Fred Pereira nasceu em Chaves e jogou pelos EUA. "Houve clubes a tentar levar-me para Portugal. Não quis"

Fred Pereira nasceu em Chaves e jogou pelos EUA. "Houve clubes a tentar levar-me para Portugal. Não quis"

  • 25/06/2026 07:50
  • Redação

"Ele tinha dinamite nas pernas. O remate dele era tão preciso, que ele conseguia rematar mal e mesmo assim mandava a bola para dentro da baliza. É o avançado por que um treinador está sempre espera, mas que só encontra uma vez a cada 10 temporadas". A descrição é feita por Cliff Stevenson, treinador da década de 70 dos Brown Bears, equipa universitária de futebol da Universidade de Brown.

Cliff falava daquele que era a coqueluche universitária da altura nos Estados Unidos. Foi a segunda escolha no draft de 1977 para a North American Soccer League, onde jogou profissionalmente. Jogou contra Eusébio da Silva Ferreira, Pelé e foi colega de Gordon Banks, figura imortal do futebol inglês. Representou a seleção dos Estados Unidos da América em seis jogos e marcou num deles.

Os dois parágrafos anteriores fariam prever que a identidade de quem se fala fosse amplamente reconhecível, até fácil de adivinhar. Mas esta não é essa história. É a história de um português nascido na aldeia de Vale de Anta, em Chaves, quando nem candeeiros havia. A história de um menino que mudou de país aos 12 anos. De um jogador com uma carreira profissional curta, mas intensa, que jogou pelos melhores e contra os melhores. É a história de Fred Pereira, o português de Chaves que representou a seleção dos Estados Unidos e que jogou contra Eusébio e Pelé.

Agora estou reformado. Reformei-me há três anos. Fui cobrador de impostos, o chamado tax collector, aqui perto de casa. E também fui treinador, por causa dos meus filhos. Eles jogaram todos futebol, na escola e no colégio, e quando eram mais pequenos fui o treinador deles.

Nasci em Vale de Anta, uma aldeia de Chaves, em Trás-os-Montes. Naquele tempo não tínhamos eletricidade nem água. Vivi lá até 1966, tinha 12 anos quando viemos para os Estados Unidos. O meu pai era lavrador e andava de aldeia em aldeia para trabalhar.

Já não vou há três anos. Mas estive 40 sem ir. Agora vou lá a cada dois ou três anos. E tenho muito orgulho nisso. Tenho lá duas primas e o meu amigo José Violante em Viseu. Portugal está no meu coração. Há três anos fomos pela primeira vez ao Algarve, nunca tínhamos ido à parte do sul. As minhas filhas nasceram aqui nos Estados Unidos. Uma delas casou-se com um português que nasceu aqui e decidiram casar-se em Portugal, perto do Porto, em 2017, fomos lá aí também. Felizmente correu tudo tudo bem.

Em 1966, tinha 12 anos. Andei aqui na escola secundária por seis anos e depois fui para o colégio por quatro anos.

Começou em Portugal, porque era uma coisa que era muito popular. Em pequeninos íamos lá para a rua e jogávamos todos futebol. E depois, aos domingos, ouvíamos os relatos dos jogos no rádio. E todos os domingos ouvíamos na rádio, porque não havia televisão nem eletricidade. E gostávamos de ouvir. Os jogos do Benfica, do Sporting… eu gostava do Benfica. Naquele tempo, em 1966, tinha os melhores jogadores, o Eusébio, o Simões.

Quando joguei aqui, em Fort Lauderdale, joguei contra o Eusébio. Eu era novo, ele já era mais velho. Joguei contra ele quando ele já tinha as pernas “aleijadas”. Foi no tempo em que eu comecei a jogar profissionalmente. Eu estava na Flórida, ele acho que estava a jogar em Las Vegas [Quicksilvers]. Foi nessa altura que o defrontei, na North American Soccer League.

Jogar contra o Eusébio… ele era um dos meus heróis! Eu era novo, e as pernas dele já não estavam boas. O Simões também veio jogar para cá, mas nunca joguei contra ele.

Nunca tive essa oportunidade. Foi pouco tempo também, do que me lembro foi só um jogo. Mas nunca falei com ele. Com o Pelé, sim, lembro-me que falei com ele.

Sim. Quer dizer, a minha equipa jogou contra o Pelé, mas eu não joguei, fiquei só a ver. Mas estava lá, estava no banco. Falei com ele antes do jogo, porque quando ele ia para o campo falava muito com as pessoas. Tirava fotos e tudo. Aí falei um bocadito mais com ele.

Não me lembro bem do que disse, mas perguntei-lhe como estava tudo e disse-lhe que era um prazer conhecê-lo. Foi bom. Ele era sempre amigo e falava com todos. Tirava muitas fotografias com todas as pessoas. Ele ajudou muito o jogo aqui, porque o futebol não era muito popular.

