Colômbia, que país é este? Depois de Falcao, há um novo "El Tigre" e é Presidente da República

Colômbia, que país é este? Depois de Falcao, há um novo "El Tigre" e é Presidente da República

  • 26/06/2026 14:08
  • Redação

O novo Presidente do país, Abelardo de la Espriella, de 47 anos, chama-se a ele mesmo de “El Tigre”. Diz que confia apenas em “Deus” e no “povo” e afirma que não tem medo de pôr “toda a verdade em cima da mesa”.

Ao vencer a primeira volta das eleições presidenciais, para surpresa de muitas análises e previsões, afirmou que a vitória representava “a derrota total dos políticos de sempre, dos partidos de sempre”.

No discurso de vitória, Abelardo dirigindo-se ao oponente Iván Cepeda, o candidato da esquerda, disse que lhe dará todas as garantias para exercer a oposição dentro da lei. Mas deixou um recado: “Nem lhe passe pela cabeça incitar à violência, abstenha-se de semear o terror. Não se engane, senhor Cepeda, já sabe como o tigre morde com força”.

De la Espriella pertence à vertente mais radical, personalista e heterodoxa, tal como a que Javier Milei encarna desde 2023 na Argentina — ele que se identifica a si próprio como um leão.

Juntamente com Nayib Bukele, em El Salvador, reeleito em 2024, são três fiéis admiradores e aliados do Presidente norte-americano Donald Trump.

Em poucos meses, Abelardo de la Espriella teve uma ascensão meteórica e passou de um advogado controverso e mediático a Presidente eleito da Colômbia.

Milionário e empresário, De la Espriella criou as suas próprias marcas, como cantor gravou álbuns e projetou uma imagem de dandi cosmopolita, com residências em Itália e nos Estados Unidos.

O programa político do novo Presidente é claro: impor autoridade. Numa repetição do lema “lei e ordem” que tantos presidentes já elegeu pelo mundo fora.

Abelardo de la Espriella é agora o rosto de uma direita radical, e que segundo a CNN Colômbia soube aproveitar a frustração com os partidos tradicionais para dar corpo a uma campanha muito espetacular com um perfil de “outsider”.

Ainda no domingo, quando festejava a vitória, regressou ao tema do combate às organizações criminosas que atuam impunemente no país.

“Aos narcotraficantes, aos terroristas, aos sequestradores, aos extorsionários, aos corruptos que roubam os recursos do povo, notifico-vos esta noite que a Colômbia volta a ter um governo... todos esses bandidos serão perseguidos sem tréguas ao abrigo das leis da República”, acrescentou.

Aproveitou este momento para lançar uma mensagem que muitos interpretaram como um ataque não muito subtil ao processo de paz assinado pelo governo de Juan Manuel Santos com as extintas FARC em 2016.

“A verdadeira paz não nasce da impunidade, a verdadeira paz nasce da justiça”, exclamou. O combate ao narcotráfico é mesmo um dos pilares da ação do novo Presidente.

E se é verdade que o acordo de paz com as FARC tem 10 anos e a organização deixou de existir formalmente, o país não conheceu realmente paz nesta década. A responsabilidade é de alguns grupos dissidentes.

Entre eles, emerge o Estado-Maior Central (EMC), comandado por Iván Mordisco. Os relatos mais recentes no país é o de que os ataques estão mais fortes, com recurso a mais armas e são mais violentos nos últimos anos.

O ano passado foi mesmo aquele em que se registaram mais disputas armadas da última década, com aumento de 34% nos confrontos entre grupos ilegais.

Ainda em junho do ano passado, em Cali, foram registados ataques com carros-bomba e drones.

Os esforços para acabar com a violência têm sido tão abundantes como infrutíferos. Em 2024, o governo do anterior Presidente, Gustavo Petro, tentou negociar com todos os grupos armados, mas o processo fracassou quando, nesse ano, Iván Mordisco abandonou as conversas. Um ano depois, Petro admitiu que a política de “paz total” não funcionou.

Em conclusão, as FARC já não existem no formato inicial, mas as dissidências são hoje um dos principais motores da violência na Colômbia. O país vive uma reconfiguração do conflito armado, com múltiplos grupos a disputar território.

Aliás, nesta campanha eleitoral, no dia 16 de maio, foram assassinados a tiro por um grupo armado em Cubarral, no departamento de Meta, centro do país, Rogers Mauricio Devia Escobar e Fabián Cardona, ambos militantes e coordenadores naquela região do movimento político Firmes pela Pátria, liderado pelo candidato presidencial Abelardo De La Espriella. Mas este foi apenas um caso entre vários.

Mas as ameaças, atentados e violência contra atores políticos começaram há vários meses. Um dos factos mais graves que acendeu os alarmes institucionais foi o homícidio do pré-candidato presidencial e senador da oposição Miguel Uribe Turbay.

O ataque ocorrido a 7 de junho de 2025 não representou apenas um atentado direto contra sua vida, mas uma mensagem desestabilizadora para todo o sistema político.

A droga continua a ser um fator de muita riqueza no país e fonte de disputas territoriais. A Colômbia segue como líder mundial na produção de cocaína, responsável por cerca de 72% de toda a cocaína fabricada no planeta, segundo o Relatório Mundial de Drogas 2025 da ONU.

De acordo com este documento, em 2023 (ano de referência dos dados analisados), o planeta atingiu uma produção potencial anual de 3 708 toneladas métricas de cocaína de alta pureza, mais 34 % do que em 2022.

Outro número que impressiona é o de que a Colômbia registou 253.000 hectares de plantações de coca — mais que Peru e Bolívia somados.

Noutro plano, economicamente, a Colômbia é um país com um crescimento moderado. Em 2024, o PIB aumentou 1,7%, e no ano passado foi de 2,6%, segundo os dados preliminares conhecidos. Já a inflação está a descer dos 9,3% em 2023 para 5,2% em 2024, e o objetivo do ano passado era de 3%.

A taxa de desemprego permanece alta, superior aos 10%, sendo que mais de metade da população trabalha no mercado informal.

Em relação à pobreza, é elevada, mas está a descer de 31,8% em 2024 para 28% em 2025. Ou seja, 1,79 milhões de pessoas saíram da pobreza monetária no ano passado.

Num relatório recente, Banco Mundial destaca desigualdades profundas no acesso a educação, saúde, terra e habitação, especialmente em regiões como La Guajira, Vaupés, Amazonas, Nariño e Guainía.

A Colômbia, que Portugal vai defrontar em Miami quando no domingo forem 00h30 por cá, é portanto um país que fora do campo está em ebulição, transformação, mas com problemas endémicos que há décadas o impedem de evitar que, por exemplo, o local de nascimento determine até 30% da desigualdade de rendimentos.

  • Fonte: Rádio Renascença
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