"Os inúteis perigosos são os que não leem", denuncia escritor brasileiro Milton Hatoum

"Os inúteis perigosos são os que não leem", denuncia escritor brasileiro Milton Hatoum

  • 26/06/2026 15:20
  • Redação

“No mundo tão duro de hoje, a gente tem mais necessidade de literatura”, aponta Conceição Evaristo. A autora de 80 anos, que diz escrever “não para dar voz a mulheres negras, mas como uma mulher negra”, considera que os livros são uma espécie de “profissão de fé que nos redime da dureza”.

Milton Hatoum foi mais longe e começou por dizer que não acha a literatura inútil, como dizem: “É uma das necessidades humanas mais profundas que passa pelo conhecimento, pela vida e leitura”.

“Das artes, a literatura é a que explora com mais subtilidade a natureza humana”, sublinhou, dizendo: “Os inúteis são os que não querem ler. Alguns inúteis perigosos que nos ameaçam não leem, mas perderão mais uma vez!” disse, referindo-se às eleições presidenciais de outubro, no Brasil, face à ascensão e regresso da extrema-direita.

Perante uma plateia de quase 500 pessoas, o autor arrancou o aplauso. “A nossa geração viveu em ditadura. Quantos amigos desapareceram?” questionou.

“Um dos maiores crimes da ditadura foi desmontar a escola pública e o sistema educacional. Houve crimes políticos, ambientais, mas um crime que se repercuti-o em gerações foi a questão da educação. A extrema-direita tem um projeto de escolas militares. É um projeto autoritário. Tem resquício da ditadura”, afirmou, alertando para o perigo de transformação da sociedade democrática.

Na sessão moderada por Minês Castanheira, Conceição Evaristo demorou-se a explicar um conceito que defende de “escrevivência”. A ela, que cresceu numa família numa situação de “pobreza extrema” como confessou à plateia, a ideia da escrita surgiu como “um lugar possível de pensar”. “Mesmo quando ela é penosa, a escrita é um momento de esperança”, apontou.

Para a autora de “Canção para Ninar Menino Grande”, “não tem como a arte não ser política”. Milton Hatoum voltou a arrancar o aplauso da plateia quando criticou o realizador Wim Wenders, que durante o Festival de Cinema de Berlim considerou que os artistas devem manter-se fora da política.

“É um gesto covarde”, acusou Hatoum. “Tem medo de acusar [Israel] de genocídio contra os palestinianos”, denunciou o autor membro da Academia Brasileira de Letras. “Muitos colegas têm medo de criticar o genocídio contra os palestinianos. Eu não percebo isso! Não nos podemos calar perante o genocídio”, disse categoricamente o escritor.

CE: Se eu tiver comendo uma coisa doce sem açúcar, se tiver só o café, por favor põe o açúcar.

CE: Eu gosto de escrever à noite, mas às vezes eu estou com sono e às vezes de dia não dá tempo de escrever.

CE: Acho que a escrita me ensinou sobre a vida, independente de escrever ou não, que você tem que estar atenta, perguntando e olhando. Buscando sem medo.

  • Fonte: Rádio Renascença
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