Não era muito popular, mas era organizado, ao contrário de Portugal. Em Portugal, quando saí, o futebol não era nada organizado. Nós simplesmente saíamos de casa e jogávamos contra outras aldeias. Aqui nos Estados Unidos não. Começavas a jogar em clubes com 10 ou 12 anos. E assim também era mais fácil fazer amigos, enquanto jogava à bola. Até porque não falava inglês, era difícil. Quando jogas futebol, não precisas de falar.

Eu era sempre um dos melhores jogadores, era fácil fazer amigos por isso. E tive sorte, porque fui para um lugar [Ludlow, Massachussets] que tinha muitos portugueses e onde o futebol é muito popular. Tive sorte.

Mais a sério foi na Brown University. Nós aqui jogamos primeiro na escola secundária. No meu caso em Ludlow. Depois é que jogas nas equipas universitárias, caso queiras ir para a universidade, claro. Comecei por jogar na Universidade de Brown, durante quatro anos. No primeiro ano não podes jogar, é um ano dedicado ao estudo. Tinha um colega português lá, o nome dele era José Violante. Também está reformado e vive agora em Viseu, de vez em quando vamos lá visitá-lo.

Depois, ao fim desses quatro anos, os clubes profissionais têm o chamado draft, como há noutros desportos americanos. Podem escolher jogadores universitários. Eu fui escolhido pela equipa de Fort Lauderdale, na Flórida.

Portugal vai jogar lá ao lado… com o calor, acredito que não seja nada fácil…

Sim, lá vai estar quentinho. Por acaso eu adaptei-me bem. Nos primeiros jogos comecei bem. Desde os tempos da escola que jogava a avançado e marcava muitos golos. Quando fui para o profissional continuei a jogar à frente e nos primeiros jogos também meti dois ou três. Comecei sempre bem.

Eu gostava muito de jogar no Fort Lauderdale, porque jogávamos num campo pequenito. E naquele tempo, para a realidade dos Estados Unidos, se estavam quatro ou cinco mil pessoas na bancada já era bom. Só tinha esse problema que disse agora: o calor. Na Flórida, em junho, estava muito húmido e muito calor.

Eu não gostava do tempo, dessa parte não gostava da Flórida. Eu gosto mais do fresquinho. Um ano depois, fui jogar para Colorado, e aí já era mais fresco, era tudo montanhas. Mas sim, eu gostava de tudo na Flórida, menos do tempo.

Então pela sua experiência, que conselho deixaria aos jogadores da nossa seleção para lidar com o calor, agora que vão jogar em Miami?

Cada jogador é diferente. Eu não gostava, mas muitos jogadores gostam do tempo quente. Não sei se é o caso de Portugal. Mas Portugal tem boa equipa, tem bons jogadores, eu penso que vão adaptar-se bem.

Eles fizeram alguns treinos na praia para se habituarem às temperaturas. Também fazia isso?

Eu naquele tempo era muito jovem, por isso sim, ia algum tempo para a praia. Principalmente no fim de semana. Nos dias em que jogávamos, tínhamos muito tempo para gozar, por isso sim, ainda fui muito tempo à praia naquele tempo. Só tinha vinte e tal anos e tinha de me refrescar, era muito calor.

Depois fui para o Colorado, numa troca. E em Colorado, era tudo mais fresco. A equipa também era mais ou menos, mas mais fraca. Aí já estava casado, mas ainda não tínhamos filhos, era mais fácil mudar-me. Mudámo-nos bastante, ainda fui para Atlanta, também. Mas como éramos novos e como não tinha garotos, estava “ok”.

Quando nasceu a primeira, coincidiu com uma altura em que tive algumas lesões. Fiquei aleijado dos joelhos. E com a primeira filha percebi que devíamos ir para mais perto da casa e começar outro trabalho. Até porque naquela altura não pagavam muito aos profissionais de futebol. Só pagavam dinheiro para comer, beber e pagar a casa.

Ao início, só se faziam contratos de seis meses, não era para o ano inteiro. Aí pagavam menos de 20 mil dólares, nem isso, uns 15 mil. Só depois do segundo ano é que começavam a pagar pelo ano inteiro. Aí já se vivia melhor, mas os primeiros anos era só para pagar a renda da casa e comer.

Então, mas se os contratos eram só para seis meses, o que fazia nos outros seis?

Tínhamos de arranjar outro trabalho para os outros seis meses. Era assim. Era o sacrifício que se fazia para jogar futebol. É que tens de jogar quando podes, quando és novo. Se não jogares quando é novo, nunca mais jogas.

Quando estava em Fort Lauderdale, o jogador mais popular que tínhamos na equipa era um guarda-redes que jogou na Seleção Inglesa, o Gordon Banks.

Sim. Ele já tinha 40 anos e também tinha tido um acidente em Inglaterra, já não via bem de um olho. Se calhar era o guarda-redes mais popular do Mundo naquele tempo. Tinha 40 ou 41 anos, mas ainda era muito bom. Tinha mãos grandes. Mas estava no fim da carreira dele. Não era o único inglês, porque o nosso treinador era o Ron Newman, que também era inglês e trouxe muitos jogadores de lá.

