Cachalotes do Mediterrâneo têm dialetos próprios, conclui estudo científico
- 26/06/2026 12:07
- Redação
A investigação analisou centenas de gravações recolhidas entre 2003 e 2021 nas águas da Fossa Helénica, na Grécia, e em redor das Ilhas Baleares, em Espanha. Os cientistas concluíram que os grupos matriarcais das duas regiões utilizam padrões rítmicos distintos nas suas sequências de cliques (codas), funcionando estes como verdadeiros dialetos.
Mais do que uma forma de comunicação, estes dialetos determinam as relações sociais entre os animais. "O dialeto é utilizado para formar estruturas sociais, dentro das quais estes animais cooperam", explicou Luke Rendell, investigador da Universidade de St Andrews e coautor do estudo, citado pelo jornal britânico. O especialista acrescenta que o fenómeno tem semelhanças com o comportamento humano, uma vez que as pessoas tendem a sentir-se mais confortáveis com quem fala de forma semelhante.
A população de cachalotes do Mediterrâneo é reduzida, estimando-se que conte apenas alguns milhares de indivíduos. Estudos genéticos anteriores já tinham sugerido que estes animais vivem relativamente isolados de outras populações e que existe pouca reprodução entre os grupos das bacias oriental e ocidental, apesar de alguns exemplares se deslocarem entre ambas.
Os investigadores verificaram que, embora a maioria das codas seja composta por quatro cliques, o ritmo varia entre as duas populações. Os cachalotes da bacia ocidental recorrem sobretudo a uma sequência de três cliques seguidos de uma pausa mais longa antes do quarto, enquanto os da bacia oriental utilizam uma versão mais rápida desse mesmo padrão. Ainda assim, foram registados alguns casos em que baleias do leste utilizaram o dialeto típico do oeste.
Segundo a equipa, estas diferenças sugerem que os cachalotes terão ocupado primeiro a parte ocidental do Mediterrâneo e, mais tarde, expandido a sua presença para leste, onde o dialeto foi evoluindo ao longo do tempo.
"As baleias do leste lembram-se dos velhos costumes, mas seguiram em frente e desenvolveram uma versão um pouco diferente da mesma coda", afirmou Luke Rendell ao The Guardian. Para o investigador, esta evolução demonstra que a formação de novos dialetos é um processo lento e depende de algum isolamento entre as populações.
"Este é o primeiro exemplo em que conseguimos observar como surgem novos dialetos", sublinhou o cientista. "Sabíamos que existiam diferentes dialetos entre cachalotes, mas nunca tínhamos conseguido perceber a sua origem. Agora vemos uma população que se separou da principal e começou a alterar gradualmente a sua forma de comunicar."
Os autores consideram que esta descoberta ajuda a compreender não apenas a evolução cultural dos cachalotes, mas também processos semelhantes observados nas línguas humanas e nos dialetos do canto de algumas espécies de aves.