"Era o objetivo dele". O caminho de Ochoa até ao Mundial passou pela Vila das Aves

"Era o objetivo dele". O caminho de Ochoa até ao Mundial passou pela Vila das Aves

  • 26/06/2026 03:43
  • Redação

Quando o guarda-redes Simão Bertelli descobriu, em agosto de 2024, que o internacional mexicano Guillermo Ochoa ia ser seu colega de equipa no Aves, a primeira reação não foi boa: achou que não voltaria a jogar mais nessa temporada.

Na madrugada passada, Ochoa terá feito o último jogo da carreira ao ser suplente utilizado na vitória do México frente à Coreia do Sul no Mundial 2026. Há dois anos, assinou pela equipa portuguesa, já com a época em curso, com um olho no Campeonato do Mundo.

Bertelli defendeu a baliza no Aves no final da temporada que culminou com a subida à I Liga, em 2023/24, e começou a época no primeiro escalão como dono da baliza. A chegada de Ochoa iria tocar no seu estatuto dentro da equipa.

A surpresa rapidamente se tornou em frustração, quando percebeu que dificilmente iria conseguir manter-se como titular após a chegada de alguém com o estatuto internacional de Ochoa, com cinco presenças em Campeonatos do Mundo.

"Tinha o plano de fazer uma boa I Liga, mas quando ele chega uma pessoa pensa: 'f***-se, agora vou ter de subir uma montanha para conseguir voltar a jogar", confessa.

Bertelli considera-se um jogador de equipa e rapidamente afastou as sensações negativas: "Pensei que ia ser muito bom aprender com ele, até no lado mental, que é um ponto forte. Na certeza que provavelmente não iria jogar mais, decidi trabalhar, dedicar-me e colocar pressão nele para que o Ochoa também tivesse um bom rendimento."

Prestes a cumprir 41 anos, a presença de Ochoa no Mundial 2026 nunca foi uma garantia e continuar a jogar no competitivo futebol europeu foi o caminho escolhido pelo guarda-redes.

No Mundial do Qatar, Ochoa jogava no México, no Club América. Entretanto passou pela Salernitana, em Itália, pelo Aves, e conquistou um lugar nos 26 convocados do México pelo que fez no AEL Limassol, do Chipre.

Marcar presença na prova tem vários sabores especiais para Ochoa: é o último, é disputado em solo mexicano, e permite estabelecer um novo recorde na companhia de Lionel Messi e Cristiano Ronaldo. Só os três marcaram presença em seis Campeonatos do Mundo.

Ochoa conquistou estatuto de vedeta internacional precisamente pelo que fez nos Mundiais. Foi suplente em 2006 e 2010, e ganhou notoriedade a partir da Copa do Brasil, em 2014. A cada quatro anos, eram garantidas as defesas quase impossíveis na baliza do México.

Chegou a ser associado a vários tubarões europeus. Esteve ainda no radar de FC Porto e Benfica, mas nunca representou um clube da dimensão do protagonismo que alcançou com a camisola mexicana. Na Europa, alinhou ainda nos franceses do Ajaccio, nos espanhóis do Málaga e Granada e nos belgas do Standard Liège.

Ochoa já não é o titular da baliza do México. A posição pertence agora a José Rangel, mas o primeiro lugar garantido no grupo à entrada para a última jornada abriu janela para que Ochoa se despedisse da seleção como suplente utilizado frente à Chéquia.

Foram 12 minutos em campo, pouco trabalho entre os postes, mas permitiram ao guarda-redes um momento de consagração no Estádio Azteca. Ochoa ajoelhou-se no relvado após o apito final, foi homenageado, beijou os postes em jeito de despedida e terminou em lágrimas, abraçado pela equipa e pela família.

À distância, Simão Bertelli acompanhou o feito: "Foi a cereja no topo do bolo, preparou-se imenso e nota-se que está muito feliz."

O guardião brasileiro vai enviar mensagem para congratular o antigo colega, mas não vai ser já, até porque o telemóvel de Ochoa deve ter recebido "um milhão de mensagens."

"Vou dar-lhe os parabéns por tudo. Ele foi uma referência para mim, só temos uns dez anos de diferença, mas até há pouco tempo, quando queria ver uns vídeos antes dos jogos para dar adrenalina, via algumas defesas dele. É uma lenda", elogia.

O Mundial 2026 não era tema de conversa diária entre Ochoa e Bertelli. Viveram uma luta tensa pela manutenção, só garantida via "play-off" frente ao Vizela, mas o brasileiro sabia que era uma prioridade para o companheiro.

"Era o objetivo dele e isso pesou na vinda para Portugal. Ajudou-nos muito, acho que ele foi mais importante para o Aves do que o Aves para o Ochoa, porque ele foi muito importante nos bastidores", atira.

À medida que os resultados se complicavam na segunda metade da época, Bertelli assume que a possibilidade da despromoção não permitia grandes alegrias no treino. Em retrospetiva, partilhar o dia a dia com Ochoa é uma boa memória para Bertelli.

"O ambiente fica mais tenso e calado quando estás em risco de descer, mas foi uma época 'top'. Eu ainda joguei o primeiro jogo do play-off, para mim era difícil pensar que o Ochoa seria meu suplente, mas ele apoiou-me muito e foi fantástico", atira Bertelli, em final de contrato com o Aves e com desejo de continuar em Portugal.

Bertelli regressou ao Brasil dois dias depois de garantir a permanência do Aves na primeira divisão. Nunca "deu um abraço" de despedida a Ochoa, que rumou ao Chipre nas semanas que se seguiram.

Ao ver o seu antigo colega de equipa entrar em campo frente à Coreia do Sul, Bertelli recordou o ano de luta que viveram na Vila das Aves. Reclama até uma pequena percentagem do mérito.

"Nunca fomos rivais, acho que o ajudei a estar no Mundial. Ele devia mandar um prémio para mim, pelo menos uma garrafinha de vinho", conclui, em gargalhada.

  • Fonte: Rádio Renascença
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