ULS Almada e o Verão: "As escalas estão feitas, mas estamos longe de estar tranquilos"

  • 25/06/2026 02:00
  • Redação

"Foi um desafio a vários níveis, mas podemos dizer que está a correr bem", diz o presidente do conselho de administração da Unidade Local de Saúde (ULS) Almada-Seixal, Pedro Correia Azevedo, sobre a urgência regional de ginecologia/obstetrícia.

Começou a funcionar a 15 de Abril e até 17 de junho já realizaram 661 partos e 4.869 admissões na urgência, números que duplicaram face o mesmo período do ano passado.

Com o pico do Verão a aproximar-se, garante que as escalas para as urgências são feitas com a maior antecipação que é possível. Mas estão "longe de estar completamente tranquilos e seguros".

Como está a correr a urgência regional de obstetrícia e ginecologia? Foi um desafio a vários níveis, mas podemos dizer que está a correr bem. A nossa atividade está a decorrer de forma ininterrupta desde a abertura. Temos um aumento significativo da nossa possibilidade de oferta e de previsibilidade dos serviços que prestamos. Isso permitiu atrair também alguns médicos para esse projeto e reestruturar um bocadinho a resposta de ginecologia e obstetrícia em contexto de urgência e de não-urgência.

Qual é que foi o aumento da atividade? Neste momento, temos um aumento da atividade face ao período homólogo do ano passado, de 113% no número de partos e de 130% no número de admissões. Recebemos também as mulheres da área de influência direta da ULS Arco Ribeirinho (Barreiro-Montijo), e isto resultou num aumento da atividade. Houve um reforço da equipa médica, não só com contratações feitas ao longo do último ano para os serviços de ginecologia e de obstetrícia, e há também o contributo de profissionais da ULS do Arco Ribeirinho para esta atividade.

De quantos médicos e enfermeiros falamos? Estamos a falar de um corpo clínico que ronda os 20 médicos e temos enfermeiros especialistas em saúde materna e obstétrica que nos permitem tentar aproximar daquilo que é a dotação segura. Temos entre oito a 10 enfermeiros especialistas em saúde materna por turno e estamos a fazer urgências com cinco médicos por turno, segundo as recomendações, tendo em conta a nossa taxa de afluência.

Qual é o contributo do Barreiro nestas equipas? Ainda não é o que gostaríamos, mas também têm constrangimentos a nível dos recursos humanos. Os médicos que têm idade para fazer urgência foram todos mobilizados para a urgência regional no polo da Almada. Neste momento são três.

Mais partos implicam mais mulheres internadas, capacidade de neonatologia. Como tem sido feita essa gestão? Nós previmos este aumento de produção e fizemos a reestruturação, não apenas da resposta de urgência, mas da restante resposta. Aumentámos o internamento afeto ao serviço de obstetrícia, permitindo mais vagas com alguma flexibilidade.

Em termos de neonatologia, já éramos referência muitas vezes para a transferência de alguns bebés que nasciam em Setúbal ou no Barreiro e estamos a conseguir dar resposta. E dentro do que é a rede hospitalar, temos a articulação que tínhamos habitualmente, quando há necessidade, com outros hospitais, nomeadamente as ULS de São José e de Santa Maria.

Estamos com uma capacidade de internamento de puérperas de 30 vagas e em termos de grávidas temos 20 vagas de internamento. Isto permite uma gestão flexível em caso de necessidade.

Ponderam criar um centro de elevado desempenho? Os centros de elevado desempenho são uma ferramenta interessante e apelativa para a atracção de talento. Sim, ponderamos criar um centro de elevado desempenho. De resto, isso é um desígnio da tutela, após a publicação da portaria que regulamenta este decreto-lei.

É só a regulamentação que falta para colocar esse projeto em marcha? Falta a regulamentação e terminarmos o nosso trabalho interno de planeamento do centro de elevado desempenho. Tudo nesta gestão tem sido feito em várias fases. Passámos pela fase de recuperar o serviço, de atrair médicos, neste momento temos de realocar os nossos enfermeiros e atrair mais enfermeiros especialistas em saúde materna e obstétrica para conseguimos dar essa resposta. E depois construirmos formalmente o nosso centro de elevado desempenho em conjunto com os médicos que vêm da ULS Arco Ribeirinho.