Sabe que o Gordon Banks fez aquela que muitos dizem ser a melhor defesa de sempre, a um cabeceamento do Pelé, no Mundial de 1970…

Sim, diz que fez uma defesa muito boa. Ele ainda jogava bem quando estava lá. Os guarda-redes é mais fácil teres 40 anos, não é como agora o Ronaldo jogar à frente. Aí é mais difícil.

Não, nos treinos marcava poucos golos, não havia muitas oportunidades. Até porque o jogo mudou: quando eu era mais novo, o jogo era diferente, jogávamos com quatro avançados. Eu ficava sempre no meio, como o Eusébio. Era eu que marcava os golos.

Depois, quando fui para o colégio, já eram três avançados. Mesmo quando joguei na seleção nacional dos Estados Unidos, também eram três. Agora já são dois ou só um. A cada ano são menos avançados e mais defesas. Isso eu não gosto. Eu gosto de mais avançados e menos defesas, gosto de ver golos. Mas cada ano é diferente.

O jogo é muito mais diferente agora. Tudo requer mais posição. Eu gostava de ir sempre para o golo, não gostava de ir para trás. Eu tinha boa corrida, sou mais pequeno.

Falou aí da seleção. Como é foi essa experiência de representar os Estados Unidos?

A seleção era muito física. Nós nunca jogávamos no Mundial na altura, a única coisa em que participávamos eram os Jogos Olímpicos. E mesmo isso falhámos, em 1980, porque naquele tempo havia um boicote à Rússia. Então nunca joguei nessas competições.

Só joguei em jogos amigáveis e não joguei muitos. Mas a experiência foi boa e mais uma vez fiz muitos amigos. Em termos de futebol, o nosso selecionador era muito diferente. Queria que jogássemos mais à defesa e eu não gostava disso.

Eu queria era ir para a frente, não para trás. Nunca tive de jogar à defesa até chegar ao profissional. No futebol escolar jogava sempre à frente e quando perdíamos a bola descansava.

E lembra-se do momento em que soube que tinha sido convocado para a seleção dos Estados Unidos?

Lembro-me enviaram-nos uma carta com o nome. Ao princípio, eu era cidadão português, não era americano. Só no primeiro ano como profissional, em 1977, é que fiquei cidadão americano.

Foi contra os Países Baixos, The Netherlands. Foi aqui na Califórnia. E depois jogámos três vezes cont…

Espere, Fred. Jogou contra a Holanda em 1977? Não me diga que jogou contra o Cruyff também…

Não sei se foi em 1977 ou 1978, mas foi num dos anos. Mas acho que ele não estava a jogar nessa altura. Ou estava, mas não jogou nesse jogo.

Depois joguei contra o México, com quem jogávamos muito. Também com as Honduras e Guatemala. Foi uma viagem que fizemos para o México e jogámos contra as três lá. Nessa altura era normal: em setembro, a seleção dos Estados Unidos ia para a Europa, China ou para a América do Sul e jogava três ou quatro jogos.

Então e os clubes portugueses nunca se lembraram de si? Um jogador internacional, a marcar golos por uma seleção, devia dar nas vistas…

De vez em quando vinham cá jogar clubes portugueses, a Massachussets. Num ano veio o Sporting, quando tinha o Futre, tinha ele só 19 ou 20 anos. Também joguei contra o Futre, nessa época.

Às vezes também vinham clubes da segunda divisão, o Chaves e assim. Nessas alturas sim, houve pessoas que falaram comigo para ir para Portugal. Mas eu nunca quis voltar atrás. Estava aqui, estava contente… e nunca sabia o que podia acontecer.

Ir para trás e para a frente não era a minha coisa. Eu gosto de ir para um lugar e ficar nesse lugar. Hoje, muda-se tudo em dois ou três anos, eu não gosto disso. Gosto de ir para um lugar e ficar num lugar.

Por falar em Portugal… neste Mundial, o seu coração está mais por Portugal ou pelos Estados Unidos?

O meu coração é por Portugal. Para dizer a verdade, eu conheço pouco dos jogadores que estão agora na seleção dos Estados Unidos. Talvez conheça só um ou dois jogadores. Os de Portugal conheço quase todos. Até porque eu vejo os jogos da Liga de Inglaterra e de Portugal. Os americanos tenho visto pouco, não conheço quase que nenhum.

Por isso quero que Portugal ganhe, o meu coração está por Portugal. Quando jogava, queria que ganhassem os Estados Unidos, porque jogava por eles. Mas agora não, o meu coração é Portugal e gosto da equipa.

Olha, se não ganhar Portugal, quero que ganhe a Espanha, que também tem uma boa equipa. França também tem, mas eu não gosto de França.

Sim, mas só fui treinador aqui dos meus filhos, enquanto eram novos. Foi um orgulho, jogaram todos na escola e jogaram no colégio. Também fui árbitro aqui do colégio por 35 anos, aos fins-de-semana. O que eu queria era andar de futebol.

  • Fonte: Rádio Renascença
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