Aramburo: “A democracia não é uma dádiva da natureza, tem de ser construída e cuidada”
- 25/06/2026 10:28
- Redação
Fernando Aramburo, autor do conhecido “Pátria” volta a escrever sobre o País Basco e sobre as consequências das ações da ETA – o gru+po terrorista basco. “Maite” (ed. D.Quixote), o seu novo romance tem como pano de fundo aquele que foi o episódio que mudou o rumo da vida da ETA. O assassinato do vereador Miguel Ángel Blanco uniu a Espanha contra as ações do grupo separatista.
Nesta trama em que o leitor fica enredado são mostrados os dois lados da barricada, os que defendem e os que estão contra a ETA. Maite, personagem principal é uma das que engrossa as manifestações que houve contra a sentença de morte de Miguel Ángel Blanco.
Aramburo, que viveu este episódio que ditou o início do fim da ETA no Pais Basco, nasceu na Espanha durante a ditadura franquista. Questionado sobre a ascensão da extrema-direita, alerta para a necessidade de sobrevivência da democracia que precisa de ser “cuidada”.
Volta a escrever sobre a ETA, como fez em “Pátria”, mas desta vez escolheu retratar um episódio muito particular e determinante na vida do grupo separatista basco, o sequestro e morte do vereador Miguel Ángel Blanco. Sentiu necessidade de voltar a falar sobre a ETA?
“Maite” é um romance que faz parte de uma série chamada ‘Gentes Bascas’. As histórias centram-se em pessoas comuns, da minha terra natal, o País Basco, em épocas das quais eu fui contemporâneo.
“Maite” é o quinto título desta série e seria muito estranho que um acontecimento tão relevante como o rapto e assassinato de Miguel Ángel Blanco não surgisse em nenhum dos títulos.
Acabou por surgir agora, neste livro. Poderia ter surgido mais tarde, mas sei que, mais cedo ou mais tarde, teria abordado esta questão.
Sim, Maite significa amor, em basco. Ela não é apenas uma personagem, é também uma espécie de câmara de filmar. Tudo é visto através dos seus olhos. Tudo acontece, porque lhe acontece a ela, porque acontece à sua frente ou porque lhe contaram.
Mas em “Maite” a questão da ETA é o pano de fundo das histórias pessoais de Maite, a irmã Elene e a mãe. Prefere pôr a tónica nas emoções e nas consequências dos atos da ETA?
Eu não trabalho com a História, embora precise de um certo grau de documentação. Eu trabalho com a condição humana.
O que me leva a escrever romances e contos é mostrar como as pessoas vivem determinados acontecimentos coletivos, como a História coletiva tem consequências na vida dos cidadãos num determinado momento, e isso centrado num pequeno grupo de pessoas. É isso que eu ofereço nos livros.
Que memória tem do caso Miguel Ángel Blanco que gerou um coro em toda a Espanha contra a ETA e as suas ações?
Na altura, não me apercebi, estava em estado de choque, tal como tantas outras pessoas, a assistir ao que foi a encenação de uma execução cruel, em câmara lenta.
O que rapidamente percebemos foi que essa crueldade deu origem a um protesto em massa, dentro e fora de Espanha, mas também no País Basco.
Ficou claro que as pessoas não queriam mais terrorismo e que era preciso pôr fim a isso. De facto, a ETA perdeu um dos seus principais argumentos: o de nos fazer acreditar que agia e exercia violência em nome de um povo.
O povo estava nas ruas a dizer-lhes que não queria aquilo e que era preciso pôr-lhe fim. Então, pareceu-me que poderia situar algumas personagens nesse contexto, sem perder de vista as suas experiências privadas e construir um texto a partir da ficção, naturalmente, porque as personagens foram inventadas por mim, mas num contexto que foi real e que foi muito relevante na nossa história.
Vive há muitos anos na Alemanha. Tal como a irmã de Maite, a Elene, é um emigrante. Inspirou-se na sua própria experiência? Há algo de si nessa personagem?
Esta personagem, a Elene, a irmã da Maite, vive numa situação semelhante à minha, mas não idêntica. Enquanto eu vivo na Europa, ela vive nos Estados Unidos.
Não estou separado por um oceano da minha terra natal. Visito a minha cidade, San Sebastián, várias vezes ao ano.
Não sou uma pessoa especialmente nostálgica, não idealizo a minha terra natal, mas coloquei um pouco de mim nesta personagem pelo facto de alguém ir viver para outro país, onde se fala outra língua, onde há outros costumes, outra gastronomia.
Isto, por vezes, não é fácil de assimilar. É preciso um período de adaptação, de integração, que não depende apenas da pessoa, mas também do local, se este é acolhedor, se é hospitaleiro.
Bem, esta é uma experiência muito intensa, que, no meu caso, teve um resultado muito positivo. Vivo num país onde me sinto muito à vontade, gosto muito desse país, gosto da sua língua, mas, no início, também passei por fases de “saudade”, nostalgia e melancolia.
É lhe mais fácil escrever sobre a realidade basca, porque vive fora? Precisou de se afastar da sua terra natal para escrever?
É possível que precise disso, mas não tive outra opção. Ou seja, só tive uma perspetiva, mas já me perguntei muitas vezes o que teria escrito, se é que teria escrito alguma coisa, caso tivesse ficado a viver sempre na minha cidade natal.
Não creio que tivesse escrito livros muito diferentes. Acho que todos somos filhos do nosso tempo e do lugar onde a nossa vida se desenrola.
Aprendi lições muito valiosas na Alemanha, que me abriram os olhos para questões que talvez não tivesse percebido noutras circunstâncias.
O que se passa é que tive a minha perspetiva pessoal e procurei tirar dela o maior partido possível, para criar uma obra literária o mais valiosa possível.
Nasceu na Espanha da ditadura franquista. Como vê hoje a ascensão da extrema-direita em toda a Europa? Há riscos de um regresso ao passado?
Sim, acho que podemos voltar atrás. Passei os primeiros 16 anos da minha vida numa ditadura, por isso tenho uma noção muito elevada do que é a democracia.
Não quero voltar à violência de Estado, às leis obrigatórias, à censura, às proibições. Sinto algum receio ao ver os jovens de hoje que não conheceram uma situação semelhante, que não viveram uma ditadura e que se deixam fascinar por certos oradores e partidos que prometem soluções drásticas, rápidas e categóricas.
Não podemos esquecer que a democracia não é uma dádiva da natureza. A democracia tem de ser construída e cuidada a cada momento, porque, se a negligenciarmos, podemos perdê-la.
A tentação de impor a força, isso sim, está previsto pela natureza. É uma pulsão e instinto que temos de controlar através do direito e das leis.
Não acho que escreva sobre a ETA, ela acaba por entrar nos meus romances porque eu vivi aquilo e afetou-me muito. Interpela-me.
É como uma ferida que se mantém. Dá-me pena que na minha terra natal se matasse por razões políticas.
Eu preferiria recordar a minha terra como um lugar aprazível, mas não foi assim e considerando que estou a escrever uma série, é plausível que continue. A questão é que não vou escrever sempre o mesmo tipo de livros.