Especialista em resgates pede que missão portuguesa "seja comandada por alguém com formação"

Especialista em resgates pede que missão portuguesa "seja comandada por alguém com formação"

  • 26/06/2026 03:41
  • Redação

Manuel Velloso, antigo diretor de Planeamento e Operações do então Serviço Nacional de Proteção Civil, que chefiou dezenas de missões do género, é critico quando à constituição da equipa multidisciplinar que deverá partir esta tarde para a Venezuela. Lembra que é fundamental chegar o quanto antes, porque as primeiras 48 horas são fundamentais para resgatar sobreviventes dos escombros.

"Só poderemos ter sucesso se essas equipas internacionais chegarem em tempo útil ao território da Venezuela", afirma Velloso, recordando que essa janela temporal está a esgotar-se rapidamente.

Segundo o antigo responsável, o conceito de "Golden Hour" - as primeiras horas após uma catástrofe - é decisivo: nesse período, a probabilidade de sobrevivência de uma vítima sob escombros pode chegar aos 80%. Passadas 48 horas, essa probabilidade desce para cerca de 40%, e às 76 horas cai para apenas 20%.

Velloso sublinha ainda que, nos momentos iniciais, é a própria população local - quando organizada - que salva a maior parte das vítimas: cerca de 35% dos resgates bem-sucedidos. É por isso que defende a importância de estruturas como o CERT (Community Emergency Response Team), conhecidas em Portugal como BRICS (Brigadas de Resposta de Intervenção Comunitária), criadas pela Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil.

Já os bombeiros têm uma capacidade de salvamento estimada em cerca de 20%, as equipas SAR nacionais (não internacionais) rondam os 30%, e as equipas internacionais - chegando mais tarde - ficam normalmente limitadas a uma fatia residual de cerca de 20% das vítimas resgatadas.

Por isso, insiste Velloso, a rapidez é essencial: "quanto mais cedo chegarem ao terreno equipas bem estruturadas e organizadas, maiores as hipóteses de sucesso".

O antigo diretor descreve a Venezuela como um país atualmente "muito desorganizado", sem capacidade de resposta própria suficiente, o que torna ainda mais urgente o apoio internacional.

Velloso recorda que, perante um incidente desta magnitude, a prioridade deve seguir sempre a mesma lógica: tratar os feridos, apoiar psicologicamente os sobreviventes e, por fim, garantir o enterro dos mortos. Mas alerta que o grau de destruição reportado na Venezuela exige que as equipas internacionais intervenham no mais curto espaço de tempo possível - e mostra-se preocupado com o facto de várias estruturas nacionais com capacidade de resposta ainda não terem começado a preparar-se para a projeção.

Quanto à decisão de Portugal enviar uma força para o terreno, Velloso considera que, em termos técnicos e operacionais, essa projeção não tem justificação própria: motiva-se essencialmente por razões políticas - ligadas ao elevado número de portugueses residentes na Venezuela - e por razões sentimentais.

O antigo diretor de Operações é particularmente crítico quanto à forma como, ao longo dos anos, as forças de projeção portuguesas têm sido constituídas. Acusa esse processo de obedecer a uma lógica de "agradar" a diferentes instituições - incluindo cães e equipas cinotécnicas da GNR, elementos da PSP, da Força Especial de Bombeiros, do INEM e de outras entidades - em vez de responder a critérios técnicos.

Para Velloso, uma força de projeção deste tipo deveria ser composta exclusivamente por pessoal especializado em busca e salvamento urbano (USAR), sob um comando único, e diz que só a UEPS - Unidade de Emergência e Proteção e Socorro, da GNR - reúne nos seus quadros as competências necessárias - busca e salvamento, busca cinotécnica, saúde e logística - para ser a verdadeira força de projeção de Portugal nestas situações.

"Espero que, pelo menos, esta força seja comandada por alguém com formação na área de busca e salvamento urbano", remata o antigo diretor de Planeamento e Operações.

  • Fonte: Rádio Renascença
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