Descoberto em Badajoz um carro de bronze único na Península Ibérica com 2.500 anos
- 25/06/2026 06:35
- Redação
Um carro votivo de bronze com cerca de 2.500 anos, considerado único na Península Ibérica, foi descoberto durante a mais recente campanha de escavações no sítio arqueológico de Casas del Turuñuelo, no concelho de Guareña, na província de Badajoz. A peça, dedicada a uma divindade, distingue-se pela riqueza da sua decoração, pela sofisticação da sua construção e pelo seu simbolismo, sendo considerada pelos investigadores uma das descobertas mais importantes realizadas naquele complexo arqueológico.
O achado foi apresentado esta quarta-feira pelos responsáveis pelo projeto de investigação, numa conferência de imprensa realizada na sede do Conselho Superior de Investigações Científicas (CSIC), em Madrid.
A co-diretora da investigação, Esther Rodríguez, destacou a singularidade da descoberta, afirmando que o carro é "uma peça única na Península Ibérica e sem paralelos conhecidos até à data no que respeita à sua complexidade decorativa e iconográfica".
O objeto foi encontrado durante as escavações no corredor S3 do edifício principal, um espaço de carácter ritual onde os arqueólogos já tinham identificado anteriormente estruturas de grande relevância, entre elas um altar em forma de pele de touro. Para os investigadores, o contexto em que surgiu reforça a hipótese de que o carro desempenhava uma função cerimonial ligada ao culto religioso.
Da estrutura original conserva-se cerca de metade do veículo, incluindo duas rodas e parte da caixa principal. Apesar de incompleto, o estado de conservação permite estudar em detalhe tanto a técnica de fabrico como a decoração.
A decoração inclui uma representação frontal de Aqueloo, uma divindade fluvial conhecida nas culturas grega e etrusca, bem como dois grifos colocados nas extremidades da estrutura e duas figuras masculinas do tipo atlante que sustentam a caixa do carro. Para os especialistas, estes elementos revelam fortes influências mediterrânicas e um sofisticado programa simbólico.
Os investigadores sublinham ainda que não existe atualmente qualquer exemplar comparável na Península Ibérica. Apesar de serem conhecidos alguns paralelos no mundo etrusco, nenhum reúne as mesmas características técnicas e decorativas.
Depois da limpeza e documentação iniciais, a peça será agora sujeita a análises especializadas para determinar com maior precisão a sua cronologia, funcionalidade e significado arqueológico.
A descoberta integra a oitava campanha de escavações, realizada entre abril e maio, que incidiu sobre os setores norte e sul do grande túmulo onde o edifício principal foi deliberadamente selado no final do século V a.C. Os trabalhos permitiram igualmente identificar novas salas e corredores em redor da divisão H-100, a maior escavada até ao momento.
Sobre esta evolução dos trabalhos, Esther Rodríguez explicou que "os trabalhos permitiram documentar novas salas e espaços de circulação que ampliam o conhecimento sobre a arquitetura do complexo tartéssico, cujo estado de conservação continua a ser excecional", salientando que cada campanha continua a revelar novos aspetos sobre este importante centro da cultura de Tartesso.
Além do carro votivo, foram recuperados dois braseiros e um caldeirão de bronze, objetos que evidenciam a riqueza do complexo, embora a quantidade de cerâmica encontrada tenha sido inferior à registada em campanhas anteriores.
Ainda assim, a investigadora considera que os resultados foram particularmente relevantes. "Foi uma campanha muito positiva", afirmou, explicando que, "embora ainda não possamos apresentar conclusões definitivas sobre a funcionalidade dos novos espaços, os materiais descobertos estão a permitir avançar de forma significativa no conhecimento do comércio mediterrânico e das ligações de Tartesso com outros territórios".
O projeto Construyendo Tarteso, financiado pela Agência Estatal de Investigação de Espanha no âmbito do Plano Estatal de I+D+i do Ministério da Ciência, Inovação e Universidades, procura caracterizar a cultura material tartéssica através do estudo dos grandes edifícios de adobe descobertos nas últimas décadas.
Os investigadores acreditam que este extraordinário carro votivo poderá tornar-se uma das peças mais importantes para compreender não apenas as práticas religiosas das elites de Tartesso, mas também as intensas relações políticas, culturais e comerciais que ligavam o sudoeste da Península Ibérica às grandes civilizações do Mediterrâneo durante a Idade do Ferro.