Cobra invasora aprendeu a nadar e acelera risco de extinção de lagarto nas Baleares

Cobra invasora aprendeu a nadar e acelera risco de extinção de lagarto nas Baleares

  • 24/06/2026 07:53
  • Redação

A ameaça das cobras invasoras já se tornou uma das maiores preocupações ambientais das Ilhas Baleares. A rápida expansão da cobra-ferradura está a transformar os frágeis ecossistemas do arquipélago espanhol, colocando em perigo espécies únicas do Mediterrâneo que não existem em mais nenhum lugar do mundo.

A situação é particularmente preocupante em Ibiza, onde os especialistas estimam que cerca de 90% do território já esteja ocupado por esta espécie não venenosa. Apesar de não representar perigo para os seres humanos, a cobra-ferradura tornou-se um dos principais predadores das lagartixas endémicas das ilhas, provocando um declínio acentuado das suas populações.

Sem predadores naturais capazes de controlar a sua população, as cobras encontraram nas Baleares condições ideais para se multiplicarem. O impacto tornou-se ainda mais evidente quando os cientistas começaram a registar desaparecimentos locais da lagartixa-das-Pitiusas, uma espécie vulnerável exclusiva de Ibiza, Formentera e dos pequenos ilhéus que rodeiam ambas as ilhas.

Nos últimos anos, os investigadores documentaram um fenómeno que agravou os receios ambientais: alguns exemplares de cobra-ferradura foram observados a nadar entre ilhas e ilhéus à procura de novas fontes de alimento. Este comportamento aumenta significativamente a capacidade de dispersão da espécie e dificulta qualquer tentativa de controlo.

Em Ibiza, onde foram instaladas 1.930 armadilhas, foram capturadas 3.604 serpentes, das quais 3.528 eram cobras-ferradura. Já em Formentera, as autoridades capturaram 893 exemplares e confirmaram a presença da espécie junto ao porto de La Savina, evidenciando a contínua expansão da invasão.

A preocupação dos especialistas vai além da perda de biodiversidade. As lagartixas desempenham um papel fundamental nos ecossistemas locais, ajudando a controlar populações de insetos, dispersando sementes e contribuindo para a polinização de várias plantas.

O maior receio centra-se agora nos pequenos ilhéus em redor de Ibiza e Formentera, onde sobrevivem populações de lagartixas com características genéticas únicas no mundo. Os especialistas alertam que a chegada das serpentes a estes locais pode provocar extinções locais irreversíveis e comprometer um património natural considerado insubstituível.

Perante esta ameaça, as autoridades regionais decidiram reforçar o combate às espécies invasoras. Pela primeira vez, as armadilhas passaram a funcionar durante todo o ano, incluindo os meses de inverno. Além disso, está previsto um aumento de 44% dos recursos humanos dedicados ao controlo das serpentes e a criação de refúgios livres de cobras para proteger as populações mais vulneráveis de lagartixas.

Em paralelo, foi lançado um programa de conservação genética em colaboração com o Jardim Zoológico de Barcelona. Em abril deste ano, 33 exemplares de lagartixa-das-Pitiusas provenientes de cinco ilhéus vulneráveis foram integrados num programa de reprodução destinado a preservar a diversidade genética da espécie.

A cobra-ferradura não é a única invasora presente nas Baleares. Atualmente, pelo menos quatro espécies de serpentes introduzidas habitam o arquipélago. Ainda assim, os especialistas sublinham que nenhuma delas é venenosa para o ser humano, pelo que o principal risco continua a ser ambiental e não para as pessoas.

Perante um fenómeno que já alterou profundamente alguns ecossistemas insulares, os investigadores alertam que a preservação da biodiversidade das Baleares dependerá da capacidade de travar a expansão destas espécies invasoras e proteger os habitats que ainda resistem à invasão.

Com o aumento do número de avistamentos em praias, trilhos e zonas rurais das Baleares, as autoridades ambientais reforçaram as recomendações para quem se depare com uma serpente.

Apesar da preocupação crescente, os especialistas recordam que as espécies invasoras identificadas no arquipélago não são consideradas perigosas para os seres humanos. Ainda assim, aconselham prudência e o cumprimento de algumas regras básicas.

A primeira recomendação é manter a calma e evitar qualquer tentativa de capturar ou manipular o animal. Embora estas cobras não sejam agressivas, podem morder se se sentirem ameaçadas ou encurraladas.

As autoridades sugerem também que as pessoas se afastem lentamente e mantenham uma distância de segurança, permitindo que a serpente siga o seu caminho sem interferências.

Sempre que possível, é útil fotografar o exemplar à distância, sem correr riscos, para facilitar a sua identificação pelos serviços ambientais. A localização exata do avistamento deve ser comunicada às autoridades responsáveis pela monitorização das espécies invasoras.

No caso de uma mordedura, situação considerada pouco frequente, recomenda-se a limpeza da zona afetada com água e sabão neutro e a vigilância da evolução dos sintomas. Embora as espécies presentes nas Baleares não sejam venenosas, qualquer agravamento da situação deve motivar a procura de assistência médica.

Os especialistas sublinham que o verdadeiro problema destas serpentes não reside no perigo para as pessoas, mas sim no impacto que exercem sobre a fauna local. Por essa razão, a colaboração dos residentes e turistas na comunicação de avistamentos é considerada essencial para acompanhar a expansão das espécies invasoras e proteger os frágeis ecossistemas do arquipélago.

  • Fonte: Rádio Renascença
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