Como jogou Cristiano Ronaldo contra o Uzbequistão? Estivemos 90 minutos a olhar para ele
- 23/06/2026 16:45
- Redação
Cristiano Ronaldo soube ser "9" e Portugal soube jogar com um "9" como Cristiano Ronaldo, esta terça-feira, na goleada (5-0) ao Uzbequistão. É a conclusão a que Bola Branca chega, depois de 90 minutos a observar o capitão da seleção nacional.
O jogo até não começou de feição para Ronaldo, que apareceu um tudo-nada tarde demais a um cruzamento primoroso de Nuno Mendes, um dos melhores em campo. Dois minutos e meio depois, contudo, abriu a contagem com um golo à ponta de lança, com um movimento do centro da área para o primeiro poste, a responder a um cruzamento de João Cancelo e a finalizar como só ele sabe.
Naquele momento, uma nuvem negra pareceu levantar voo, para bem longe do código postal que ocupava há quatro anos, há dez jogos de grandes competições de seleções, desde a primeira jornada da fase de grupos do Mundial 2022. O sorriso apareceu, os ombros descaíram de alívio. Foi um desbloquear para Ronaldo.
Esta terça-feira, e já sem o peso do jejum sobre os ombros, Cristiano Ronaldo soube ser um homem de área. O movimento do 1-0, o sprint e a desmarcação nas costas do central mais à direita no 2-0, antes da finalização de primeira, à ponta de lança, o assumir do papel de pivot quando deixava a zona do "9" e combinava com os companheiros, fazendo de lançador de costas para a baliza.
A equipa também soube jogar com Cristiano Ronaldo, ao contrário do que sucedera frente à República Democrática do Congo, em que o capitão e os demais pareciam dois corpos estranhos entre si, que nem se atraíam nem se repeliam — ficavam simplesmente ali, sem saber bem o que fazer e a atrapalhar-se mutuamente.
Desta vez, Ronaldo cingiu-se mais à posição "9" e ao tal papel de pivot, como referido, e absteve-se de ir procurar tanto jogo longe da área. Não atrapalhou, não sobrelotou e não deixou de fixar os centrais. Uma diferença que é visível quando analisados os mapas de calor do avançado do Al-Nassr frente à RD Congo e ao Uzbequistão.
Mudou a forma como Ronaldo encarou o seu papel, claro, mas também como a equipa soube jogar com ele. Quando o capitão saía da zona "9", quando abria espaços, Bruno Fernandes e João Félix apareciam lá, evitando que a equipa ficasse coxa.
Havia mais jogadores a atacar zonas de finalização, também, ao contrário do que se vira no jogo anterior, em que Ronaldo aparecia tantas vezes como único recipiente possível dos cruzamentos de João Cancelo, Francisco Conceição, Nelson Semedo.
Houve igualmente maior variedade no serviço, não apenas bolas no ar mas também jogadas mais trabalhadas, fosse por dentro ou por fora, com mais pés envolvidos. Quando a bola chegava aos pés do finalizador, fosse ele Cristiano ou outro jogador, vinha mais perfumada, mais redonda e com mais sede de golo.
Se é factual que o corpo de Cristiano Ronaldo já não é o que era — apesar dos feitos, é mero humano e vulnerável à crueldade da biologia — e que o capitão já não é autossuficiente na criação de perigo (longe vão os tempos em que uma bola num campo de hortaliças podia dar golo nos seus pés), não menos o é que, esta noite, ele e a equipa souberam jogar de forma a esconder melhor as marcas da idade.
Neste jogo, o camisola 7 fez sete remates, tantos quantos a seleção inteira fizera diante da RD Congo. Cinco dos remates de CR7 foram enquadrados com a baliza — só o golo de João Neves fora ao alvo na partida anterior. E até houve espaço para falhar (três grandes oportunidades desperdiçadas, segundo o Sofascore), inclusive num livre em que recebeu picado de Bruno Fernandes e só faltou mesmo o golo, porque o timing da desmarcação e a forma como preparou o corpo para o remate foram de grande classe. Pena a grande defesa (algo à maluca) de Abduvokhid Nematov.
Também apareceu, frente ao Uzbequistão, o lado mais altruísta do capitão. Permitiu que Nuno Mendes batesse o livre que deu origem ao 2-0 — um momento "meta", por saber, como explicou, que o guarda-redes estaria à espera que fosse ele a marcar, já que Ronaldo poucas vezes abre mão desses momentos —, afastou-se da bola que Rafael Leão caçou para fazer o 5-0 e lançou companheiros para situações de perigo.
É deste Cristiano Ronaldo que Portugal precisa para o que aí vem do Campeonato do Mundo. Faltou descansar, numa altura em que o resultado já estava feito, embora seja sobejamente conhecida a sede do capitão por mais e mais e mais. Que recupere para o confronto com a Colômbia, o jogo que decidirá o primeiro lugar do Grupo K, marcado para a madrugada de sábado para domingo, às 00h30, em Miami.