país.
“A educação ambiental deve deixar de estar tão centrada na sensibilização para passar também a preparar os cidadãos para responderem aos impactos das alterações climáticas”, afirma, citada em comunicado.
A investigadora considera que “os currículos escolares estão desfasados da realidade climática que o país já vive”, acrescentando que o ensino continua focado sobretudo nas causas das alterações climáticas, sem preparar suficientemente os jovens para questões relacionadas com a adaptação climática.
Nesse sentido, os embaixadores defendem que os alunos devem ser preparados para compreender e responder aos riscos associados a fenómenos extremos como secas, incêndios, tempestades e ondas de calor, cuja frequência e intensidade têm aumentado em Portugal.
As propostas não se limitam ao sistema educativo. O parecer recomenda que a sustentabilidade passe a integrar as ações de formação contínua destinadas a trabalhadores do setor privado e da Administração Pública.
Os embaixadores defendem que as empresas e organismos públicos possam cumprir o dever de qualificação previsto no Código do Trabalho através da disponibilização anual de formações relacionadas com sustentabilidade e ação climática.
O documento considera igualmente “fundamental” reforçar a capacitação de técnicos e funcionários municipais, para que possam atuar como facilitadores de processos de transição energética e de mobilização comunitária.
Outra das preocupações destacadas pelos autores do parecer é o aumento dos sentimentos de impotência e ecoansiedade, particularmente entre os mais jovens.
“Quando os jovens compreendem os riscos associados às alterações climáticas, mas não encontram ferramentas e mecanismos para agir sobre eles, aumenta o sentimento de impotência”, alerta Sabrina Fialho.
Por isso, acrescenta, “a educação ambiental deve ajudar a transformar preocupação em capacidade de ação e em participação”.
O parecer propõe o reforço da ciência cidadã, de metodologias de aprendizagem experiencial e dos mecanismos de participação pública, promovendo uma ligação mais forte entre conhecimento científico, envolvimento cívico e tomada de decisão.
Os embaixadores defendem ainda uma maior aposta em conteúdos relacionados com alimentação e saúde em todos os ciclos de ensino, sublinhando “a centralidade dos sistemas alimentares na transição climática”.
A rede portuguesa de embaixadores do Pacto Climático Europeu reuniu para este parecer contributos de especialistas em educação, educação ambiental e investigadores que desenvolvem trabalho científico nestas áreas, procurando influenciar a revisão da ENEA 2030 e reforçar o papel da educação na resposta aos desafios climáticos.