Reconstrução da Ucrânia. Kiev e UE precisam de "novo Plano Marshall", avisa especialista em estudos de paz

  • 26/06/2026 08:59
  • Redação

Depois de dois dias a discutir na Polónia o reerguer do território ucraniano – e onde os 27 confirmaram um fundo que deve ficar operacional até ao final do ano e mobilizar cerca de 500 milhões de euros anuais –, esta analista considera que se têm tomado bons passos, mas pede maior rapidez. A bem da Ucrânia, mas também da confiança interna dentro da União.

“Vai ser difícil explicar aos eleitores de diferentes estados que uma parte do orçamento vai ter de ser direcionada para a reconstrução da Ucrânia. Em meu entender, bem, porque a fronteira da guerra é precisamente lá, precisamos de uma Ucrânia soberana, robusta”, avisa a também diretora do Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica (IEP-UCP).

Quanto à retoma de contactos diplomáticos entre a UE e a Rússia, pela mão do presidente do Conselho Europeu, Mónica Dias fala em avanços importantes.

“Este debate pode acabar por favorecer até e acelerar uma cimeira em que a Ucrânia e esta guerra possam encontrar alguma solução. Temos de realmente perceber que há aqui agora uma janela de oportunidade em que a Rússia está vulnerável e isso deve ser aproveitado”, analisa.

Manuel Poêjo Torres, comentador residente do Escala Global, alinha-se com esta leitura, mas pede que as negociações evitem ao máximo o redesenho das fronteiras entre Kiev e Moscovo.

“A cedência de territórios hoje não é mais do que semear a guerra do futuro e a guerra da amanhã”, considera. “Basta o povo ucraniano não aceitar a decisão política escolhida ou imposta à Ucrânia sobre a perda de territórios, que a guerra vai continuar, por outros meios. O perigo da guerra total, está sempre à beira do precipício”.

Por um lado, a sociedade iraniana fragmentada, com protestos a “favor da liberdade e contra o regime” e que está longe de um “clima de paz interno”. Por outro, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu que não quer colocar um travão para evitar a “entrada direta num tribunal”.

A politóloga Mónica Dias, diretora do Instituto de Estudos Políticos da Unviersidade Católica e especialista em estudos de paz, duvida da credibilidade das atuais negociações e que possam motivar uma paz duradoura no Médio Oriente.

A turbulência na sociedade iraniana explica a dificuldade de alcançar um entendimento a longo prazo, mas as razões não ficam por aí. Também Israel – e o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu – são parte importante para entender a equação, nomeadamente numa altura em que todas as sondagens indicam que Netanyahu vai acabar recusado nas eleições do outono.

A estratégia de prolongar a guerra é uma forma de tentar capitalizar eleitorado de extrema-direita, mas também de garantir a própria sobrevivência.

“A porta de saída é uma entrada diretamente num tribunal onde depois será julgado. Há esta lógica de Netanyahu de pensar que qualquer acordo de paz vai pôr em xeque a sua própria existência”.

No habitual triângulo, o vértice dos Estados Unidos e de Donald Trump permanece como um “dealmaker”, onde não parece haver “perceção do que é a verdadeira paz” e do que são os hábitos de vida no Médio Oriente, “culturalmente tão rica e diferente”.

“Para Trump, este negócio com o Irão provavelmente é tão importante como assinar na 5ª Avenida um deal com uma empresa imobiliária de não sei quantos biliões”, avisa esta analista.

Já na leitura de Manuel Poêjo Torres, comentador residente do Escala Global, pode estar iminente o surgimento de um entendimento tão frágil como os Acordos de Oslo. Na década de 1990, essas negociações tentaram mediar o conflito entre Israel e Palestina, mas excluindo questões essenciais ao conflito – na altura, os temas dos colonatos e dos refugiados ficaram de fora da mesa, tal como agora se excluiu a questão nuclear.

“O Irão já disse que não aceitará qualquer tipo de monitores da Agência Internacional de Energia Atómica antes de que o último acordo de paz esteja firmado e celebrado. E isto mostra bem que este memorando de entendimento não é mais do que um balão de oxigênio para os mercados, porque as relações políticas não são mediáveis, não estão mediáveis”.

Ao contrário de outros processos de negociação no Médio Oriente no passado, desta feita as Nações Unidas não entram diretamente nas conversações e são apenas incluídas na ratificação do acordo final entre EUA e Irão, que deve acontecer no Conselho de Segurança.

Na leitura de Mónica Dias, esta mudança de papel não reflete obrigatoriamente uma redução da relevância da ONU.

“Haver uma votação clara no Conselho de Segurança até foi algo que me surpreendeu pela positiva”, aponta, apesar de reconhecer que “ninguém sabe a intenção”. Ainda assim, esta analista considera que a ONU continua a desempenhar uma função importante, nem que seja por promover fóruns de diálogo.

“É muito importante olharmos para as Nações Unidas como uma instância em que cada Estado tem uma voz e como fórum em que a negociação acontece de diplomatas, de peritos, de intercâmbios, de pessoas. Há muita gente a trabalhar numa solução para a população no Médio Orante, para a população do Irão, sem que nós saibamos, e também a tentar resolver este conflito”.

Ainda assim, deixa um aviso: a história pode repetir-se e, se as Nações Unidas não se reformarem, podem acabar a ser extintas, como aconteceu com a Sociedade das Nações, entre as duas guerras mundiais.

“Esta Organização das Nações Unidas, tal como foi criada em 1945 para o mundo pós-guerra da altura e, após mais de 80 anos, provavelmente já não faz sentido, tem de ser reformada”, alerta. “Ou a ONU se reforma ou é provável que aconteça algo como a Sociedade das Nações”.

  • Fonte: Rádio Renascença
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