Nancy Gomes: "O mundo não pode abandonar a Venezuela. Não há sinais de mudança política"
- 23/06/2026 08:39
- Redação
Meio ano depois da operação dos Estados Unidos, os tímidos sinais de uma transição democrática fazem o apelo subir de tom: "O mundo não pode abandonar a Venezuela". Com o Médio Oriente a ocupar o espaço meditático, a politóloga Nancy Gomes avisa que a presidente interina Delcy Rodriguez tem colaborado com Washington, mas que as mudanças ficam apenas pelo plano económico e que podem passar uma ideia errada de que estão a ir ao encontro das expectativas da população.
O livro "Venezuela: um país em suspenso", que lança esta semana, Nancy Gomes apresenta a sociedade venezuelana como "profundamente fragmentada", sempre à espera de um "mágico" e de um "líder benfeitor" que ajude a alavancar o país e reduza a dependência para com a indústria petrolífera. "O petróleo é o excremento do diabo", lê-se a certa altura na obra.
No livro, questiona sobre a operação dos Estados Unidos – e estou a citar – “estaremos a assistir ao renascimento de uma etapa de desenvolvimento e progresso para os venezuelanos? Ou estaremos a assistir a mais um espetáculo do Estado mais rico, em que, desta vez, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, assume o papel de mágico que promete progresso e riquezas aos venezuelanos?” Mais de seis meses depois da operação norte americana, ainda não encontrou resposta?
Não, não temos respostas, apesar de alguns dos partidos políticos terem iniciado aquilo que chamam um período de contactos para traçar uma rota, tendo em vista a transição política do país.
Para já, continuamos a tentar perceber se estamos a assistir a mais um espetáculo, neste caso com Donald Trump a ser o mágico que oferece aos venezuelanos um futuro próspero. Esta alusão a esta figura de um mágico é uma figura que ao longo do livro vai aparecendo e que representa precisamente o Estado benfeitor, o Estado todo-poderoso ou o Presidente todo-poderoso que, graças aos recursos petrolíferos, pode oferecer aos venezuelanos um futuro melhor. Portanto, não, não sabemos.
E parece confirmar-se a tese de que Delcy Rodriguez ajudou Donald Trump a afastar Nicolas Maduro?
Não temos provas efetivamente. Mas confirmam-se as teses de que Maduro era dispensável. Os que verdadeiramente controlavam ou pelo menos conseguem negociar ou dialogar com os outros agentes que estão no terreno e que também controlam parcelas de poder são os irmãos Rodriguez, nomeadamente Dercy Rodrigues, a presidente interina e também o que está à frente da Assembleia Nacional, que é o seu irmão Jorge Rodriguez.
No livro, até fala de que poderá haver aqui alguma normalização nesta relação com Washington. A transição democrática pode acontecer com Delcy Rodrigues ou só com Corina Machado e Edmundo Gonzalez?
Delcy está a tentar mudar a sua imagem e efetivamente mudou o papel a partir do momento em que ela compactua e os que estão com ela compactuam com as diretrizes de Washington. Parece-nos que ela vai se apresentar seguramente como uma alternativa ou alguém bem próximo, se houver eleições proximamente. Mas não nos parece que, com ela, a mudança política que se quer aconteça. Pode haver uma mudança económica, que é o que está a acontecer. Mas os venezuelanos queriam, primeiro, uma mudança política.
Neste momento, ainda há muitas expectativas. E há muitas esperanças, sobretudo no meu livro. A ideia é mostrar uma Venezuela em várias dimensões. E uma delas é a Venezuela que não se fecha no território, nas fronteiras. É a Venezuela da diáspora ou os mais de 8 milhões de pessoas que estão fora e que alguns já manifestaram vontade de voltar. E também [a vontade de mudança] desde dentro, é claro. As eleições em julho de 2024 mostraram isso.
Há uma expectativa de mudança e o líder da oposição continua a ser Corina Machada. É verdade que já alguns pedem para ver uma nova eleição de maneira a oposição voltar a dar um sinal de que a oposição está unida. Acho que seria muito importante, porque a oposição voltou novamente a dividir-se. Seria muito importante que os partidos da oposição reforçassem através de uma nova eleição, a líder Maria Corina Machado, porque ela capitalizou a esperança e as expectativas de uma mudança política.
Ao ler a obra, contabilizei mais de uma dezena de momentos nos últimos 150 anos de tensão social por instabilidade política. Neste momento, acredita que existe paz social na Venezuela para esta transição?
