Vaticano afasta do sacerdócio padre espanhol que acusou o Papa Francisco de heresia
- 25/06/2026 12:15
- Redação
A decisão do Dicastério para a Doutrina da Fé põe fim a um processo disciplinar iniciado em 2024 e constitui uma das sanções mais severas previstas pelo direito canónico.
A laicização, também designada por redução ao estado laical ou expulsão do estado clerical, constitui uma das sanções mais severas previstas pelo direito canónico. Implica que o antigo sacerdote perde os direitos e deveres próprios do estado clerical, deixa de poder exercer legitimamente o ministério sacerdotal e passa a ser considerado leigo do ponto de vista jurídico e eclesiástico.
A controvérsia teve início em fevereiro de 2024, quando Francisco José Vegara Cerezo publicou um manifesto com cerca de 20 páginas, intitulado “Manifiesto para reivindicar la doctrina católica”, no qual sustentava que vários ensinamentos e documentos do pontificado de Francisco continham erros doutrinais que, na sua perspetiva, configuravam heresia.
Segundo o portal de notícias, entre os textos criticados encontravam-se a exortação Amoris Laetitia, o Documento de Abu Dhabi sobre a Fraternidade Humana, a declaração Fiducia Supplicans, relativa à bênção de casais do mesmo sexo, e respostas do Vaticano sobre questões relacionadas com pessoas homossexuais e transgénero. Segundo o sacerdote, estes documentos representavam uma rutura com a tradição doutrinal da Igreja.
Vegara defendia ainda que a renúncia do Papa Bento XVI teria sido canonicamente inválida, tese comum em alguns círculos "benevacantistas". Na sua interpretação, isso significaria que Francisco nunca teria sido legitimamente eleito pontífice.
A Diocese de Orihuela-Alicante reagiu de imediato. Em fevereiro de 2024, o bispo D. José Ignacio Munilla suspendeu Francisco José Vegara Cerezo de todas as funções e cargos diocesanos enquanto decorria a investigação.
A diocese revelou igualmente ter identificado "possíveis condicionantes pessoais" que poderiam estar a afetar o comportamento do sacerdote e o exercício adequado do seu ministério.
Apesar dessas diligências, Vegara manteve as suas posições. Em janeiro de 2025 entregou um novo documento às autoridades diocesanas, reiterando as acusações de heresia e apostasia contra Francisco. A documentação foi remetida ao Vaticano, culminando agora na decisão de redução ao estado laical.
Embora seja invulgar que um sacerdote seja laicizado exclusivamente por críticas ao Papa, o portal de notícias recorda que nos últimos anos registaram-se outros casos de sanções contra membros do clero que desafiaram publicamente a autoridade da Igreja.
Nos Estados Unidos, o padre Frank Pavone, fundador da organização pró-vida Priests for Life, foi reduzido ao estado laical em 2022 por "comunicações blasfemas nas redes sociais" e por "persistente desobediência às instruções legítimas do seu bispo diocesano". Embora fosse um conhecido crítico de Francisco, o Vaticano fundamentou a decisão em motivos disciplinares.
Outro caso mediático foi o do padre norte-americano James Altman, suspenso em 2021 pelo bispo da Diocese de La Crosse após diversos sermões de forte conteúdo político e críticas crescentes ao pontificado. Embora não tenha sido laicizado, continuou a desafiar a autoridade eclesiástica e, em 2023, passou a afirmar publicamente que Francisco seria um "antipapa".
Já em 2024, o antigo núncio apostólico nos Estados Unidos, Carlo Maria Viganò, foi excomungado por cisma depois de negar a legitimidade do Papa e rejeitar ensinamentos do Concílio Vaticano II.