Em Girabolhos “todo o mundo está de acordo com a barragem”. Concurso arranca a 15 de julho

  • 24/06/2026 01:34
  • Redação

Agora, o Governo volta a apresentar Girabolhos como um empreendimento de fins múltiplos, integrado numa estratégia de gestão da água, controlo de cheias no Mondego, reforço do abastecimento público, produção de energia renovável e valorização do interior.

Em maio, a ministra do Ambiente e Energia, Maria da Graça Carvalho, garantiu que desta vez não está em causa o antigo modelo de concessão privada, mas um investimento com enquadramento público, no âmbito do programa Portugal Transformação, Recuperação e Resiliência (PTRR). Depois de uma reunião em Lisboa com os autarcas de Seia, Gouveia, Fornos de Algodres, Mangualde e Nelas, o concurso público para a empreitada voltou a ser anunciado.

Para o município, mais do que a barragem, esses são os investimentos “fundamentais e prioritários” para a região. Sem essas contrapartidas, avisa, "existe o risco de Seia suportar apenas os impactos do empreendimento, acentuando as desigualdades entre litoral e interior". A Câmara teme ainda que "o território continue a reservar água para consumo no litoral a um preço mais acessível do que aquele que é praticado localmente, defendendo, por isso, uma harmonização de tarifas como instrumento de coesão social e económica entre regiões".

Nas notícias, há quem pronuncie "Girabôlhos" e quem diga "Girabólhos", a forma correta. A diferença parece pequena, mas numa aldeia o nome é mais do que pronúncia. É pertença, memória, raiz e território. Girabolhos, no concelho de Seia, tem hoje cerca de 300 habitantes (já teve mais do triplo), mas parece maior do que os números. Talvez porque guarde uma igreja matriz imperiosa, dedicada a Santa Justa, uma das capelas mais antigas da região, uma avenida que ainda mostra a aldeia com solenidade e uma antiga escola primária no centro da povoação.

É ali, no centro da povoação, que Armando Abrantes, 62 anos, presidente da Junta de Freguesia eleito nas últimas autárquicas, abre a porta da igreja e interrompe a rotina para contar a história da terra. O telefone toca, ouvem-se passos, a chave roda na fechadura e o autarca sorri quando percebe que vai ser entrevistado. Atende uma chamada e é a mulher a quem conta que finalmente vai ser escutado. Vive mesmo ali ao lado, explica, antes de recordar que o terço é rezado às sete da tarde e que aquela igreja começou a ser construída em 1886, tendo ficado concluída já em 1900. “Nessa altura”, garante, “já Girabolhos falava da barragem”.

A ligação entre o templo e a obra prometida não é apenas simbólica. Armando Abrantes diz que as pessoas que “transportavam areia para a construção da igreja já a retiravam da zona do rio onde hoje se prevê o fundo da barragem. Era trabalho feito depois do trabalho, num tempo de fome e dureza, quando homens e mulheres carregavam gamelos de areia para levantar a igreja que ainda domina a aldeia”.

A barragem de Girabolhos não começa, para os habitantes, nos estudos técnicos, nas declarações políticas ou nos anúncios oficiais. Começa mais atrás, nas histórias ouvidas às avós, nas conversas à porta da igreja e na memória de quem atravessava o rio para namorar, casar ou simplesmente passar para a outra margem.

Armando Abrantes insiste que este não é um assunto novo. Pelo contrário, diz que vem de tão longe que passou de netos para bisnetos e trinetos, sempre com a mesma expectativa: a barragem há de chegar. O presidente da junta recorda que a igreja demorou mais de uma década a ser construída e que, já nesse período, “havia um paredão junto ao rio, ponto de passagem entre margens e vidas”. Fala do tempo da ditadura, de Salazar, para sublinhar que “a promessa atravessou regimes, gerações e governos sem se transformar definitivamente em obra”. A conclusão é simples, mas carrega exaustão: em Girabolhos, “todo o mundo está à espera da barragem”.

O lugar de onde vinha a areia chama-se barca. É uma zona mais larga do rio, onde a água acumula sedimentos quando abranda e os leva quando ganha força. Armando Abrantes ouviu “a história da barragem” desde criança, pela mãe e pelas pessoas que iam à igreja. Segundo ele, é precisamente nesse ponto que poderá nascer o fundo da barragem, caso a obra avance. “A Igreja de Girabolhos foi construída com areia do lugar onde a barragem poderá nascer”, acrescenta o presidente da Junta de Girabolhos.

Armando Abrantes saiu de Girabolhos com 27 anos e passou 32 anos nos Estados Unidos. Trabalhou em restaurantes, esteve 18 anos numa fábrica e regressou há três anos e meio a uma terra que reconhece, mas que já não encontra igual. Foi sacristão, entre os 12 e os 14 anos, e diz que foi vendo “a decadência chegar, primeiro devagar, depois depressa, à medida que as pessoas envelheceram, partiram para lares ou simplesmente deixaram de aparecer nos lugares onde antes se encontravam”.