Essa é uma pergunta difícil, porque nós não temos muitos dados. Aliás, nos últimos tempos, o governo da Venezuela não partilhava dados necessários para percebermos melhor qual a situação de pobreza, como estão as instituições, como é que os órgãos de comunicação social vão podendo exercer o seu trabalho livremente. Mas falar de paz social neste momento penso que é muito difícil. Por isso, será uma das prioridades, espero eu, na próxima fase.
Pode haver sempre tensão nas ruas. Pelo descontentamento, expectativas frustradas. Esse é um dos grandes receios neste momento. Pode haver porque há também grupos que não estão minimamente interessados na paz ou na ordem. Enquanto houver tudo isto, é sempre possível haver manifestações – aliás, tem havido, só que não são muito visíveis, porque há muito medo também. Mas alguns sectores da população têm vindo a fazer algumas caminhadas, protestos pacíficos.
A certa altura, refere que a transição democrática só acontecerá depois do desenvolvimento económico e que para isso é essencial o levantamento de sanções. Mas a ordem não devia ser a oposta? As sanções só costumam desaparecer quando o regime se transforma…
Já começou a haver levantamento ou flexibilização das sanções em várias áreas, porque o governo deu sinais – por exemplo, sobre a lei de hidrocarbonetos ou a lei mineira para a extração mineira. Tem sido necessário relaxar alguns das sanções que foram impostas precisamente nessas duas áreas. Uma prova disso é que também recentemente vimos outras petrolíferas, não só americanas, mas, por exemplo, a Repsol, já assinaram acordos com o governo também para exploração petrolífera.
No capítulo das relações externas, recorre a uma citação que aponta que a “ingenuidade” sempre marcou as relações externas da Venezuela. Perante um eventual governo de Corina Machado ou de Gonzalez, há o risco de ser demasiado influenciado pelos Estados Unidos e cair em mais uma “relação ingénua”?
Se houver uma transição, quem for eleito vai ter o grande desafio em relação aos Estados Unidos, de fazer uma gestão ou a gestão de uma relação que foi sempre uma relação de dependência. Os Estados Unidos da América olham para a Venezuela como estando na sua área de segurança, pela proximidade. Os venezuelanos sempre souberam.
É um tema sensível, mas tiveram alguns períodos conseguiram contornar e ganhar alguma autonomia, noutros nem por isso. Dependia sobretudo da autonomia que conseguiam alcançar. E até com o próprio Hugo Chávez houve continuidade na relação do país com os Estados Unidos da América, porque foram durante muito tempo e agora voltaram a ser os principais compradores de petróleo do país. É uma relação que se quer seja estratégica e gerida de maneira a também acautelar os interesses da população.
No último capítulo, recordo uma citação que diz que o petróleo é o "excremento do diabo". Pelo que relata ao longo da obra, nunca houve consenso duradouro sobre o modelo económico para a indústria petrolífera, que também impediu a modernização, a diversificação da atividade económica. Podemos concluir que, afinal, o que parece ser a grande mais-valia venezuelana é o seu grande problema?
Desde há muito tempo que um grupo de personalidades alerta para a necessidade, por exemplo, da arte de semear o petróleo. O autor dessa citação dizia que a Venezuela fingida é a Venezuela do petróleo: não investe a favor de um desenvolvimento sustentável e que que gasta muito. E que esta Venezuela fingida não iria sobreviver à queda dos preços do petróleo – e ele tinha razão.
Semear petróleo significa fazer com que os benefícios que derivam do fim dos ganhos pela exportação sejam investidos no desenvolvimento, que leva em conta sobretudo o bem-estar da população. Isso não foi feito em nenhum momento.
E pode agora acentuar-se com a mudança de foco, dos combustíveis fósseis para as renováveis…
Sim, o fim do petróleo está contado, mas ainda será estratégico por mais alguns anos. E a Venezuela está num lugar muito privilegiado. Não estou a falar só pelas reservas de Petróleo, mas pela localização geoestratégica e também pelo facto de estar numa zona do mundo em que não há conflitos ou potenciais conflitos, comparativamente com outras regiões que se têm mostrado mais instáveis. A Venezuela efetivamente ocupa um lugar privilegiado. Há que reconstruir a indústria petrolífera, que continua a ser um recurso estratégico. Mas a Venezuela tem muito mais. A Venezuela tem minerais críticos, a Venezuela tem outro tipo de minérios – é um potencial de recursos, oferece muito mais.
