Uzbequistão, um país dividido entre a herança muçulmana e as cicatrizes russas
- 23/06/2026 02:50
- Redação
Existe uma fortaleza nos arredores de Termez, uma das mais antigas cidades do Uzbequistão, chamada "Qirqqiz". O nome traduz-se, do uzbeque, para "quarenta raparigas" e dita a tradição oral que honra a jovem guerreira Guloyim e suas 40 amigas, que defenderam a fortaleza de uma invasão durante vários dias, enquanto esperavam por ajuda. Reduzida ao último fôlego, e mortalmente ferida, Guloyim teria ido ter com o inimigo. O capacete cheio de sangue ter-lhe-ia caído da cabeça, soltando o seu cabelo longo e sedoso, que todos deixou estupefactos.
Guloyim (ou Gauhar, de acordo com a variante) ergueu o seu sabre e, com um grito, desafiou o líder dos inimigos para uma luta justa. Surpreso com a coragem da rapariga, ele aproximou-se e viu a própria morte nos olhos dela. Então, inclinou-se e beijou-lhe a mão, antes de se virar e mandar o seu exército embora.
É o espírito destas 40 raparigas que os 26 homens da seleção do Uzbequistão tentarão encarnar, na terça-feira, diante de Portugal. Mas afinal, que país é este cuja História enaltece em tantas instâncias a resiliência feminina, com cidades mais antigas que o Cristianismo e que, na Antiguidade, teve um papel determinante na Rota da Seda?
A referência mais antiga ao nome "Uzbequistão" remonta ao século 16, embora a rica história do país se estique bem para lá do ano zero. Foi encontrado, em 1938, na cordilheira Baisuntau, o crânio de uma criança Neanderthal, datado de há 70 mil anos.
Cidades como Samarkand e Bukhara, ainda hoje polos culturais do país, foram fundadas quase mil anos antes de Cristo (AC). A História do Uzbequistão cruza-se com o Império Persa, o Islão (Bukhara foi o centro intelectual do Renascimento Islâmico), Alexandre o Grande (em 328 AC, a região tornou-se parte do Império Macedónio), Genghis Khan (que terá levado à predominância da etnia turcomana no Uzbequistão), o Império Timúrida (Samarkand foi a capital) e a Rússia (o país pertenceu ao Império Russo e depois à União Soviética, desde cerca de 1876 até 1991).
Aquilo por que o Uzbequistão é mais proeminente na História, no entanto, é a Rota da Seda, uma rede transcontinental de rotas comerciais, conectadas pelas vias terrestre e marítima, que ligava o Oriente ao Ocidente, passando pela China, a Índia, a Ásia Central, a Península Árabe, o Norte de África e o sul da Europa, ao longo de mais de 6.000 quilómetros, entre os séculos 2 AC e 15 DC. Não só seda viajava pelas várias rotas: também eram comerciados, de um lado para o outro, animais, fruta, mel, chá, pedras preciosas, especiarias, perfumes, marfim, outros têxteis, vidro, equipamento militar, entre várias outras coisas.
A arquitetura do Uzbequistão é um reflexo da sua História. A arquitetura islâmica, com os seus mosaicos e abóbadas bulbosas, e o modernismo soviético. Este segundo caso é especialmente visível na capital, Tashkent, que foi devastada por um terramoto em 1966, o que levou a uma proeminência de edifícios com um cruzamento de inspirações centro-asiáticas, soviéticas e internacionais.
Um dos principais marcos arquitetónicos do país é o Raguistão, a praça principal de Samarkand, descrita por um nobre inglês como "a mais nobre praça pública do mundo". Outro, por exemplo, é o minarete Kalyan, em Bukhara.
Reza a lenda que quando Genghis Khan se abeirou do minarete, já depois de ter destruído meia Bukhara, e olhou para o céu, que os quase 50 metros de tijolo de barro quase tocavam, o capacete caiu-lhe da cabeça. Teve de se inclinar para recuperar o capacete e, ao fazê-lo, terá dito: "Nunca me inclinei perante ninguém, mas esta construção é tão grandiosa que é digna da minha vénia."
