Seguro insiste nas "palavras do meio", desta vez focadas no diálogo religioso
- 22/06/2026 18:55
- Redação
Na famosa Sala das Bicas, no Palácio de Belém, conhecida pelas entradas e saídas de reuniões com o chefe de Estado português, está montado um autêntico quadro de diversidade religiosa. Nalguns casos as roupas denunciam de onde vêm, como os monges budistas. Noutros o fato e gravata escondem a multiplicidade. Há caras mais conhecidas, como D. Rui Valério, pelos católicos, ou o Sheik David Munir, pelos muçulmanos sunitas. Nas filas dianteiras também está “Pedrito de Portugal”, antigo toureiro.
Para assinalar o Dia Nacional da Liberdade Religiosa e do Diálogo Interreligioso, todos ali estão, escutando em uníssono as palavras de António José Seguro e batendo palmas, em conjunto, como se um fossem. Afinal, todos acreditam em algo. E isso é naquele momento suficiente.
Chamado ao microfone, o Presidente da República diz que “Portugal deve orgulhar-se da construção, ao longo das últimas décadas, de um modelo sólido de excelente convivência entre mais de 30 convicções religiosas e 600 confissões”. Entende ser “um reflexo de uma sociedade livre, plural e respeitadora da consciência de cada pessoa, mas também da autonomia das comunidades religiosas na sua forma de organização e culto”.
Depois, Seguro lembra a “responsabilidade do Estado” de garantir “o quadro jurídico adequado ao exercício pleno da liberdade religiosa, individual e coletiva, mas também as condições necessárias à promoção e dinamização do diálogo interreligioso” – tudo isto numa sociedade “cada vez mais diversa e percorrida por cidadãos do mundo, mas também permeável a muros de pedra ou de silêncio”.
E para combater esses obstáculos o anfitrião desta cerimónia recorda as palavras que havia pronunciado no 10 de Junho deste ano: “faltam-nos cada vez mais as palavras do meio; hoje estamos perante um excelente exemplo de quão importantes são essas palavras do meio, que ligam diferentes comunidades de fé numa cultura de tolerância, respeito mútuo e convivência democrática”.
Ao lado do Presidente está José Vera Jardim, um dos autores da legislação em vigor e que é esta segunda-feira também comemorada. O atual presidente da Comissão de Liberdade Religiosa pede “tolerância” como expressão de “aceitação do outro, da posição, da crença, do direito do outro a orar ao seu Deus”.
À beira dos 90 anos, Vera Jardim deixa ainda avisos à comunidade que vai vendo crescer em seu redor. “Nós vivemos hoje em sociedades amplamente polarizadas. As democracias, um pouco por todo o mundo, descem. As autocracias sobem. E, naturalmente, os direitos fundamentais ressentem-se. O direito da liberdade de religião, de culto, de consciência, também se ressente. Nós não temos, há muito tempo, perseguição religiosa em Portugal. Isso acabou há muito tempo. Mas temos discriminação. E temos tentativas, pontuais é certo, de limitação de um exercício pleno de liberdade religiosa”, sublinhou.