Violência doméstica. Filhos são usados "para manter a vítima na relação”
- 22/06/2026 12:05
- Redação
“Os filhos são usados, muitas vezes, como arma de arremesso para, por exemplo, o agressor conseguir manter uma relação, na qual a vítima pretende que haja uma separação e que haja distanciamento”, afirma Miguel Rodrigues, autor de um estudo que leva já seis anos de investigação sobre jovens que vivem em contexto de violência doméstica.
“Muitas vezes, são as crianças e os jovens, os mais desprotegidos, que acabam por servir como pêndulo para obrigar a vítima, a vítima-mãe a maior parte das vezes, a manter-se na relação, [sobre o pretexto] de que não haja represálias para a criança ou jovem”, identifica.
A esta dimensão, segundo o especialista que trabalhou durante anos no projeto escola segura da PSP e que agora é professor no Instituto de Serviço Social da Universidade Lusófona, juntam-se as ameaças de falta de apoio monetário, ou ainda a presença na nossa cultura de que uma relação saudável é aquela em que a mãe e o pai “devem estar juntos”, mesmo em situações “em que já há uma relação tóxica e de violência”.
Por isso, estas crianças e jovens, frequentemente, são “envolvidas nestes casos em que deveria haver a separação e o desligar da presença de um agressor”.
Para Miguel Rodrigues há que terminar com a ideia, ainda existente na sociedade portuguesa, de que um agressor no contexto doméstico pode ser “bom pai”.
“Isto é algo que tem que ser desmontado, cada vez mais, porque dizer que uma criança se deve manter na presença desse agressor é totalmente errado”, sentencia.
“Não sei se será uma questão dos próprios profissionais atualmente identificarem também todas as crianças e jovens que estão num ambiente de violência doméstica, mas não me parece que seja por aí, porque os autos da polícia automaticamente inserem-nas no sistema”, explica.
Deste número global, a Comissão Nacional de Promoção dos Direitos e Proteção das Crianças e Jovens (CPCJ) contabiliza 17 mil menores, no ano passado, como vítimas por viverem em contextos de violência doméstica. A nomeação destes jovens como vítimas é recente, antes eram vistos como “vítimas secundárias”.
Um número bastante elevado que faz com que, em termos reais, seja difícil acompanhar com profundidade e proximidade cada uma destas crianças e jovens.
“Por exemplo, no Reino Unido, os técnicos têm, por norma, cerca de 10 casos para trabalhar. Em Portugal, já percebemos e já encontrei alguns técnicos que dizem que têm 200 processos só para eles”, compara.
“Como é que eles conseguem fazer este acompanhamento? É-lhes impossível fazerem um acompanhamento, por exemplo, de 200 vítimas, crianças e jovens que veem no ambiente de violência doméstica”, conclui.
Para uma criança ou jovem que viva num ambiente de violência doméstica há um conjunto de dimensões da vida íntima e social que ficam comprometidos.
O investigador Miguel Rodrigues, que há seis anos desenvolve o trabalho académico “Os filhos da violência doméstica: impactos”, identifica essas áreas e coloca-lhe números. Até ao momento, tem 1.300 entrevistas validadas de jovens entre os 15 e os 20 anos. Todos eles são filhos de mães que denunciaram os pais por violência doméstica.
“Na escola, nos consumos aditivos ou em situações de bullying, ao fazer essa correlação [com a existência de violência doméstica], até agora os números têm sido assustadores”, começa por dizer.
Detalhadamente, o estudo avança que quem vive num ambiente de violência doméstica apresenta “cinco vezes mais reprovações em comparação com a média nacional”.
“Cerca de 91% das reprovações ocorreram nestes chamados filhos da violência doméstica, após identificarem que havia violência doméstica no seu ambiente familiar”, concretiza.
Em relação ao abandono escolar, no universo estudado, 56% dos jovens deixaram de estudar enquanto a média nacional é de 10%. “Ou seja, são dados também 5 vezes superiores”, sublinha.
Aliás, a escola é um meio privilegiado para a identificação das vítimas de violência doméstica, uma vez que os sinais se multiplicam, por norma, nesse contexto.
“Quando vemos a criança a descer as notas de forma abrupta, a começar a faltar ou apresentar-se doente aos pais, com questões de absentismo e em alguns casos até de abandono, percebe-se que há uma ligação, ou poderá haver uma ligação forte ao ambiente negativo que está a haver na sua casa. A escola é um importante identificador”, assinala.
Quando estes jovens são questionados com a sua satisfação com a vida numa escala de 0 a 10, no estudo de Miguel Rodrigues a média é de 3,2, enquanto que os estudos internacionais, em que é considerado o mesmo grupo etário, apontam para uma média de 7,5 em Portugal.
No consumo de álcool, nas drogas e também na adição ao jogo, este grupo de menores tem comportamentos de risco mais elevados do que quando comparado com outros jovens da mesma idade, mas que não vivem num contexto de violência.
E há também conclusões neste estudo de Miguel Rodrigues no que diz respeito há probabilidade destes jovens abusados no futuro virem a ser abusadores.
“Cerca de 8% de jovens identificaram-se com sendo agressores de violência no namoro, muito mais do sexo masculino do que do sexo feminino. Estamos a falar de cerca de 100 jovens em 1.300 que se identificam com um agressor de violência no namoro”, salienta.
O trabalho para atenuar o impacto destes traumas na vida de um menor quando atinge a maioridade é difícil, sendo que o investigador acredita que “o trabalho [das entidades envolvidas] deve de ser muito competente, tem de ser articulado, em rede, a envolver várias especialidades”.
Miguel Rodrigues diz que o objetivo não é o de fazê-los “esquecer”, mas “conseguir levar a sua vida da melhor forma possível”.