Dino D’Santiago: "Todos fazemos parte da mesma equação, quer se coma cachupa ou feijoada à transmontana"

Dino D’Santiago: "Todos fazemos parte da mesma equação, quer se coma cachupa ou feijoada à transmontana"

  • 26/06/2026 16:15
  • Redação

Dino D’Santiago divide o seu tempo entre mais uma curadoria do festival Jardim de Verão que começa sábado, na Gulbenkian, em Lisboa, e os trabalhos do novo disco a solo.

Sobre a programação que preparou para o Jardim de Verão, que decorre de 27 a 12 de julho, Dino D’Santiago destaca a presença da banda cabo-verdiana Os Tubarões. Mas haverá também música do Brasil, Angola, Guiné-Bissau e Portugal. O músico confessa que tem, muitas vezes, a tentação de saltar para o palco para cantar com os seus convidados.

Questionado sobre a influência que um festival como este tem exercício contra os discursos de ódio e racismo, Dino D’Santiago admite que procura artistas que “comungam por um mundo melhor”. “A intenção é ver um mundo onde todos fazemos parte da mesma equação, independentemente se comemos cachupa ou feijoada à transmontana”.

Uma vez mais volta a programar o Jardim de Verão da Gulbenkian. Como é que pensou a edição deste ano?

É o meu quinto ano consecutivo a desenhar esta respiração sonora do Jardim de Verão.

Mais do que curadoria musical, eu sinto que é esta curadoria de encontros. É um lugar onde me foi dada liberdade total de poder abraçar os vários géneros musicais, do mais tradicional ao mais eletrónico e de tudo o que são as diásporas dos nossos países PALOP, Brasil, principalmente.

Tem sido muito essa paleta de cores que traz sonoridades de Angola, Brasil, Cabo Verde, Moçambique, Guiné e São Tomé e Príncipe.

Isso fez com que outros países que passaram como artistas visitantes, se encantassem com o Jardim de Verão. Vêm de outros lugares que não se expressam na língua portuguesa, mas que passaram a enviar os seus artistas que estavam de passagem por Lisboa, vindos do Mali, da Guiné Equatorial, ou de outros lugares da América Latina ou Europa.

Fomos completando esta paleta de cores no Jardim de Verão e este ano vai-se celebrar, com mais ênfase, as culturas do Brasil, Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau e Portugal.

Nesses dias vamos ter a felicidade de contar com Os Tubarões, a banda icónica e mais antiga de Cabo Verde, com mais de 50 anos de formação.

Vêm para celebrar no mês de julho, após o dia 5, a celebração da Independência de Cabo Verde. Além de Os Tubarões, teremos a Soraia Ramos, para trazer o mais tradicional e o mais contemporâneo do que se faz em Cabo Verde e Portugal.

De Angola teremos o Toty Sa’Med que é um músico maravilhoso, com quem tenho trabalhado há muitos anos. Tem sido o ar fresco do jazz e da música contemporânea feita em Angola.

A Rita Vian, a representar Portugal, vai ser também um momento muito especial. Depois teremos ainda a Melly, a trazer Salvador da Bahia. Ela que é uma das artistas revelação da nova música feita no Brasil está agora na boca do mundo, graças à sua participação no disco dos Baiana System e, mais recentemente, no álbum da Anitta.

A Júlia Costa era uma artista que iria fazer parte do cartaz, mas infelizmente não conseguimos trazê-la este ano, mas faço questão de mencioná-la, porque também é um dos grandes nomes da música moderna brasileira e espero que para o ano ela possa estar.

Vamos ter a nossa Nancy Vieira. Teremos também a participação de Rádio Mosquito, que é formada por grande parte dos elementos dos Fogo Fogo.

Teremos também a Bokor e os Bandua a representarem Portugal. Contaremos ainda com DJs. Vamos ter a Indi Mateta, o Adison Fernando que vem da Holanda e vai trazer CaboVerdeVynil, que é algo que está a catapultar a música tradicional, que nasceu em Roterdão e que se espalhou pelo mundo.

Há cada vez mais pessoas que querem entender de onde vem essa mística de Cabo Verde, então teremos o Adison e Umafriacana, enfim, vão ser assim muitos nomes.

Vou tendo, naturalmente, para já porque o espaço da Gulbenkian, o anfiteatro ou o Grande Auditório são lugares tão místicos e acolhedores.

Ao mesmo tempo são tão tentadores que eu sinto sempre vontade. Já são mais de 100 artistas que passaram durante estes cinco anos por aqueles espaços e, muitos deles, conheço pessoalmente.

Gosto das obras desses artistas e gostaria muitas vezes de saltar para o palco, mas aconteceu por duas vezes, nestes cinco anos.

Este ano não sei se pode acontecer ou não com Os Tubarões. Como curador eu tento sempre só apreciar e agradecer por terem aceitado os convites e estarem cá presentes, mas confesso que a tentação é muita de cantar, saltar.

Com a experiência que tem destes cinco anos na curadoria do festival Jardim de Verão, achas que tem contribuído para atenuar o discurso de ódio e racista?

Ano após ano sinto que foi construído um território muito sensível, onde a excelência artística é a experiência partilhada, ou seja, mais do que qualquer outra intenção é mesmo este lugar de mostrar o quão valiosa é a nossa cultura.

Quando olhamos para ela, sem preconceito, e olhamos para os artistas, como artistas, sem querer trazer prefixo ou sufixo, tudo é mais justo.

Eu sinto que, na primeira instância, aquilo acontece porque os artistas que lá estão são artistas que em qualquer palco do mundo seriam artistas brilhantes. Essa é a grande verdade e foi sempre a intenção da Gulbenkian.

Quando me chamaram eu abracei este projeto por esse motivo, porque se eu sentisse que era algo que fosse mais assistencialista ou algo que só procurasse a diversidade porque sim, para cumprir uma cota, isso não me faria sentido nenhum. Percebi que era uma intenção real, como a Gulbenkian já está habituada a oferecermos. É por isso que ainda estou lá cinco anos depois, porque sinto que continuamos com o mesmo foco.

Aquilo que importa é fazer algo que seja sublime em termos artísticos e claro, de preferência sempre com valores humanos. Eu procuro sempre, a título pessoal, artistas que sei que também comungam por um mundo melhor. A intenção é ver um mundo onde todos fazemos parte da mesma equação, independentemente se comemos cachupa ou feijoada à transmontana.

Como é que vai dividindo o seu tempo entre esta programação e os seus projetos musicais?

Tem sido uma boa aventurança. O corpo às vezes vai pagando, mas eu tenho feito de tudo para conseguir aguentar a jornada.

Felizmente, o ano começou com o novo disco, o "Criolo" com o Amaro Freitas. É um álbum que gravei com dois artistas brasileiros que tem me dado um prazer enorme.

Levou-nos ao Primavera Sound e vamos estar no Kalorama, em agosto. Seguimos depois para o Rock in Rio, no Rio de Janeiro, em setembro e depois temos uma passagem pelos Estados Unidos para algo que ainda não posso revelar, mas que vai ser icónico.

Posso adiantar que também terei disco novo, a solo, no último trimestre deste ano. É algo que me deixa muito feliz, porque foram três anos a gravá-lo, entre muitas viagens ao Brasil.

Vai ser um disco que me trará muito prazer apresentá-lo ao vivo, porque juntei muitas almas boas que me ajudaram nesta travessia durante três anos entre Salvador, São Paulo, Rio de Janeiro, Lisboa e Cabo Verde. Vai dar gosto de apresentá-lo!

  • Fonte: Rádio Renascença
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