“As universidades no modelo atual não vão resistir ao ChatGPT”, avisa Pedro Santa Clara
- 22/06/2026 08:00
- Redação
As universidades correm o “risco seríssimo” de desaparecerem caso não se adaptem à inteligência artificial (IA). O alerta é de Pedro Santa Clara, professor e “construtor de escolas”, que lamenta a falta de resposta da academia à nova realidade.
“Eu odiava que as universidades desaparecessem, mas acho que estão num risco seríssimo de desaparecer. As universidades, num modelo atual, não vão resistir ao ChatGPT”, avisou o professor de Finanças da Nova SBE durante mais uma edição do “Conversas na Bolsa”, no Porto, recorrendo a uma imagem “um pouco caricaturada” do atual modelo de ensino para explicar porquê.
“Os professores desenvolvem umas perguntas para um trabalho de casa com o ChatGPT, os alunos resolvem o trabalho de casa com o ChatGPT e os professores corrigem o trabalho de casa com o ChatGPT. Há qualquer coisa de circular neste processo”, ironizou.
Mas “o problema é mesmo muito grave”, nota. “Pela primeira vez na história não posso dizer que faz sentido ir para a universidade. Vamos fazer o quê para a universidade?”, questionou durante a conferência organizada pela associação comercial do Porto, no Palácio da Bolsa.
Para o docente estamos perante o “desafio do milénio” que está a passar ao lado das instituições de Ensino Superior.
“As nossas universidades estão a assobiar para o lado. Têm o desafio do milénio, porque nunca houve um desafio desta escala em termos de educação e não estão a fazer rigorosamente nada”, lamentou Pedro Santa Clara reconhecendo que é o futuro da próxima geração que está em causa.
“Temos de ser muito mais exigentes. Estamos a pôr em causa a próxima geração. Porquê? porque aquilo em que as universidades se especializaram foi a transmissão de conhecimento, o que deixou de ser central. De facto, o ChatGPT sabe mais do que cada um de nós em praticamente todos os assuntos”, sintetizou.
O docente deu o exemplo da Escola 42, projeto de engenharia de software do qual é fundador, assente no modelo pedagógico inovador - gratuito, sem aulas e sem professores - que espera formar “100 mil pessoas em IA nos próximos anos” para mostrar que a adaptação é possível. Mas, para isso, é preciso desburocratizar ou, como prefere dizer, “desregulamentar”.
“É preciso desregular o modelo”, defendeu. “A Escola 42, que aparece em vários rankings no top 10 do mundo de engenharia de software, não poderia existir no sistema universitário português porque não satisfaz as regras que são absolutamente minuciosas e que dizem que uma licenciatura tem três anos de 22 horas de aula por semana e que diz quando é que os exames podem ser feitos. E é ridículo, é ridículo”, lamentou. “Precisamos de uma desregulamentação profundíssima”, defendeu.
Pedro Sinta Clara critica, assim, a reação lenta do Ensino Superior na adaptação à IA, que diz ser uma oportunidade para a próxima geração e uma ameaça real para parte do tecido empresarial. Para o especialista, é tudo uma questão de formação e é essa a "pedra-chave".
“Estou absolutamente convencido que os próximos 10 anos vão ser a época do empreendedorismo. Vai ser a era em que pessoas, espero que os jovens, vão ter a oportunidade de assaltar todas as indústrias, todas as áreas de negócios, todas as empresas”, remata.