Devemos aumentar férias de Verão? Para os mais novos (e mais pobres) “pode ter efeitos negativos”
- 26/06/2026 12:00
- Redação
Os estudos apontam para que estes alunos percam o equivalente a um mês de aprendizagem quando estão longe da escola. O motivo é simples: não têm os mesmos estímulos que outras crianças e que ajudam a manter corpo e cérebro ativos como, por exemplo, ler um livro ou visitar um museu.
Por isso, Isabel Flores acredita que as longas férias de verão podem agravar desigualdades entre crianças do pré-escolar e do 1º ciclo, prejudicando as de agregados familiares mais carenciados. A especialista na área da Educação recorda que a investigação aponta para “um retrocesso nas aprendizagens na ordem de um mês” entre alunos de famílias mais desfavorecidas durante as pausas letivas prolongadas.
Em vez de alterar profundamente o calendário letivo, Isabel Flores defende o reforço das atividades extracurriculares no verão. “Há muita aprendizagem que se faz fora de uma sala de aula e o verão era uma boa oportunidade para as fazer”, conclui.
A academia tem estudos sobre o impacto de encurtar o ano letivo para os alunos do pré-escolar e 1.º ciclo?
Nós em Portugal temos, de facto, uma paragem muito grande de verão, somos dos países da Europa com uma paragem mais longa nesta altura do ano. Para os miúdos, o normal é 12 a 13 semanas de paragem, que é mais ou menos do meio de junho ao meio de setembro. quando começamos as aulas.
Depois, temos paragens mais curtas o resto do ano, tipicamente mais duas semanas, mais ou menos, no Natal e na Páscoa e uns dias, poucos, no Carnaval.
Em termos de dias úteis de aulas, estamos mais ou menos equiparados ao resto da Europa. O que eles fazem é ter paragens mais longas ou mais paragens ao longo do ano e depois ter uma paragem mais curta no verão.
O que nós sabemos das paragens letivas, principalmente as paragens letivas muito longas, é que coloca as crianças e os jovens de famílias mais carenciadas em desvantagem e há algumas estimativas que apontam para um retrocesso nas aprendizagens na ordem de um mês de aprendizagem, especificamente para estas crianças que provém de agregados familiares mais desfavorecidos e que nas férias não têm oportunidade de fazer atividades físicas, culturais, artísticas, o que for, que as mantém com os cérebros e os corpos mais ativos.
Para estas crianças muito pequeninas do pré-escolar e do 1º ciclo, se entrarem em férias mais cedo e efetivamente forem para casa, se não houver uma oferta extracurricular dada pelos ATL ou por outras organizações ligadas à escola que as mantenha ativas, são crianças que vão tender a ter um prejuízo na sua aprendizagem.
Eu compreendo o ponto de vista dos diretores, porque, de facto, do ponto de vista logístico, da gestão da escola, dos professores, dos espaços, seria tudo mais prático, ter as escolas libertas de crianças, até porque há os estudantes a fazer exames e, portanto, seria bom que não houvesse crianças a fazer barulho nos recreios, etc.
De um ponto de vista estritamente das aprendizagens e das pedagogias, estamos, no fundo, a acrescentar 15 dias de férias a crianças muito pequenas, numa altura em que as desigualdades se multiplicam, porque são fases de aprendizagem muito intensiva, correndo o risco de acentuar algumas desigualdades, sempre desfavorável para as mesmas, para as crianças que vêm de agregados familiares mais carenciados.
E no seu entender faria sentido ter a distribuição das férias com paragem de verão mais curta e outras paragens a meio do ano mais prolongadas?
Não, acho que temos de olhar para o nosso clima e um bocadinho para a nossa história e para as organizações que vêm de trás. E também porque os próprios currículos estão organizados para estas paragens, as coisas têm uma lógica que também está associada a um ritmo letivo. Portanto, não me parece que Portugal deva alterar e alinhar com o resto dos países da Europa. Aliás, há outros países que também têm paragens grandes, tipicamente os países do Sul — Itália, Grécia, Espanha — que também têm os mesmos calores e as mesmas condições meteorológicas de praia que nós temos em Portugal.
O que me parece é que, de facto, seria muito interessante alargarmos a nossa capacidade, a nossa oferta de programas de atividades extracurriculares, que permitisse que os alunos não tivessem efetivamente parados o verão todo.
Obviamente devem ter férias com as suas famílias nos períodos em que as famílias vão ter, mas, até porque os pais só têm 22 ou 23 dias úteis de férias por ano, tirando esse período, as crianças precisam primeiro de ser cuidadas e, depois, de ter todo o tipo de atividade.
Como sabemos há muita aprendizagem que se faz fora de uma sala de aula e o verão era uma boa oportunidade para as fazer.