De Manchester para Westminster: o que esperar de Andy Burnham?
- 23/06/2026 09:30
- Redação
Perceber o percurso político de Andy Burnham é também perceber as prioridades que poderão marcar um futuro governo trabalhista.
Mais identificado com a ala esquerda do Partido Trabalhista, Burnham construiu grande parte da sua reputação em Manchester, onde promoveu uma agenda centrada na intervenção pública, nos transportes e na descentralização.
A principal prioridade política de Burnham é reduzir o peso de Londres na economia britânica. O trabalhista considera que o modelo atual concentrou riqueza, investimento e poder político na capital, deixando para trás grande parte das regiões inglesas.
Após a vitória eleitoral da semana passada, defendeu: “Esta é a nossa última oportunidade para mudar, mas vamos aproveitá-la. Vamos agarrar essa oportunidade e traçar um novo caminho para a Grã-Bretanha.”
O objetivo passa por promover a reindustrialização do norte de Inglaterra, reforçar o investimento regional e criar um modelo económico que beneficie um número mais alargado de cidadãos.
A descentralização é outra das prioridades assumidas. Burnham defende uma transferência significativa de competências de Westminster para líderes regionais e autarquias.
A ideia resulta da sua experiência em Manchester, onde procurou concentrar localmente decisões relacionadas com transportes, habitação, desenvolvimento económico e serviços públicos.
Os seus apoiantes defendem mesmo que áreas como educação, saúde e outros serviços públicos possam passar a ter maior gestão local.
Grande parte da credibilidade política de Burnham assenta no trabalho realizado em Manchester. O exemplo mais citado é a Bee Network, a rede de transportes públicos criada sob controlo público.
Em 2023, Greater Manchester tornou-se a primeira região inglesa a recuperar a gestão pública dos autocarros desde os anos 1980. A medida permitiu integrar diferentes serviços de transporte sob uma mesma estrutura e reduzir alguns custos para os passageiros.
Na altura, Burnham descreveu o projeto como “um novo amanhecer” e “uma revolução” para os transportes públicos.
Burnham considera que décadas de privatizações e desregulação retiraram capacidade de intervenção ao Estado e criaram ineficiências em vários setores.
Embora não defenda uma vaga generalizada de nacionalizações, admite um maior controlo público em áreas consideradas estratégicas. O setor da água surge como o exemplo mais evidente, sobretudo perante as dificuldades financeiras da Thames Water.
Entre os seus aliados existe a ambição de colocar partes importantes dos setores da água e da energia sob controlo público ao longo da próxima década, embora sem um calendário definido.
As posições económicas de Burnham têm suscitado reservas junto de alguns investidores e analistas.
O trabalhista comprometeu-se a respeitar as atuais regras orçamentais e a não aumentar os principais impostos. Ainda assim, algumas declarações sobre a dependência dos mercados financeiros provocaram inquietação.
“A sua credibilidade económica à escala nacional ainda não foi testada. Continua por demonstrar se a abordagem regional poderá ser aplicada com sucesso à política nacional”, disse Kallum Pickering, economista-chefe do banco de investimento Peel Hunt, à Reuters.
Entre 2009 e 2010, Burnham foi ministro da Saúde no Governo de Gordon Brown. Ora, o trabalhista tem defendido uma reforma profunda do sistema de cuidados sociais, argumentando que essa mudança é essencial para aliviar a pressão sobre o Serviço Nacional de Saúde britânico.
Apesar de ter apoiado a permanência na União Europeia em 2016 e de ter defendido posteriormente um segundo referendo, Burnham evita (pelo menos, para já) colocar a reintegração europeia no centro da agenda política.
O próprio já afirmou que gostaria de ver o Reino Unido regressar à União Europeia durante a sua vida, mas considera que essa não é uma prioridade política imediata.
“Respeito a decisão tomada no referendo”, disse Andy Burnham durante a campanha eleitoral.
Outra das áreas onde poderá surgir mudança é no sistema eleitoral britânico.
Burnham defende uma reforma do atual modelo de maioria simples depois da experiência em Manchester, onde teve de conquistar apoios além da sua base eleitoral tradicional.
O trabalhista propõe a criação de uma comissão nacional para estudar alternativas e apresentar recomendações para futuras alterações legislativas.