Quantos mais médicos e enfermeiros precisam? Ainda temos um défice de cerca de 18 enfermeiros em horário completo no bloco de partos e precisaríamos de mais dez médicos para ficarmos completamente confortáveis.

Receberam seis vagas, três das quais com incentivos, para contratar novos médicos. Quantos candidatos tiveram?

Tivemos cinco candidatos. Diria que é bom, tendo em conta o contexto em que estávamos há pouco mais de um ano. Três ficaram com incentivos e dois ficaram sem — há um critério que foi decidido pelo júri que fez o concurso — e agora aguardamos a aceitação das vagas.

Olhando para o pico do verão, pode garantir que não haverá fecho das urgências de ginecologia/obstetrícia e de pediatria?Posso garantir que vamos ter a urgência a funcionar. Haverá sempre a possibilidade de termos imprevistos, mas temos feito o planeamento de forma a conseguir ter a urgência de ginecologia e de obstetrícia e de pediatria aberta nos modos que temos tido até aqui.

E as urgências gerais também?As urgências gerais também. Nunca fechámos a urgência geral. Podemos dar nota de que temos alguns constrangimentos em termos de recursos humanos, mas isso são os constrangimentos transversais ao SNS e decorrentes de uma série de factores que poderíamos discutir. Mais do que só a urgência, tem sido a nossa capacidade de verdadeiramente integrar com os cuidados de saúde primários e fazer da resposta à doença aguda um desígnio.

A ULS Almada-Seixal tem 84% de taxa de cobertura de utentes com equipa de família, o que é positivo do ponto de vista do acompanhamento dos utentes e nos permite ter algum conhecimento direto sobre os doentes. E temos diariamente cerca de 800 vagas de doença aguda abertas nos cuidados de saúde primários que permitem o encaminhamento de doentes que contactam o SNS 24, ou que acorrem diretamente às unidades, ou que podem ser reencaminhados do serviço de urgência no caso serem triados com cor verde ou azul, no âmbito do projeto "Ligue Antes, Salve Vidas".

Temos inúmeros constrangimentos, não apenas de recursos humanos, mas também de espaço físico. O serviço de urgência nunca teve uma grande reestruturação em termos de espaço físico desde a abertura do hospital. Estamos seriamente a planear a possibilidade de reestruturar o espaço físico.

O projeto "Ligue Antes, Salve Vidas" tem aliviado a pressão sobre a urgência geral?Aliviar a pressão sobre a urgência geral em termos das admissões ou da taxa de admissão, sim. E também porque de 2024 para 2025, e parece que em 2026 essa tendência se mantém, há um decréscimo do número de pessoas que recorrem à urgência. Mas há um conjunto de outros constrangimentos que importa refletir.

Temos utentes cada vez mais idosos e com mais complexidade em termos de patologia, temos problemas sociais muito importantes e estamos a falar de uma ULS em que isso se reflete diretamente até no prorrogamento de altas. Temos 79 doentes internados nas camas do hospital com prorrogamento de alta, mais 69 em camas contratualizadas, e temos no serviço de urgência entre 60 a 70 doentes que estão internados a aguardar vaga [no internamento]. Esse é um constrangimento muito importante, que leva ao consumo de recursos humanos e à pouca atractividade para o serviço de urgência, porque acaba por ser uma carga assistencial muito grande sobre os profissionais.

E pouca atratividade também para a medicina interna, que é uma especialidade em que tem sido difícil preencher vagas?A medicina interna não parece neste momento ser uma especialidade atrativa, não tem se calhar a parte sexy de outras especialidades, e não temos preenchido as vagas todas. Contudo, temos conseguido atrair alguns profissionais que saíram do hospital e o exemplo disso é o concurso que agora decorre. Dois profissionais que tinham seguido outros caminhos regressam agora ao hospital enquanto assistentes hospitalares.

Há outras carências? A anestesiologia costuma ser problemática.A anestesiologia é um grande problema e é uma especialidade na qual temos vindo a trabalhar para melhorar a atratividade. Temos um quadro muito contraído de anestesistas, e, neste momento, temos uma nova era a tomar caminho. Fizemos recentemente um concurso para a direção e trouxemos uma médica de fora da ULS que está a dirigir o serviço. Está a decorrer o concurso [para médicos recém-formados] e temos quatro candidatos. Há um ano seria quase impensável que quatro médicos concorressem ao hospital.