“Quando tinha 20 anos, Girabolhos tinha sete tabernas, entre cafés e mercearias, espalhadas pela povoação”, vai apontando pela aldeia, o presidente da junta. “Uma ali, outra depois da varanda, outra do lado oposto, mais uma acima”. Não pede que todas regressem. Pede, pelo menos, uma. Se a barragem vier, acredita que alguma coisa poderá melhorar, “nem que seja a possibilidade de a aldeia voltar a ter movimento, procura e convívio. Pior do que está, diz, dificilmente ficará”. Por isso afirma que “todo o mundo está de acordo com a barragem”.

A Associação Recreativa Filhos de Girabolhos existe, mas, segundo o autarca, quase se resume ao futebol. As festas religiosas da Senhora da Cabeça, que também davam vida à terra, estão interrompidas desde a pandemia. As igrejas continuam cuidadas sobretudo por mulheres idosas, algumas já com mais de 90 anos, numa rotina silenciosa que diz muito sobre quem ainda segura a comunidade.

A antiga escola primária é um dos pontos mais sensíveis do discurso de Armando Abrantes. Fica no centro da aldeia, junto à entrada principal, na avenida que o presidente da junta descreve como ex-líbris de Girabolhos. Foi ali que estudou, foi ali que muitas pessoas deram os primeiros passos, mas hoje o edifício tem um destino que o autarca contesta.

Armando Abrantes declara que “a escola está cedida gratuitamente a um pequeno grupo de caçadores, que a utiliza apenas duas ou três vezes por ano para convívios e festas”. Diz que tem pedido à Câmara Municipal de Seia que “aquele espaço passe para a junta, com o objetivo de criar uma universidade sénior”. A proposta, explica, nasce da solidão que encontrou durante o inverno, em casos que descreve como situações de vida ou morte. “Pessoas que se deitaram, perderam a hora da comida e da medicação e foram encontradas dias depois, desidratadas, na cama”.

Para Armando Abrantes, existe “a necessidade de um espaço onde os mais velhos possam ser vistos, acompanhados e chamados pelo nome”. A universidade sénior, defende, permitiria fazer renda, conversar, juntar quem hoje passa os dias sentado num muro, à porta da igreja, junto à lareira ou fechado dentro de casa.

Na sequência de informações transmitidas pela atual junta de freguesia, o município adianta que está a avaliar a situação, nomeadamente quanto à utilização efetiva do espaço e ao cumprimento dos objetivos que estiveram na base da cedência. Segundo a autarquia, essa avaliação permitirá determinar os procedimentos futuros relativamente ao imóvel. A câmara acrescenta ainda que todo este processo “não tem impedido a junta de freguesia de também usar o espaço há vários anos”.

À crítica sobre o uso da antiga escola junta-se outra preocupação. Armando Abrantes diz que, nesses convívios, chegam pessoas da Mealhada, de Aveiro e de Anadia com muitos animais transportados em caixas, sem espaço para se manterem de pé, “acamados como sardinhas”, durante horas, ao calor ou ao frio. Para o presidente da junta, o uso daquele património público devia ser reavaliado não apenas por razões sociais, mas também pelas condições em que, segundo afirma, os animais são mantidos nesses encontros.

Sobre esta matéria, a Câmara Municipal de Seia garante que “não tem conhecimento de qualquer situação relacionada com alegadas condições inadequadas de transporte ou permanência de animais no local”. A autarquia acrescenta que, caso “sejam apresentadas denúncias concretas ou elementos objetivos que justifiquem averiguações, as entidades competentes poderão naturalmente analisar a situação”. Em comunicado, o município esclarece ainda que “mantém total disponibilidade para avaliar futuras utilizações do espaço, procurando encontrar a solução que melhor sirva a população de Girabolhos”. A Câmara assegura que, “à semelhança do que acontece noutras situações, a opinião da Junta de Freguesia será naturalmente considerada neste processo de decisão”.

Sobre a criação de uma universidade sénior, o município diz não ter conhecimento da existência de qualquer projeto promovido pela Junta de Freguesia de Girabolhos, nem ter recebido uma proposta formal nesse sentido. Apenas a título informal, refere, recebeu em 2025 a anterior junta de freguesia e alguns cidadãos com a intenção de criar um centro de dia na localidade.

Relativamente à situação social da freguesia, a Câmara Municipal de Seia revela que “tem desenvolvido um acompanhamento próximo através do Radar Social, projeto que se encontra no terreno desde 2025”. Segundo a autarquia, “em Girabolhos foram identificadas 33 pessoas em situação de vulnerabilidade social, tendo sido encaminhadas para respostas adequadas às suas necessidades”.

“Atualmente, sete dessas pessoas beneficiam de acompanhamento regular no âmbito da medida Gestor 60+, integrada no Contrato Local de Desenvolvimento Social de Seia. As situações referidas pelo presidente da Junta foram sinalizadas e acompanhadas através deste trabalho de proximidade, encontrando-se duas dessas pessoas atualmente institucionalizadas”, acrescenta o município.

