“Deveríamos inventar uma máquina de fazer portugueses”
- 26/06/2026 20:55
- Redação
De vez em quando escutava-se o burburinho da noite do Porto e os gritos de grupos de jovens organizados que percorrem os bares da cidade, com direito a guias com guarda-chuvas coloridos na mão. Enquanto a vida acontecia à volta, no centro da conhecida Praça dos Leões, uma plateia quase cheia e com mais de mil lugares sentou-se para ouvir dois escritores de língua espanhola que vivem em continentes diferentes.
O colombiano Héctor Abad Faciolince e o espanhol Javier Cercas são amigos, trocam ideias sobre livros e estiveram à conversa, na noite de sexta-feira, no Festival Babell com a moderação do jornalista João Gobern.
A conversa começou com Faciolince a arrancar o aplauso ao dizer que gosta muito dos portugueses e, com o escritor Valter Hugo Mãe na plateia, parafraseou um título do autor para dizer que “deveríamos inventar uma máquina de fazer portugueses”.
Já Javier Cercas que começou por dirigir um “boa noite” com um sotaque português muito vincado, acabou a usar o seu sentido de humor para dizer que não falava português, iria falar em espanhol. “Se não perceberem o meu espanhol, não se preocupem, porque os espanhóis também não entendem”, alegou o autor por falar muito depressa.
Mas foi com tempo e sobre o tempo que se falou nesta noite do festival literário. “A literatura precisa de perspetiva e de tempo. Requer maturação” afirmou o autor de “Soldados de Salamina”(Ed. Porto Editora). Para Javier Cercas os seus livros são um exercício, “uma espécie de batalha contra a ditadura do presente”.
Ele que considera a literatura um “instrumento de defesa”, recusou a “ideia de que o passado não tenha nada a ver connosco ou que não é relevante”.
“O passado é uma dimensão sem a qual o presente está mutilado. Eu proponho perceber isso nos meus livros. Escrevo para aliviar as obsessões”, diz o autor que já escreveu sobre temas fraturantes ainda hoje em Espanha, como o golpe de Estado de 23 de fevereiro de 1981.
Já Faciolince, autor do romance “Somos o Esquecimento que Seremos” (ed. Alfaguara) considerou que, embora escreva livros “de forma confusa e obscura e por vezes sem propósito”, é “impossível querer que tudo seja memória”.
O escritor colombiano admitiu que “tudo será esquecido, como diz o poema de Borges ‘Somos o Esquecimento que Seremos’, embora queiramos sempre que haja uma recordação”. Na sua opinião “estamos condenados ao fracasso”.
Nasceram ambos em famílias católicas, mas assumem-se como não crentes. No entanto, um escreveu um livro sobre o Papa Francisco e o Vaticano e o outro, depois de ter sobrevivido a um atentado com um míssil na Ucrânia, vive a pensar entre o céu e o inferno.
Questionados sobre o tema por João Gobern, Javier Cercas que cresceu numa “família profundamente católica”, admitiu que “às vezes” sente “inveja dos crentes”. Citando o que diz no mais recente livro “O Louco de Deus no Fim do Mundo” (ed. Porto Editora) o Cardeal português Tolentino Mendonça concordou consigo sobre considera que “a fé é uma intuição poética”. No entanto, o Papa Francisco não concordou, considerou que “a fé é um dom”. Mas Cercas admitiu: “Não sei como recuperar a fé”.
“Agora não sei se sou ateu. Talvez seja agnóstico” afirmou concluindo recorrendo às palavras da escritora americana Flannery O’Connor que dizia que “ter fé é mais difícil do que não ter”.
Quem repensou a sua fé foi Héctor Abad Faciolince depois de ter sobrevivo a um ataque míssil na Ucrânia, no qual morreu uma escritora sua amiga. Ele que relata esta experiência em “A Nossa Hora” (Ed. Alfaguara) e que diz que precisou de escrever esse livro “para não enlouquecer” afirmou à plateia do Babell: “Quando não me mataram na Ucrânia, uma pessoa que sobrevive vai escolhendo em vida se é para o céu ou o inferno que vai”.
A sessão que terminou com uma sessão de autógrafos, fechou com o moderador a deixar um pedido em forma de desejo à organização do Babel, a Fundação Livraria Lello, para organizar “uma segunda edição”. A primeira decorre até dia 29, no Porto.