“Mais depressa se alimentam conflitos do que pessoas”, lamentou Leão XIV na sede do PAM

“Mais depressa se alimentam conflitos do que pessoas”, lamentou Leão XIV na sede do PAM

  • 22/06/2026 07:47
  • Redação

O Papa visitou esta segunda-feira de manhã, em Roma, a sede do Programa Alimentar Mundial das Nações Unidas (PAM), instituição dedicada à assistência alimentar em situações de conflito e desastres naturais e deixou fortes críticas à crescente burocratização e aos paradoxos das atuais políticas.

“As mesmas forças que impulsionam o crescimento económico exacerbam frequentemente a exclusão e a marginalização. Embora o alívio do sofrimento humano seja amplamente reconhecido como essencial, as preocupações humanitárias correm o risco crescente de serem relegadas para segundo plano entre as prioridades internacionais”, disse.

“Os conflitos são ‘alimentados’ mais facilmente do que as pessoas são nutridas. Esta realidade reflete não só deficiências operacionais, mas também um desequilíbrio fundamental nas prioridades políticas e morais. As consequências vão muito além dos diretamente afetados. Mais do que uma mera preocupação humanitária, a fome corrói a coesão social, aumenta o risco de conflitos e alimenta a migração forçada.”

Leão XIV lamentou ainda “a progressiva burocratização da solidariedade, a par da silenciosa mercantilização da vida humana”. E também denunciou que “por um lado, a ação humanitária é cada vez mais sobrecarregada por procedimentos burocráticos que podem atrasar a assistência a quem deles necessita; por outro lado, o acesso a bens essenciais, incluindo os alimentos, é frequentemente influenciado por considerações económicas ou estratégicas”.

Além de gerirem as crises, as instituições internacionais incorporam um princípio de responsabilidade partilhada e afirmam que a comunidade internacional está unida pela preocupação com aqueles que se encontram em situações de maior vulnerabilidade. Neste sentido, o PAM “é mais do que um ator político, económico ou técnico; é uma expressão concreta de solidariedade internacional e a sua presença ajuda a evitar que as crises humanitárias se deteriorem num colapso irreversível”, disse.

O Papa pediu um renovado compromisso com a cooperação multilateral porque, “num mundo cada vez mais fragmentado e multipolar, nenhum Estado, sozinho, consegue enfrentar os desafios globais”. O pontífice frisou que a paz duradoura e o desenvolvimento humano integral e sustentável “só são possíveis através da participação de todos, fomentada por um diálogo e uma cooperação internacional genuínos, orientados para o bem comum”.

Por fim, reiterou o seu apelo aos governos e aos povos do mundo para que “renovem e reforcem o seu compromisso, aumentem os recursos dedicados ao combate à fome e às suas causas profundas e removam os obstáculos que impedem a ajuda de chegar a quem dela necessitas”. E que “este apoio deve também reforçar o envolvimento com a Igreja e a sociedade civil”. E mais: “A implementação eficaz da luta comum contra a fome, exige a redução da burocracia desnecessária, para que a transparência e a prestação de contas sirvam as pessoas, em vez de impedirem a assistência”.

O Santo Padre acrescentou ainda que a alimentação, a água e a saúde “não podem ser subordinadas a considerações de mercado ou a interesses geopolíticos e o acesso a uma alimentação adequada é um direito humano fundamental, enraizado na dignidade de cada pessoa”. Por isso, “satisfazer esta necessidade não só alivia o sofrimento, como também aborda as causas subjacentes da instabilidade geopolítica. De facto, a segurança alimentar é uma componente essencial da segurança global e integral”.

No final do discurso, o Papa dirigiu-se a outra sala para dialogar, por videoconferência, com alguns dos agentes do PAM (neste momento, em serviço na Venezuela, Líbano, Sudão do Sul, Senegal e Timor Leste), agradeceu-lhes e encorajou-os pelo que fazem, na primeira linha de ajuda aos que sofrem fome e sem necessidades básicas, nalguns casos, correndo risco de vida.

  • Fonte: Rádio Renascença
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