Teatro D. Maria II com mais mulheres na programação e espetáculos mais tempo em palco
- 24/06/2026 18:06
- Redação
Será a 18 de setembro, com a chamada “peça maldita”, que abrirá a nova temporada do Teatro Nacional D. Maria II. É o regresso à sala do Rossio depois de três anos de obras e portas fechadas em Lisboa.
A peça da qual todos têm medo de dizer o nome é de William Shakespeare. “Macbeth” sussurrou Pedro Penim na apresentação da temporada, esta quarta-feira, no palco do D. Maria.
O diretor artístico explica que quis “quebrar tabus”. É que Macbeth foi a “peça que estava em cena na fatídica noite de 2 de dezembro de 1964, quando um poderoso incêndio deixou o teatro em ruínas”. “Macbeth vai regressar à Sala Garrett para desafiar o destino”, assume Pedro Penim, que contará com o ator José Raposo no principal papel.
A peça dará o pontapé de saída para um fim de semana de festa na sala do Rossio, com entrada gratuita. “Para celebrar este regresso tão aguardado, preparámos três dias de festa de entrada livre, nos dias 18, 19 e 20 de setembro, que convida o público a reencontrar este espaço emblemático da cidade de Lisboa”.
“Rossio em festa” é o mote deste fim de semana de setembro que irá assinalar os 180 anos do Teatro Nacional com uma projeção de “vídeo mapping de criação dos United VJS, um coletivo de artistas audiovisuais multidisciplinares” na fachada do teatro.
“Vamos ter também DJs Sets ao longo da noite que vão alternando com estes momentos de vídeo mapping com sonoridades de três DJs, ZenGxrl, Beatbombers e DJ Marfox, que irão pôr o público a dançar, transformando a Praça D. Pedro IV, o Rossio, numa pista de dança”, indica Penim.
Na apresentação do cartaz que se seguirá nos meses seguintes há duas apostas claras. Por um lado, explicou o diretor artístico, querem ter os espetáculos em cena mais tempo.
Serão espetáculos que estarão em cena várias semanas. “Vivemos um tempo que está marcado pela velocidade, pela fragmentação da atenção, pela lógica permanente da novidade, para o bem e para o mal. O teatro tem hoje a responsabilidade de oferecer uma outra experiência do tempo”, destacou Penim.
“Uma das decisões que mais nos entusiasma nesta temporada é o regresso das carreiras mais longas”, acrescentou, querendo com isto que o público tenha tempo para se deslocar ao teatro, ver e discutir as peças.
Um dos exemplos desse tempo demorado em palco será logo o espetáculo de abertura, "Macbeth" que estará em cena na Sala Garrett de 18 setembro a 31 outubro.
Outra das apostas são as criações no feminino. “Fazemo-lo não porque tenhamos partido de uma agenda estatística”, sublinha Pedro Penim, que acrescenta que as mulheres que “estão em maioria” nesta temporada representam “uma parte fundamental do pensamento artístico mais desafiante e estimulante do nosso tempo”.
Elas são “mulheres criadoras, encenadoras, dramaturgas e pensadoras que dirigem os seus projetos”, diz o diretor, que enumera algumas: “Sara Carinhas, Beatriz Batarda, Keli Freitas, Mónica Garnel, Zia Soares, Sara Barros Leitão, Raquel Castro, Cláudia Jardim, Lígia Soares, Joana Craveiro, Áquila A.k.a Puta da Silva, Paula e Mariana Sá Nogueira, Alice Azevedo, Cátia Terinca ou Joyce de Souza”.
Keli Freitas irá apresentar, de 23 a 27 de setembro, um projeto participativo com pessoas imigrantes. Foram escolhidas sete pessoas entre dezenas de candidatos e que são de países como São Tomé e Príncipe, Nepal, Bangladesh ou Irão.
Em outubro, de 8 a 31, Raquel Castro apresenta na Sala Estúdio, “Sumário – Auto da Barca do Inferno” a partir da obra de Gil Vicente, que questiona a forma como a obra do dramaturgo é estudada nas escolas. Esta é uma peça que vai percorrer vários municípios, entre eles Odemira, Pombal ou Paredes de Coura, dando assim continuidade às redes de contato criadas no projeto Odisseia Nacional.
A partir de 26 de novembro e até 13 de dezembro, a atriz e encenadora Beatriz Batarda apresentará “A Cantora Careca”. A peça contará com quatro novos atores saídos da escola de teatro.
Já Joana Craveiro levará a questão da vida quotidiana da população palestiniana ao palco do D. Maria na peça “Desver”, de 23 a 25 de outubro. De 11 a 13 de dezembro, Sara Barros Leitão repõe em cena a peça “Suplicantes”, a partir de Ésquilo. Uma peça que “questiona o projeto europeu”, destacou Pedro Penim.
Para 2027 está também programada a peça “Pessoas, Lugares e Coisas” ,de Duncan Macmillan, com encenação de Sara Carinhas e protagonizada por Benedita Pereira.
Mas a programação também se faz no masculino. Um dos destaques foi a peça “Blackface”, do ator Marco Mendonça, que já venceu no passado o Prémio Revelação D. Maria II/Ageas. Estará em palco de 20 de maio a 5 de junho e parte de experiências pessoais e é “uma conferência musical”, diz Penim.
Para “grandes públicos” será levada à cena um texto original de Hugo Van der Ding e Martim Sousa Tavares. “O Fantasma de D. Maria II” contará com a encenação de Monica Calle e é uma comédia e assinalará os 180 anos do D. Maria.
O público que vai entrar na Sala Garrett a 18 de setembro quase não dará conta das obras que foram feitas. “Trata-se de um Monumento Nacional”, aponta Rui Catarino, que explica que “não podemos fazer tudo”. O presidente do conselho de administração do D. Maria justifica assim que as obras feitas sejam quase impercetíveis a olho desarmado.
Um novo ar condicionado, “uma afinação” de cor nas paredes da Sala Garrett que ficaram ligeiramente mais escurecidas para evitar que absorva tanto as luzes do palco ou novos “damascos” a cobrir as paredes da sala principal do teatro do Rossio, são algumas dessas alterações.
A obra mais profunda está nos bastidores. Todo o andar superior que antes guardava os adereços é agora o grande espaço de trabalho para as equipas do teatro. Antes estavam espalhadas por pequenas salas, algumas delas “sem luz natural”, indica Rui Catarino.
Exemplo disso é o que aconteceu na sala de costura do D. Maria que passou a ter três janelas de teto que permitem a entrada de luz natural. Mas nos bastidores houve outras obras também elas invisíveis ao público.
A remodelação que contou com um investimento de mais de 15 milhões de euros do PRR e que tem a autoria do arquiteto Francisco Pólvora, passou também por um novo sistema de combate a incêndios e uma “intervenção no mecanismo rotativo do palco e no quadro da mecânica de cena”, diz Catarino, explicando que “são duas intervenções técnicas muito pesadas e especializadas”.
Para mexer na estrutura que “tem 110 toneladas” contaram com a colaboração de “um dos engenheiros consultores, o Erik que esteve cá, como esteve em 1978, para montar este equipamento”, explica Rui Catarino.
Há também um novo sistema mais discreto que permite pendurar a iluminação na Sala Garrett, onde o camarote presidencial foi também intervencionado, “permitindo” que passe a ser usado pelo público e conferindo mais oito lugares à capacidade da sala principal.
Todas estas mudanças vão poder ser vistas, antes de dia 18 de setembro. O D. Maria II está a promover o “Prólogo”, uma programação que antecede a abertura e que conta com visitas guiadas ao edifício.