Do favoritismo ao colapso, da alegria com Valderrama ao choro por Escobar. A história da Colômbia nos 90s

Do favoritismo ao colapso, da alegria com Valderrama ao choro por Escobar. A história da Colômbia nos 90s

  • 27/06/2026 06:35
  • Redação

Meias baixas, o número 10 nas costas, braçadeira de capitão, pulseiras, colar de contas, bigode farfalhudo de uma ponta à outra dos lábios e a "afro" loira a baloiçar com cada passada. Poucas figuras há no futebol mais reconhecíveis que Carlos Valderrama, considerado o melhor jogador da história da Colômbia. Esta é, até certo ponto, a história dele, da alegria que desenhava o sorriso no rosto do povo "cafetero"; é também a história de várias tragédias.

Há jogadores que marcam países e gerações e Valderrama foi um deles. Ídolo de Ronaldinho Gaúcho e David Beckham, Valderrama, o eterno "10" colombiano pegava a bola à bota com supercola e descortinava desmarcações que mais ninguém no campo via. Saíam passes de calcanhar, "rabonas", túneis por entre as pernas dos adversários.

Foi com toda essa classe que apurou a Colômbia para o Mundial 1990, ao fim de 28 anos. É preciso conhecer o contexto para entender a magnitude do feito.

Tudo começou ainda antes do Mundial 1962, com "La Violencia". As razões para o início da guerra civil na Colômbia, que durou dez anos, entre 1948 e 1958, variam.

Uns apontam para o regresso do Partido Conservador ao poder em 1946 e para o encorajamento a aldeões que o apoiavam para que tirassem as terras aos que apoiavam o Partido Liberal. Outros apontam para o assassinato, em 1948, de Jorge Eliécer Gaitán, candidato liberal e favorito às eleições de 1949.

Qualquer que tenha sido a causa, "La Violencia" deixou uma mancha de sangue sobre o mapa colombiano, em especial as zonas rurais, e cicatrizes que ainda hoje saram. Estima-se que pelo menos mais de 200 mil pessoas morreram.

Em 1964, os dois lados desse conflito, que tinham acabado de travar uma guerra que durara uma década, aliaram-se contra a guerrilha camponesa, que se organizou nas Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC). O "Exército do Povo" era uma organização paramilitar (classificada como terrorista pela União Europeia) que se definia como guerrilha revolucionária marxista-leninista. Também surgiu, na mesma altura, o Exército de Libertação Nacional (ELN), outra guerrilha marxista-leninista (igualmente classificada como grupo terrorista pela UE), que juntava estudantes e jovens ativistas provenientes do meio urbano.

O conflito armado da Colômbia, que dura até hoje, envolve também o governo, grupos paramilitares de extrema-direita e sindicatos criminais (inclusive cartéis) que digladiam por influência no território. Uma divergência, até agora, sem fim e que também mete ao barulho empresas multinacionais, Cuba e os Estados Unidos.

Chegamos a 1982. A FIFA anunciou, quatro anos antes, que o Mundial 1986, atribuído à Colômbia, seria disputado por 24 equipas, em vez das habituais 16. Perante as exigências do organismo, e os atrasos na requalificação e construção de estádios, o novo Presidente da Colômbia anuncia a desistência da organização do torneio, uma decisão muito contestada no próprio país. É por essa altura, também, que desponta no Unión Magdalena um jovem de nome Carlos Alberto Valderrama Palacio.

Chamam-lhe "El Pibe", "o miúdo", epíteto frequente para quem nasce com pés de cetim. A ascensão foi relativamente rápida: em 1984 estava no Millonarios, em 1985 no Deportivo Cali e, em 1988, a entrada na Europa: assinou pelo Montpellier.

A Colômbia passa ao lado do Mundial 1986, o tal que era suposto organizar, e que acaba em terras mexicanas, e vê Diego Maradona levantar ao céu a "mão de Deus" e marcar o "golo do século". No entanto, sonha com 90, em Itália.

O ano é 1989 e um político acaba de ser assassinado, decorre o massacre de Trujillo, é destapado um esquema de tráfico de armas. É neste contexto que surge Carlos Valderrama a liderar uma seleção colombiana que, mesmo perante o Paraguai de Chilavert e Cabañas, conseguiu terminar o grupo de qualificação no primeiro lugar e, por ter o pior registo dos três vencedores, seguiu para o play-off intercontinental.

Aí, diante de Israel, que à altura integrava a Confederação de Futebol da Oceânia, os colombianos triunfam (1-0, golo de Albeiro Usuriaga, e 0-0) e apuram-se para o Mundial 1990, ao fim de 28 anos sem pisar o maior palco do futebol.

René Higuita, o guarda-redes do famoso pontapé escorpião, o "Gentleman" Andrés Escobar, Freddy Rincón, o capitão Valderrama e companhia enchem a mala de sonhos e viajam para Itália com a missão de orgulhar a Colômbia. O grupo é complicado — Alemanha Ocidental, que se sagraria campeã do mundo, Jugoslávia, duas vezes vice-campeã europeia, e os Emirados Árabes Unidos, treinados por Carlos Alberto Parreira, que quatro anos depois levaria o Brasil ao título.

Estamos numa era em que a vitória ainda vale dois pontos. A Colômbia começa por vencer os Emirados, por 2-0, com Valderrama na "score sheet", mas perde com a Jugoslávia, de Susic e Stojkovic, por 1-0, e chega à última jornada com dois pontos.

A precisar, a fechar, de um empate para passar, a Colômbia mede forças com a gigante Alemanha no jogo decisivo. Tudo corre bem até ao minuto 88, quando Pierre Littbarski adianta os germânicos. É o fim, certamente, das aspirações colombianas. Até que Carlos Valderrama pega na bola a meio-campo e, após uma série de combinações com companheiros, desmarca Rincón com um passe a rasgar a defesa alemã e, na cara do guarda-redes, o avançado faz o golo da igualdade.

