Na Plaza de Anaya, uma fotografia transforma turistas em manchete
- 27/06/2026 04:30
- Redação
Na Plaza de Anaya, em Salamanca, Espanha, a poucos metros da catedral e das fachadas monumentais da cidade universitária mais antiga de Espanha, há uma pequena máquina vermelha que chama a atenção de quem passa.
Parece saída de outro tempo, com uma abertura metálica por onde sai papel, uma câmara escura no topo, uma caixa de donativos e uma promessa escrita em francês: vive a experiência de ter a própria fotografia num jornal antigo.
Aqui, entre turistas, estudantes, grupos guiados e máquinas fotográficas apontadas à catedral, há quem venha conhecer Salamanca e acabe, por minutos, a tornar-se capa de jornal.
A ideia é simples: Lady, colombiana de 23 anos, fotografa quem passa e imprime, no momento, uma primeira página personalizada. “Nós somos um grupo de jovens que temos este projeto em várias cidades, começa por esclarecer”, enquanto retira da impressora, a imagem integrada numa espécie de jornal antigo, com textos sobre Salamanca, lugares a visitar, apontamentos históricos.
Lady prefere não dizer o último nome. Vive em Espanha há quatro anos e faz parte de um projeto turístico que está presente em várias cidades. Não há preço fixo nem obrigação de pagar. Quem quiser, deixa uma contribuição. “É para você, sem nenhum compromisso. Você pode ficar com o presente. Se quiser outra, eu posso fazer. É à vontade”, explica, dirigindo-se aos turistas que passam.
A abordagem é direta, mas delicada. Lady oferece primeiro. A pessoa recebe a fotografia como prenda. Só depois, caso entenda, contribui. A máquina, montada sobre uma estrutura vermelha, parece uma mistura de quiosque ambulante, caixa de correio, câmara antiga e pequena redação de rua. Num tempo em que quase todas as imagens ficam presas ao telemóvel, aqui a fotografia sai impressa, com ruído, espera e surpresa. O som da impressora faz parte da experiência. O papel demora alguns segundos a surgir.
O jornal não é apenas cenário. Lady explica que a capa foi pensada para mostrar Salamanca a quem visita a cidade. A fotografia do turista entra na página, mas à volta há referências à história local, aos museus, à catedral e aos lugares a descobrir. “A capa conta a história de Salamanca e dos seus arredores e tem várias sugestões do que visitar ou onde comer”, diz, enquanto aponta para a folha em tons sépia. “Temos a câmara e funciona com a impressora”, descreve.
Na Plaza de Anaya, a ideia encaixa no próprio ambiente. De um lado, a catedral, do outro, as faculdades e o movimento turístico constante. Há pedras antigas, fachadas trabalhadas, línguas cruzadas e um cenário que parece pedir precisamente esta espécie de brincadeira: a de inscrever cada visitante numa página de jornal. Lady sabe que a cidade ajuda a vender a experiência. “É para que as pessoas tenham mais conhecimento. Aqui estão os lugares para visitar, os museus, a Catedral, a história. E para nós também é trabalho, este investimento que nos sustenta”, conta.
A escolha da estética antiga também não é casual. “Este lado mais antigo, a fotografia antiga, é porque Salamanca tem muitos anos de antiguidade, de história. Vem muita gente visitar por causa disso”, acrescenta.
A imagem demora pouco a aparecer. Primeiro, a pose. Depois, a câmara. Em seguida, o som da impressão. Por fim, o gesto: a primeira página sai pela abertura da máquina como se tivesse acabado de ser produzida numa redação mínima, portátil e improvisada. É uma lembrança turística, sim, mas também uma pequena encenação jornalística. “Quem passava anónimo pela praça passa a ter rosto de manchete. A fotografia deixa de ser apenas recordação privada e transforma-se num objeto físico, com título, moldura e narrativa”, considera Lady.
A jovem colombiana defende que o papel continua a ter encanto, mesmo numa época dominada pelo digital, porque admite ver “nas reações das pessoas uma espécie de espanto infantil”. O momento em que alguém se reconhece impresso ainda produz surpresa. “Continua importante o papel. Nós guardamos tudo e reciclamos. É importante porque é muito chamativo. A pessoa diz: ‘Ai, sou eu! Uau, que lindo! Obrigada!’ Essa ideia de nos vermos no papel é diferente, melhor”, afirma. E Lady insiste que o papel tem outra função. “Para conhecer gente, não temos de estar só com o telemóvel. Também podemos ter o jornal, ler, informar-nos, como antes”, diz a fotógrafa.
A pequena máquina de Lady não noticia grandes acontecimentos, mas regista a passagem de quem esteve ali, em Salamanca.
O método faz parte da estratégia. Lady e os colegas oferecem a primeira fotografia como presente. Não pressionam nem cobram antes. Entregam a correr a primeira página e regressam para a pequena redação ambulante. A doação vem depois, se a pessoa quiser.
“Damos-te uma foto como prenda e viramos costas. Se quiserem, vêm atrás de nós. Uma para você, olha isso é um presente para você”, demonstra, ao tocar no ombro de um turista. A dinâmica resulta porque a fotografia aparece primeiro como gesto simpático. Só depois se percebe que há ali um pequeno negócio de rua, discreto, dependente da boa vontade de quem recebe.
Entre os turistas que aceitam a experiência está Roger Fletcher, inglês, 76 anos. Olha para o resultado e reconhece imediatamente a ideia. “É a primeira página de um jornal, não é? É importante. É diferente. Eu diria que é diferente, inusitado”, comenta.
Lady nunca fez ou fará jornalismo, mas para ela fazer a capa de um jornal é o seu modo de vida. Uma forma de vida que prova como continuamos a gostar de nos ver impressos na primeira página de um jornal.