XIX Clericus Cup: "Mesmo em campo somos sacerdotes"
- 27/06/2026 03:30
- Redação
O torneio vive de apoios, patrocínios e amizades que se foram juntando à organização, mas o que está em causa ultrapassa a logística. Rafael Neves explica que os padres “encontram-se pela missão comum, mas também pela prática desportiva, porque o jogo permite mostrar uma dimensão menos vista do sacerdócio”.
Muitas pessoas, reconhece, associam o padre ao ministro do culto, à liderança paroquial ou à organização da vida comunitária, esquecendo a sua “dimensão muito humana”. E ali, no pavilhão, essa humanidade aparece de sapatilhas, t-shirt e bola no pé.
Num tempo em que o sacerdócio pode ser “muito exigente” e, por vezes, “muito solitário”, estes encontros servem para reforçar laços de amizade e apoio mútuo, defende o padre Rafael que não separa o campo da missão. Pelo contrário, insiste que, quando entram para jogar, “os padres não deixam de o ser”. Entram precisamente para mostrar que “mesmo em campo somos sacerdotes” e que a alegria, a fraternidade e o espírito de equipa também fazem parte da vida da Igreja.
A coincidência com a intenção mensal do Papa Leão XIV dá outro eco ao torneio. Rafael Neves recorda que, no vídeo divulgado pela Rede Mundial de Oração, o Papa apontou o desporto como caminho de paz e escola de fraternidade. No fundo, resume, “é isso que a Clericus Cup quer concretizar na Guarda”.
O programa desenhado para a edição de 2026 não tem, nas palavras da organização, “nada de extraordinário”, mas junta as várias camadas do encontro. “Há competição desportiva, visita cultural a Belmonte, Eucaristia presidida pelo bispo da Diocese da Guarda e um jantar de gala, entendido sobretudo como um jantar mais reforçado, com a participação do grupo Cantar Tradição, do Centro Cultural da Guarda”, anuncia o sacerdote responsável.
A diferença, observa Rafael Neves, está no lugar. O torneio joga-se “na mais alta cidade do país” e aproveita essa circunstância para mostrar aos participantes não apenas a Guarda, mas também um pouco da região.
A presença do grupo Cantar Tradição, acrescenta, “deverá marcar esta edição com uma nota própria, ligada à cultura local e à música que o território leva para dentro do encontro”. Os jogos distribuem-se pelo pavilhão do Inatel e pelo pavilhão de São Miguel. A ideia é simples: “quem quiser pode ir ver os padres jogar futebol”.
A organização promete divulgar nas redes sociais as informações ligadas à competição, ao programa cultural e aos momentos de convívio. Tudo compactado em dois dias, o que obriga a alguma ginástica, sobretudo para quem vem de dioceses mais distantes. Se o calendário cruzar com a Seleção Nacional, também há margem para improviso. Rafael Neves admite, com humor, que “o programa poderá ser ajustado para que todos consigam assistir a um jogo de Portugal no Mundial”.
Na Clericus Cup também há favoritos. Pela história recente, a Diocese de Vila Real surge à cabeça. Rafael Neves reconhece que, pelo percurso na competição, a equipa transmontana “parte naturalmente como favorita”. “Nas últimas edições tem sido vencedora e representa bem uma tendência que a organização identifica: as dioceses do Norte têm, em regra, um clero mais jovem e mais disponível para participar”, acrescenta o padre Rafael Neves.
Braga também chega com peso, pois inscreveu duas equipas e cerca de 25 participantes. Ao todo, a edição deste ano deverá envolver perto de 90 pessoas, entre 80 atletas e elementos de apoio. A competição é fraterna, mas não é apenas simbólica. Rafael Neves não esconde que, dentro das quatro linhas, há “competição a sério”. Isso significa vontade de ganhar, intensidade e, por vezes, alguma tensão. Ainda assim, garante, “tudo se ultrapassa depressa”, porque os participantes sabem que o mais importante acontece depois do apito: “a fraternidade sacerdotal que nasce a partir do desporto”.
A anfitriã chega ao torneio com uma presença mais modesta. A Diocese da Guarda nunca deixou de participar desde o início da Clericus Cup, mas já não consegue apresentar uma equipa própria. O padre Rafael Neves explica que “a escassez de sacerdotes, a idade média do clero e também alguma falta de apetência pelo futsal têm limitado a participação”. Nas últimas edições, a Guarda tem sido representada por dois ou três padres integrados noutras formações.
Este ano, a solução volta a passar por uma equipa mista. Rafael Neves e o padre Bruno Lopes vão competir com sacerdotes de diferentes dioceses. Ao todo, quatro padres da Guarda farão parte desse grupo alargado. A situação não é exceção. Há, por exemplo, um sacerdote da Diocese de Coimbra que já jogou integrado na equipa guardense e agora participa pela Diocese do Porto. Rafael Neves recorda ainda o padre João Carvalho Nunes, falecido recentemente, já com mais de 80 anos, que até há sete ou oito anos ainda jogava pela Diocese da Guarda.
O padre Bruno Lopes, 34 anos, é sacerdote na Diocese da Guarda há nove e tem o mesmo número de paróquias no arciprestado de Celorico da Beira e Trancoso. Entra nesta Clericus Cup sem grandes pretensões táticas. “Não há posições muito definidas”, admite. “A equipa joga para ter número, participar, divertir-se e estar com os outros”, acrescenta.
Às segundas-feiras, alguns sacerdotes juntam-se para treinar futsal com um grupo de amigos que colabora com eles. A bola serve de pretexto para o corpo se mexer, mas também para a palavra circular. Bruno Lopes valoriza esse encontro regular, porque “permite partilhar o que cada um vai vivendo no dia a dia, as dificuldades, os obstáculos e os pequenos pesos da missão”. Uns com os outros, vão “desabafando” e encontrando caminhos para continuar.
Quando lhe perguntam quantos toques consegue dar na bola, responde que não faz ideia. Tenta. Saem alguns. A conclusão chega: “preciso de mais treinos”.
A organização sabe que montar um encontro com cerca de 90 participantes exige trabalho de bastidores, muita antecedência e apoio dos municípios. Nem sempre é fácil garantir de imediato qual será a diocese da edição seguinte. A Clericus Cup depende de pavilhões, alojamento, refeições, transportes, horários e boa vontade. Mas depende sobretudo de uma ideia simples: juntar quem, muitas vezes, vive disperso, sobrecarregado e sozinho.
Mesmo quando há falta de jogadores, mesmo quando a Diocese da Guarda precisa de formar equipa com padres de fora, mesmo quando o calendário se aperta ou a idade pesa, a bola continua a rolar. Porque, como resume o padre Rafael Neves, “mesmo em campo somos sacerdotes”.