A Colômbia seria eliminada logo nos oitavos de final, diante dos Camarões, após prolongamento. Todavia, a história já fora feita e de diversas maneiras. Apuramento para o "mata-mata", um empate frente à Alemanha Ocidental e um dado curioso: o único jogo que os campeões do mundo de 1990 não venceram.

O futebol colombiano vivia uma era dourada. Na qualificação para o Mundial 1994 (já com Faustino Asprilla a contribuir), ficou à frente da Argentina de Diego Maradona e apurou-se diretamente. Para os livros, ficou uma goleada por 5-0 à Argentina, em Buenos Aires, numa altura em que a "albiceleste" vinha de uma série de 33 jogos seguidos sem perder em casa e de conquistar a Copa América em 1991 e 1993.

Depois desse jogo, a derrota mais pesada da história da seleção argentina (a par de um 6-1 perante a Checoslováquia em 1958), Pelé nomeou a Colômbia como favorita à conquista do Mundial 1994, nos Estados Unidos. E então, a equipa colapsou.

O Mundial 1994 começou, para a Colômbia, antes ainda do primeiro apito inicial.

Seis meses antes do torneio, o maior traficante de droga do mundo, o "Rei da Cocaína", Pablo Escobar, tinha sido morto. Uma morte que deixou um vácuo de poder na Colômbia, ocupado pelo cartel rival. O mercado do narcotráfico fragmentou-se, abrindo alas a uma organização horizontal, descentralizada e mais adaptável.

O futebol colombiano tinha ligações profundas ao mercado do tráfico de droga. Vários cartéis, incluindo o Cartel Medellín, de Escobar, financiavam clubes e ajudavam ao desenvolvimento do desporto no país. Tal beneficiência não vinham sem criminalidade: havia relatos de árbitros coagidos e subornados, um fiscal de linha foi assassinado por anular um golo, em 1993 foi encontrado morto o jovem avançado Omar Darío Cañas, alegadamente por ligações a Escobar. As apostas andavam de mãos dadas com a droga e o futebol era terreno fértil para ambas.

Os cartéis também teriam influência indevida sobre a equipa nacional e as escolhas do selecionador Francisco Maturana, que teria recebido ameaças de morte de forma a condicionar a convocatória e a seleção dos onzes iniciais.

Higuita, guarda-redes herói em 1990, não foi chamado, já que acabara de passar nove meses na prisão, por ter atuado como intermediário num rapto — na verdade, ajudara a libertar a filha de Carlos Molina, mais um barão da droga e inimigo de Escobar (o raptor, num dos últimos crimes que cometeu antes de morrer).

Foi neste clima de tensão e intensa pressão que a seleção colombiana subiu até aos Estados Unidos, para jogar um Mundial em que era apontada como candidata. Nem da fase de grupos passou, frente a Roménia, EUA e Suíça.

Tudo começou com uma derrota inesperada diante da Roménia, por 3-1. O jogo com os EUA era crucial e Maturana terá sido coagido a alterar o onze inicial — a versão mais aceite é que, através do sistema de televisão do hotel, os cartéis ameaçaram que, se alinhasse Gabriel "Barrabas" Gómez, seria assassinado. O titular foi Antony de Ávila. A Colômbia perdeu, por 2-1, com um autogolo de Andrés Escobar.

A Colômbia derrotou a Suiça, por 2-0, no último jogo, mas de nada serviu: estava eliminada, em quarto lugar, e despediu-se do Mundial. De candidata a desilusão. E no regresso a casa, havia, ainda, uma última tragédia à espera da seleção.

Quando o grupo voltou dos EUA, Andrés Escobar — o "Gentleman", como lhe chamavam; um homem que lutava para melhorar a imagem internacional da Colômbia — escreveu um artigo de opinião no jornal "El Tiempo", intitulado "Nos Faltó Berraquera", que pode ser traduzido para "Faltou-nos Garra". Na Colômbia, podes ganhar e perder, mas nunca podes abdicar de lutar, confessou o central, e fora isso que faltara à equipa "cafetera".

A seleção que jogara em Itália com a alegria de um povo cheio de cor, chegara aos EUA cinzenta, triste, vergada sob o peso de um povo oprimido pelo conflito armado, pelos cartéis, pelos grupos terroristas polarizados que falavam de libertação e impunham a sua vontade à lei da morte. Já não havia garra, ou "berraquera".

"Vemo-nos em breve, porque a vida não termina aqui", escreveu o defesa, sem parentesco com Pablo Escobar, a terminar o artigo, escrito a 29 de junho de 1994.

A peça foi publicada apenas no dia 3 de julho de 1994 — um dia depois de Andrés Escobar ter sido assassinado em Medellín, morto com seis disparos à porta de um bar, alegadamente em retaliação pelo autogolo frente aos EUA.

A verdade é que a eliminação da Colômbia gerou perdas de milhões de dólares, em especial para personalidades ligadas a cartéis de droga, que teriam apostado muito dinheiro no sucesso da seleção "cafetera".

O autogolo de Andrés Escobar era o símbolo da deceção no Mundial dos Estados Unidos. A sua morte foi um símbolo da escalada de violência na Colômbia.

Trinta e seis anos depois da euforia de 1990 e 32 anos após a tragédia de 1994, a Colômbia joga com a liberdade de um jovem que cresceu em tempos de cólera. Este sábado, na madrugada para domingo, às 00h30, tentará ganhar o primeiro lugar do Grupo K do Mundial 2026 a Portugal.

  • Fonte: Rádio Renascença
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