Crónica. Jogadores à volta da bola e Cristiano Ronaldo a olhar para a baliza, Portugal chegou ao Mundial
- 23/06/2026 15:58
- Redação
O capitão da seleção fez dois golos no 5-0 de Portugal ao Uzbequistão, mas podia ter feito muito mais (digamos que faltaram as pernas de antigamente). Desta vez, depois de um fantasma assombrado e que assombra contra a RD Congo (questionado também), Cristiano comprou o pacote todo de ser 9: marcar golos, mas também mostrar-se como pivot para desbloquear jogadas (para isto foi necessário haver médios por dentro, finalmente), procurar espaço, morder defesas. Alguém que recusa as areias movediças…
Roberto Martínez mexeu pouco em relação à estreia no Mundial: Rúben Dias e João Félix jogaram por Tomás Araújo e Bernardo Silva. Pedro Neto passou para a direita e Félix, que assinou uma belíssima e completa exibição, jogou pela meia-esquerda, combinando com Nuno Mendes, Bruno Fernandes e Ronaldo, com quem se entende bem da vida no clube.
O golo surgiu logo aos 6’, tal como contra a RD Congo. Desta vez, ninguém olhou para o lado e para trás em demasia. O horizonte continuou a ser o caminho. No final da partida, Martínez diria que Cristiano tem os melhores movimentos do mundo como 9, algo que Gary Lineker já dissera há uns meses. E foi isso mesmo: movimento para o primeiro poste, timing adequado e bater na bola em cheio, com o som lindo e poético que resulta desses gestos magníficos. Outra vez: faz diferença haver tanta gente na área, não foi raro verem-se quatro e cinco jogadores da seleção por lá.
O capitão da seleção nacional, a razão de suspirar para tanta gente que estava naquele estádio de Houston, igualava assim os nove golos de Eusébio em Mundiais, uma marca que alcançou em 1966, quando Cristiano fê-lo em seis participações mundialistas. O madeirense, que meteria o 3-0 e ultrapassaria a lenda do Benfica, tornou-se também o primeiro futebolista a marcar em seis Campeonatos do Mundo – Lionel Messi não molhou a sopa em 2010. Há 20 anos e seis dias, Cris meteu um golo ao Irão, de penálti (inventado por Deco e Figo) e recebeu o cumprimento do companheiro-agora-treinador Ricardo Carvalho.
O futebol fluiu muito melhor com João Neves mais à frente, lá está, ocupando a zona central com Bruno Fernandes e Cristiano e Félix. As sete oportunidades claras de golo, tantas quanto os remates contra os congoleses (seis para fora), provariam-no. Vitinha era o patrão que falava francês, ou seja, recuperava a versão parisiense. Mandava no jogo, ora juntando-se aos centrais, ora perto dos centrocampistas. Havia também muita energia na recuperação da bola, ainda que aqui e ali os uzbeques gozassem de demasiado espaço, o que será letal na madrugada de domingo contra a Colômbia.
João Cancelo ia investindo em cavalgadas especiais. A celebração do 1-0, com assistência dele para Cristiano, denunciava a vontade de estar ali. Bruno Fernandes e a parte exterior da bota iam desbloqueando problemas. Diogo Costa entretanto sujou os calções e até Renato Veiga, que afinal não perdeu o lugar para Gonçalo Inácio, atirou-se para o chão para travar um remate de Khamrobekov já dentro da área.
Cristiano Ronaldo, disponível física e mentalmente e sobretudo liberado da pressão do golo que sempre o afeta e o deixa ansioso, acabaria por flertar sempre sempre com o hat-trick, o que lhe permitira imitar Gabriel Batistuta, o primeiro e único homem a meter três golos num jogo em duas edições do Mundial. Cristiano fez três à Espanha em 2018.
O jogo, que acabou num curto 5-0, acabaria por descer de andamento e interesse. Nélson Semedo e Francisco Conceição foram os primeiros suplentes a entrar. Antes de entrar Francisco Trincão pelo muitíssimo competente e comprometido Félix, Portugal meteu o 4-0 pelo cityzen Khusanov, na própria baliza, e Cristiano quase fez o tal golo combinado malandramente com Bruno Fernandes.
Em paralelo com o carrossel que se ia vendo no relvado, finalmente metendo jogadores no corredor central e no miolo onde tudo acontece, dava-se outro dançante carrossel dos suplentes: Bernardo Silva e Rafael Leão (bom golo, 5-0) entraram por João Neves e Vitinha. Curioso, Rúben Neves e Samu Costa não entraram pelos centrocampistas.
Incompreensível é Cristiano Ronaldo não entrar nesse ballet, até Nuno Mendes que supostamente não está a 100%. O número 7 da seleção tem 41 anos, andou a fazer sprints contra o Uzbequistão, quando estava 4-0 e 5-0. Para quê? Já sabemos, ele quer, ai ai os recordes, por favor deixa-me tentar o hat-trick, o poker. Mas não seria melhor um grupo ter mais gente feliz do que alguém a salivar por algo tão individual? Gonçalo Ramos e Gonçalo Guedes não contaram quando o festim pedia.
A famosa raquete de Trincão, aparentemente triste mas com um bigode impecável, ameaçaram o 6-0. Mas não chegou. No final, era tudo sorrisos, esquecida a exibição com a RD Congo. Talvez os mergulhos na praia, que estranhamente foram tema nacional, possam ser autorizados outra vez. O mar salgado é bom, mas bom bom é jogar bem à bola e a seleção hoje, apesar do adversário muito frágil que defendia num frouxo 5-4-1, diversificou os caminhos e os ventos. Olhou para a frente.