Fugiu da guerra na infância e agora joga no Iraque: Rashid está orgulhoso da imagem deixada no Mundial

Fugiu da guerra na infância e agora joga no Iraque: Rashid está orgulhoso da imagem deixada no Mundial

  • 26/06/2026 04:05
  • Redação

As lembranças da infância em Kirkuk não existem para Osama Rashid, o futebolista iraquiano que jogou futebol em muitos relvados portugueses. Quando um dos irmãos, de 12 anos, foi convocado para a guerra, a família decidiu fugir para a Holanda, um país ao qual Rashid está muitíssimo agradecido por lhe ter dado “um futuro”.

O pai andava na angustiante troca de pólvora e barulhos que prometem funerais à pressa entre combatentes e quando regressou a casa estava vazia. Foram os vizinhos que lhe disseram onde encontrar a sua mulher e os filhos. O reencontro aconteceu seis meses depois. Rashid tinha três anos. Viveram a 20 minutos de Amesterdão. Aos sete anos, quando o Feyenoord o chamou, mudaram-se para Roterdão. Alí cumpriu a formação de futebolista até se mudar para o Den Bosch

Enfiado nas camisolas de Farense, Santa Clara e Vizela, Rashid trouxe-nos um pouco de uma cultura distante, suavizando e desmistificando preconceitos. Lamentavelmente, a mais do que qualquer outra coisa, associamos o Iraque a guerras. “O que é bom no meu país é a hospitalidade, as pessoas gostam muito de receber, falam sempre com muito orgulho do Iraque, apesar de ter tantas guerras”, revela a Bola Branca, o jogador de 34 anos.

“É um país que está a crescer muito, espero que continue assim. Claro que foi muito difícil agora com a guerra entre Estados Unidos, Israel e Irão…”

Rashid, um centrocampista que pisa terras altas, está de férias. Nas últimas duas temporadas, depois de tantos anos em Portugal e passagens por Turquia e Emirados Árabes Unidos, deslizou nos campos do Iraque, no Erbil e no Zakho. A qualidade daquela liga maravilhou-o.

“Gostei bastante, fiquei surpreendido pela qualidade dos jogadores”, confessa. “Acho uma liga muito competitiva comparada com os Emirados ou o Qatar, a liga iraquiana é melhor. Os nossos jogadores locais são melhores do que os dessas ligas. Nos próximos anos vai ser um dos melhores campeonatos do Médio Oriente, está a crescer muito, há estádios novos e infraestruturas a serem melhoradas.”

Este iraquiano, que tanto deu à seleção em 45 jogos, não está a viver a estreia daquele país em Campeonatos do Mundo. “Claro que é uma pena não estar lá, na classificação estive presente em todos os jogos menos um. É o futebol, é aceitar. Agora é apoiar. A forma como eles se apresentaram… deixaram uma boa imagem. É uma experiência muito importante para os jogadores.”

O Iraque estreou-se, jogando bem, contra a Noruega. Depois de Erling Haaland fazer o 1-0, Ayman Hussein empatou com um belo golo. Este avançado, que até esteve retido no aeroporto de Chicago sete horas para interrogatório, tem uma história trágica: o pai, militar, foi assassinado em 2008 pela Al Qaeda, enquanto o irmão foi raptado pelo Estado Islâmico e nunca mais foi visto.

Rashid só tem admiração por Ayman. “É um goleador, é um capitão, um líder. Lembro que há quatro anos foi muito criticado no Iraque, mas ele conseguiu dar a volta”, celebra este futebolista que, por falta de lembranças que mordem como bestas por dentro, se afasta drasticamente da história de vida do número 18 iraquiano no Mundial.

“É um jogador mentalmente muito forte, fez dois golos contra o Japão na Taça da Ásia, a partir daí continuou a fazer muitos golos. É muito bom dentro da área, é muito forte de cabeça. É um líder no grupo e no campo.”

Esse jogo terminari 1-4 para os noruegueses. A seguir, Mbappé e companhia foram melhores do que os iraquianos até levantarem um 3-0. Rashid já tem o seu diagnóstico.

“A equipa esteve muito bem com Noruega e França, muito bem organizada, mas perdeu por causa de erros individuais”, assinala. “Falta de concentração e talvez falta de experiência. E, claro, contra estas equipas e contra estes jogadores fazes um erro e tens logo o castigo. Acho que deixaram um boa imagem”, reforça.

Os iraquianos vão defrontar esta sexta-feira o Senegal, às 20h00, para definir quem fica à frente dessas seleções e, quem sabe, sonhar com o muito improvavel apuramento via terceiro lugar. Osama Jabbar Shafeeq Rashid mostra-se um homem com fé.

“Vai ser muito difícil, mas se jogarem da mesma forma, bem organizados e disciplinados a defender, acho que temos uma chance para passar à próxima fase”, garante. “Nunca se sabe, já se viram muitas surpresas no Mundial. Espero que seja assim para o Iraque no próximo jogo.

E conclui: “Mas no último jogo viram-se outras dinâmicas, principalmente as movimentações na frente, conseguiram criar muito mais perigo. Vai ser muito difícil, mas, se eles conseguirem crescer no torneio, acho que Portugal é um candidato de certeza…”

  • Fonte: Rádio Renascença
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