“O país do grande império ainda hoje é exaltado”.O "acidente colonial" no palco do Babell

“O país do grande império ainda hoje é exaltado”.O "acidente colonial" no palco do Babell

  • 26/06/2026 13:19
  • Redação

Numa sessão a céu aberto e debaixo de um sol tórrido, falou-se sobre o passado colonial e a arte da escrita. Neste terceiro dia do Festival Babell a decorrer no Porto, a organização do evento juntou dois escritores que em comum têm as raízes angolanas. Djaimilia Pereira de Almeida e Bruno Vieira Amaral falaram sobre esse “acidente colonial” que os marca.

A autora de “Livro da Doença” que venceu recentemente o Prémio D. Diniz, atribuído pela Casa de Mateus, considerou que “há uma narrativa oficial ensinada na escola que valoriza os feitos heroicos do passado, que tem a ver com o país ter sido esse grande império, e que ainda hoje é exaltado”.

Contudo, a autora fez questão de sublinhar que lhe “interessam pouco os heróis”. “A mim interessam-me pequenos gestos. Estou atenta às pessoas à minha volta, à vida comum e desinteressante. Estou atenta a quem está ao meu lado”, destacou Djaimilia Pereira de Almeida.

A escritora recordou que já escreveu sobre esse passado colonial. “A minha vida e a da minha família é um acidente colonial. Só me interessa a grande História, no sentido em que ela intercepta a história individual”, sublinhou.

No mesmo tom, também Bruno Vieira Amaral assumiu ser “sou fruto desses acasos históricos”. Com origem angolana, o autor de “As Primeiras Coisas” apontou que para a sua escrita também prefere olhar para o individual e não tanto para os factos históricos.

“Se analisarmos uma vida individual, vemos esses fatores. Não vou fazer uma ánalise do período colonial, eu vou à história individual” disse perante uma plateia de mais de uma centena de pessoas.

Na sessão junto ao Cinema Batalha, moderada por Tito Couto, Bruno Vieira Amaral referiu ainda que no seu processo de escrita prefere “procurar as pequenas fraturas”, em vez de partir “do geral para o particular”.

Djaimilia Pereira de Almeida que assumiu que escreve “sobre estranhos” que tenta “tornar íntimos” diz que a sua literatura está “povoada” de pessoas muito diferentes de si. “As vozes são sempre as primeiras coisas que me aparecem. Ouço-as. É um exercício de escuta, por vezes são vozes desagradáveis, coisas que me desconcertam”, explicou.

Já sobre o seu processo de escrita, Bruno Vieira Amaral admitiu que tem “momentos de silêncio” que são “desbloqueados” com a leitura de outros autores. “Reparar no que outros autores têm para observar uma realidade, faz-nos encontrar o nosso ângulo”, referiu.

“A dificuldade por vezes é de chegar à primeira frase e de manter essa voz. Não se escreve um romance em 15 dias. A tarefa do escritor é encontra a voz e que isso seja coerente. O que fazemos é organizar o mundo e aquilo que é caótico e precisa de um olhar e uma ordem”, identificou Bruno Vieira Amaral.

Quanto parte para o livro, Djaimilia Pereira de Almeida diz que “não tem planos”. Já escreveu quase todos os géneros, exceto a poesia. “Eu diria que tudo é ficcional. São tudo memórias falsas. É tudo imaginação”, disse a autora de “Luanda, Lisboa, Paraíso” sobre os seus livros.

Bruno Vieira Amaral lamentou que hoje haja “uma pressão dos leitores de lerem aquilo com que se identificam”. “Eu gosto da literatura que provoca o efeito de estranheza. É isso que procuro fazer nos livros através da imaginação”, referiu.

Questionados sobre a temática do corpo que está presente em ambas as obras, Djaimilia admitiu que se tem interessado pelo tema da doença. “É um momento de grande igualdade. Essas coisas que as pessoas tentam pôr de lado interessam-me muito. Há uma aflição particular nos cuidadores que me interessa. Há um silêncio e tenho grande admiração pelos cuidadores. Os meus livros são mais sobre cuidadores do que sobre doentes”, rematou.

Já Bruno Vieira Amaral considerou que a doença interessa-lhe “como fulgor”. “Há na vulnerabilidade física uma certa lucidez, próximo da santidade”, arriscou. “Escrevo muito do não cuidar, da ausência de um cuidador”, concluiu.

O Babell organizado pela Fundação Livraria Lello decorre até segunda-feira e traz ao Porto autores como Margaret Atwood, Salman Rushdie ou Julian Barnes.

  • Fonte: Rádio Renascença
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