O que seria bom é que esta entrada fosse regulada, fosse gerida de maneira que os venezuelanos também fossem beneficiados com esta mesma entrada. Com a entrada das primeiras petrolíferas, o Estado recebia muito pouco. Foi necessário negociar. É necessário negociar sempre. Só que neste momento, o governo não está em condições de negociar porque não é um governo legítimo, é um governo interino provisório e ainda por cima está a ser tutelado. Por isso é que seria muito bom que houvesse eleição o mais rápido.
Apresenta a comunidade venezuelana quase como uma manta de retalhos entre indígenas, crioulos, negros, caucasianos. Como é que isso ainda se sente hoje na sociedade venezuelana?
A sociedade venezuelana mudou muito. Mas não temos grandes dados. Ainda assim, vamos percebendo que a população da diáspora é constituída por jovens. A Venezuela de hoje é uma Venezuela muito diferente, porque é uma Venezuela envelhecida.
Neste momento não sei dizer, sei que durante muito tempo, sim. No livro, exploro esta ideia de falta de identidade ou de um questionamento sobre a identidade do venezuelano. Houve falta de uma estratégia, seguramente por parte das elites governativas. Só nos anos 1970, é que o povo começou a sentir-se parte de uma comunidade quando começou a se sentir beneficiário do petróleo, dos lucros. E isso alimentou a ideia de uma comunidade imaginada dos filhos do petróleo.
O petróleo parece ter dado sentido a uma comunidade que antes não se percebia como como tal. E quando isto acaba – quando a população já não sente os benefícios –, a Venezuela dividida em grupos étnicos mais negros, mais indígenas e brancos, vai se sobrepor ou vai coincidir com a ideia de uma Venezuela dividida em classes sociais.
Isto gerou muito ódio que, pelo menos durante o período democrático, nunca tínhamos visto.
Ao longo do livro, parece não alinhar muito nas narrativas anticolonialistas, de culpar Espanha. Diz que houve atraso, mas não lhe atribui as principais responsabilidades.
Há toda uma lenda negra à volta de Espanha. São vários os autores que têm tentado desconstruir a lenda negra. Porque, sim, seríamos muito ingénuos se pensássemos que tudo foi mau durante o tempo da conquista e da colonização. Não foi tudo mau, não foi tudo bom. Temos de olhar com responsabilidade e com rigor. Houve uma primeira integração regional feita por Espanha através da língua e da religião.
Não estou aqui a branquear a história da colonização, mas estou só a olhar para dados objetivos no que diz respeito à integração do território. E não há dúvidas que a língua e a religião constituíram elementos importantes para isso.
Sobre a comunidade venezuelana em Portugal. Encontra mais ansiedade agora com as leis mais restritivas da imigração?
Hoje fala-se de perto de 20.000 venezuelanos em Portugal. Ansiedade não sei. O que sei que é que muitos chegaram a Portugal com grandes dificuldades e como eram vistos como cidadãos portugueses, não foram beneficiados em nenhum tipo de política, como refugiados.
Fala muito de desenraizamento no livro. Na conclusão, afirma que espera que certas pessoas encontrem a sua verdadeira identidade na diáspora. Como lusovenezuelana, é uma reflexão em primeira pessoa?
É um pouco provocatório. Também tem a ver com o latino americano. Quem é o latino americano? Qual é a identidade do latino americano? Ele vive ou vai-se integrando noutras sociedades, e vai-se apercebendo de que há rasgos de identidade de que não tinha consciência quando vivia no país. E, portanto, é por isso que, à maneira de provocação, eu digo pode ser que a diáspora descubra a sua identidade em Portugal.
O que eu noto? Eu não falo de mim propriamente porque eu estou cá há muito tempo, mas há muita gente que eu conheço que está disposta a voltar e que deseja voltar para ajudar a reconstruir o país. E é também por isso que eu digo a diáspora ou os venezuelanos da diáspora pode ser que descubram a sua identidade.
E também fez esquecer a guerra na Ucrânia e a guerra noutros sítios. É verdade. O mundo não pode abandonar a Venezuela. Ainda não há sinais de mudança política. É verdade que a transição democrática só poderá ser feita desde dentro, mas seria muito bom que a Venezuela não perdesse a atenção e pudesse contar com a solidariedade do resto do mundo.