A barragem é vista em Girabolhos como uma esperança económica, mas também como uma possível resposta para um território cada vez mais vulnerável ao abandono, ao envelhecimento e aos incêndios. Na semana da reportagem, estavam previstas temperaturas acima dos 40 graus. Armando Abrantes liga esse cenário a uma queixa recente: a alegada falta de água nas bocas de incêndio da freguesia.

O presidente da junta afirma que, “precisamente quando abriu o período crítico de incêndios, foram bloqueadas as bocas de incêndio da freguesia”. Segundo o autarca, a APdSE, Águas Públicas da Serra da Estrela, entidade responsável pela gestão destas infraestruturas, esteve na localidade duas semanas antes, cortou a água e levou as manetes necessárias para abrir e fechar os equipamentos. Armando Abrantes garante que enviou mensagens e e-mails para tentar resolver a situação, mas aproveita o episódio para fazer uma crítica mais ampla à forma como, no seu entender, o poder local olha para as aldeias pequenas. “As pessoas são eleitas pelo voto do povo e depois esquecem o próprio povo quando o território deixa de ser produtivo do ponto de vista dos números”.

A Câmara acrescenta que, “sendo a APdSE a entidade competente nesta matéria, o município tem como referência a informação prestada por aquela entidade, não dispondo de elementos que sustentem a alegada retirada de equipamentos ou a existência de qualquer condicionamento ao funcionamento das bocas de incêndio”.

Com base nessa informação, o município refere ainda que “não existe conhecimento de qualquer situação que comprometa a operacionalidade destas infraestruturas ou a capacidade de resposta em caso de incêndio”. A autarquia sublinha, por fim, que “estas mesmas informações já tinham sido prestadas pela APdSE à Junta de Freguesia, em resposta a uma solicitação anteriormente efetuada pela própria”.

A cerca de três quilómetros da povoação, a estrada muda. O alcatrão mais recente deixa perceber outro rumo, como se a paisagem tivesse sido preparada para uma obra que ainda não chegou ao fim.

Quem entra por ali percebe porque é que a barragem deixou de ser apenas uma promessa administrativa. Há sinais no terreno, memórias antigas e a sensação de que muita coisa ficou suspensa a meio.

Armando Abrantes acredita que “a barragem será feita”. Diz ter “fé e esperança”, não apenas por Girabolhos, que “considera não poder estar muito pior do que está”, mas também por populações a jusante.

O responsável pela freguesia observa Coimbra e “a necessidade de aliviar o impacto das cheias, acrescentando que a obra não deve ser olhada só a partir da aldeia”. Quando lhe perguntamos o que falta, responde “que falta vontade, sobretudo vontade política”. Na sua perspetiva, “quando o dinheiro e os números prevalecem, as obras param, mesmo quando já parece estar tudo encaminhado”.

O próprio autarca apresenta a sua presença na junta como um exercício de boa vontade. Diz que tem “a vida estabilizada e que não precisava de passar tantas horas por dia a correr de problema em problema”. Ainda assim, descreve-se como “uma espécie de SOS da freguesia, chamado para quase tudo, dos pequenos assuntos administrativos às situações humanas mais delicadas”.

Zélia Silva fará 94 anos dentro de dois meses e também cresceu a ouvir falar da barragem. Para ela, a “obra deve avançar”, porque “a promessa se arrasta há demasiado tempo”.

Recorda que ainda era quase criança quando “já se trabalhava ou se falava em trabalhos ligados ao projeto”. O pai, diz, participou em medições e avaliações quando ela era ainda solteira, talvez com 26 ou 27 anos.

Zélia admite que a barragem poderá trazer “sobretudo coisas boas” embora não aprecie o nevoeiro, “porque as videiras não gostam”. Mas, quando olha para a dimensão da aldeia e para a pouca gente que nela permanece, conclui que a obra pode dar vida a Girabolhos. “É uma aldeia grande, tem pouca gente e já é quase tudo de uma certa idade”.

O irmão de Zélia é Licínio Cunha, economista e professor que serviu como secretário de Estado do Turismo nos governos liderados por Aníbal Cavaco Silva. A referência surge como garantia de que “o irmão lhe disse que a barragem vai mesmo avançar”. Ainda assim, lamenta que uma obra falada há tanto tempo possa continuar por fazer. Para ela, “depois de tantas décadas, seria pena que Girabolhos voltasse a ficar à espera”.

Entre os receios associados à barragem, há quem fale de alterações no clima local, impacto nas vinhas, nos olivais e até na neve da Serra da Estrela.

Em Girabolhos, a barragem já existe na areia da igreja, nas histórias das avós, nos namoros antigos junto ao rio, nas medições feitas por pais já desaparecidos, nas tabernas que fecharam, na escola primária sem crianças, nas pessoas idosas que passam dias sem companhia e na esperança de que alguma coisa volte a acontecer.

O que se ouve na freguesia não é uma discussão técnica sobre todos os impactos da obra. É antes a convicção de que a espera durou demasiado e de que a aldeia não pode continuar a ser apenas o lugar de uma promessa adiada. Talvez por isso, em Girabolhos se sinta que a aldeia é muito maior do que os números.

  • Fonte: Rádio Renascença
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