O que é um quadro muito contraído?Temos, neste momento, no quadro do hospital com contrato individual de trabalho oito anestesistas.

Precisariam de quantos?Precisaríamos de muito mais. Para estarmos confortáveis precisaríamos de cerca de 50 anestesistas.

Como é que isto afeta as cirurgias e as consultas?Temos, obviamente, uma dependência muito grande de prestadores de serviços. Temos conseguido dar resposta com o esforço da equipa residente e dos prestadores de serviços que têm vindo a ter alguma estabilidade. Alguns deles concorrentes a este concurso para vestirem ainda mais a camisola da ULS e integrarem equipa. E temos tentado reinventar um bocadinho a nossa resposta da anestesia e tentar ser atrativos de outro ponto de vista.

Temos uma excelente unidade de cirurgia ambulatória — que faz inveja a grandes hospitais — que precisa de um projeto clínico estruturado e é nesse projeto que estamos a trabalhar. Existe um conjunto de outras inovações, nomeadamente jornadas clínicas, que podem ser feitas para alguns doentes em concreto.

Por exemplo, na ortopedia a jornada clínica do doente perioperatório pode ser optimizada através de projetos de telessaúde e isso é atrativo para alguns profissionais. A ULS tem um conjunto de condições muito interessantes a vários níveis. Temos o único serviço de medicina nuclear a sul do Tejo muito diferenciado, houve um investimento muito grande no último ano em termos de parque tecnológico e temos três TAC, renovámos a segunda ressonância, temos cirurgia robótica, inclusive em otorrinolaringologia, que é uma área de nicho. Isto também é um polo de atratividade.

E no total do hospital?Temos prestadores de serviços mais estáveis, outros menos estáveis. Contratos de prestação de serviços temos mais de uma centena.

A nova legislação abre uma janela para os hospitais poderem contratar prestadores de serviços em determinadas condições. Há expetativa de que possam vir a contratar?Estamos a fazer os contactos para tentar contratar essas pessoas.

E haverá orçamento?Teremos de fazer a nossa ginástica orçamental, mas, sem dúvida nenhuma, temos de apontar a agulha para aquilo que é essencial. Sem recursos humanos não faço cuidados de saúde.

A regulamentação ter saído já em pleno verão, tal como as alterações do pagamento das horas extras aos médicos do quadro, complicou de alguma forma as escalas para os próximos meses?Já estávamos a contar que esta legislação acabasse por sair. Temos vindo a fazer as nossas escalas antecipadamente, o mais antecipadamente possível, e isso tem-nos dado alguma previsibilidade e tranquilidade. Estamos longe de estar completamente tranquilos e seguros, mas temos conseguido imprimir alguma responsabilidade e compromisso por parte das pessoas, mesmo na prestação de serviços, pedindo-lhes uma regularidade que é exigida para que o cuidado seja adequado.

E em relação aos médicos do quadro que fazem horas extras, também não houve nenhuma alteração?Ainda é precoce dizer se temos alguma alteração. Não há nenhuma alteração neste momento em relação à disponibilidade dos médicos para as horas extras.

Os sindicatos dizem que a nova lei penaliza os médicos, pois terão de trabalhar mais para receber o mesmo. Isto poderá ter impacto nessa gestão? Por esta altura, muitos médicos estarão a aproximar-se ou a esgotar o limite anual de horas extraordinárias obrigatórias.A maioria dos médicos que fazem urgência de forma regular já esgotou o seu limite anual de horas extraordinárias, aquela bolsa disponível das 250 ou das 150 mediante o regime. Se têm de trabalhar mais para ganhar o mesmo, não tenho tanta certeza relativamente a isso.

O que sei é que, se vamos falar de exaustão e de "burnout", não precisamos de chegar aqui para falar sobre isso. Temos vários estudos que nos apontam o "burnout" na classe profissional de forma muito evidente, há muitos anos. Arrisco-me a dizer que este é um tema regular na nossa agenda há cerca de uma década e não tínhamos a legislação que temos agora.

  • Fonte: Rádio Renascença
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