Apesar das críticas de algumas organizações não-governamentais, o Uzbequistão define-se como um Estado secular. Não obstante, como terá sido percetível até agora, o islamismo é a religião dominante do Uzbequistão.
O Uzbequistão é o país mais populoso da Ásia Central, com 38,3 milhões de habitantes, cerca de 30% abaixo dos 14 anos de idade. Dá para formar muitos e muitas futebolistas.
Rodeado por Afeganistão, Cazaquistão, Quirguistão, Tajiquistão e Turquemenistão, o Uzbequistão é um dos dois únicos países duplamente "encravados". Ou seja, é preciso atravessar, pelo menos, duas fronteiras nacionais consecutivas para chegar a uma costa marítima. O outro é o Liechtenstein, da Europa.
A intenção, declarou Mirziyoyev em 2017, é "construir um Estado democrático e uma sociedade justa", baseado no "poder do povo".
Por outro lado, a comunidade LGBTQI+ enfrenta perseguição. Por exemplo, atividades sexuais entre homens constituem um crime punível com até três anos de prisão. Juntamente com o Turquemenistão, o Uzbequistão é um dos dois únicos países da extinta União Soviética que ainda criminalizam condutas homossexuais.
A nível económico, o Uzbequistão mina 80 toneladas de ouro por ano, o sétimo país do mundo nesse índice. Também tem vastos depósitos e produção de cobre, urânio e gás natural, e reservas significativas de petróleo ainda por explorar. Um dos principais recursos naturais do país é o algodão: é o sétimo maior produtor e quinto maior exportador de algodão do mundo.
Com Mirziyoyev, as relações com a União Europeia têm-se estreitado. Ainda assim, o Uzbequistão não perde a ligação russa e é conhecida a cooperação com o regime de Vladimir Putin.
Por fim, a nível desportivo, foi no Uzbequistão que se inventou a arte marcial kurash, um tipo de luta greco-romana em que se combate de pé, além de outros desportos sem expressão fora do país.
Os uzbeques têm tido sucesso crescente nos Jogos Olímpicos e, em Paris 2024, tiveram a melhor prestação da sua história, com 13 medalhas: oito de ouro, duas de prata e três de bronze.
O povo uzbequistanês também tem talento para o futsal, o boxe, a ginástica e o xadrez, mas a modalidad mais popular do país é outro: o futebol. O clube mais titulado é o Pakhtakor Tashkent, da capital, com 16 campeonatos conquistados. Em 2011, o Nasaf tornou-se o primeiro clube uzbeque a vencer um troféu internacional, a Taça da AFC.
Maksim Shatskikh, que jogou vários anos no Dínamo de Kiev, da Ucrânia, é considerado um dos melhores, se não mesmo o melhor, jogadores uzbeques de sempre. O capitão Eldor Shomurodov, do Istambul Basaksehir, é o líder da nova geração. Porém, há um jogador que, com apenas 22 anos, promete arrecadar todos esses láureos.
Abdukodir Khusanov juntou-se em janeiro de 2025 ao Manchester City, proveniente do Lens, de França, a troco de 40 milhões de euros. Nunca um jogador uzbeque tinha chegado tão alto e por tanto dinheiro. É o rosto do futebol do Uzbequistão, que escreve, este verão, a mais bonita página da sua história: o inédito apuramento para o Mundial 2026.
No primeiro jogo, o Uzbequistão perdeu com a Colômbia, por 3-1. Abbosbek Fayzullaev, também do Basaksehir, marcou o primeiro golo da história dos lobos brancos em Mundiais. O próximo jogo é diante de Portugal, na terça-feira, às 18h00, e é decisivo para as contas de ambas as seleções, que, embora com níveis de ambição diferentes, tentam chegar aos 16 avos de final.