"Sem camas, medicamentos" e máquinas de resgate. Sismos agravam crise humanitária na Venezuela
- 27/06/2026 04:00
- Redação
Os sismos de magnitude 7,2 e 7,5 na escala de Richter na quarta-feira e um novo terramoto de 4,9 na sexta-feira agravaram a crise humanitária vivida pelos venezuelanos.
Com dezenas de milhares soterrados há mais de dois dias, faltam maquinaria, combustível e equipas médicas para avançar com as operações de resgate e retirar a população dos escombros. As buscas fazem-se com a força das mãos dos venezuelanos.
Tudo isto sem contar com a escassez de abrigos, eletricidade, telecomunicações, comida ou água potável – até porque o desespero já está a levar a casos de pilhagem entre a população.
Procura-se agora salvar o maior número de pessoas possível, mas a resposta humanitária é, no mínimo, fraca. Os hospitais estão sobrelotados, são poucas as ambulâncias de cada cidade e, segundo os institutos meteorológicos, já se prevê a ocorrência de chuvas intensas e trovoada a partir de domingo.
Segundo o emigrante, o país não estava de todo preparado para esta catástrofe natural. “As pessoas estão na parte de fora [dos hospitais], em tendas, a ser tratadas. Não há camas. Não há medicamentos”, contou.
“O Estado venezuelano nunca pôde tratar da saúde das pessoas e agora menos com esta situação.”
Sabe-se que agora há um risco muito elevado de surtos de doenças e fome caso a ajuda internacional não chegue atempadamente.
E já este último abalo registado na sexta-feira em Arágua, a mais de 100 quilómetros de Caracas, também atingiu a região a 10 quilómetros de profundidade, segundo o Centro Sismológico Euro-Mediterrânico.
Após assumirem o controlo das receitas provenientes das exportações de petróleo venezuelano depois da captura de Maduro – um valor que já pode ter ultrapassado os 7 mil milhões de euros em 100 milhões de barris vendidos (não é conhecido o valor arrecado por Caracas) – e manterem o regime de sanções, são as autoridades norte-americanas que decidem que verbas podem ser recebidas e como vão poder ser utilizadas no país.
Contudo, a administração Trump abriu na sexta-feira uma exceção: vai "flexibilizar" as sanções, enviou, até ao momento, mais de 130 milhões de euros em ajuda humanitária e encaminhou dois navios, helicópteros e aeronaves para acelerar o resgate dos populares.
É também parte dos planos moderar os ânimos dos venezuelanos para não comprometer a deportação de migrantes do país.
Irão, Rússia, Ucrânia, Brasil, México, Cuba, Índia e outras potências internacionais, bem como organizações solidárias conhecidas pelo resto do mundo, como a Cruz Vermelha Internacional e o Programa Alimentar Mundial da ONU, também responderam rapidamente ao estado de calamidade.
Pela Europa, conta-se ainda com a ajuda de Espanha, França, Itália, Luxemburgo, Países Baixos, Suíça e Reino Unido.
Para além de bens essenciais, estão a ser enviados centenas de socorristas, médicos e equipamentos como helicópteros, aviões e maquinaria logística que as equipas podem utilizar para prestar socorro.
Porém, será um desafio receber a ajuda o mais rápido possível, já que aeroportos, hospitais e outras infraestruturas essenciais estão danificadas e sem acessos.
A bordo das aeronaves, segue a Força Conjunta Nacional e 23 toneladas de ajuda humanitária destinada a apoiar as operações de resposta na sequência dos sismos que atingiram aquele país da América Latina.
Ao todo, Portugal envia para a Venezuela 64 operacionais da Unidade de Emergência de Proteção e Socorro (UEPS) da GNR, da Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil (ANEPC) e do Instituto Nacional de Emergência Médica (INEM).
Com mais de 500 mil cidadãos portugueses ou luso-descendentes residentes na Venezuela, multiplicam-se as campanhas de angariação de fundos e recolha de bens em Portugal.
Já a ALUSVEN – Associação Luso-Venezuelana de Cooperação e Desenvolvimento – pede materiais essenciais, como tendas de campismo, sacos-cama, colchões insufláveis, mantas térmicas, alimentos enlatados, kits de primeiros socorros e outras ajudas que podem ser entregues em lojas Liberty Express, em Lisboa, Porto, Aveiro e Algarve, bem como no supermercado Pasaporte Latino, em Braga.
Há ainda recolhas que estão já a ser organizadas a nível local. Por exemplo, a freguesia de Mira de Aire, no concelho de Porto de Mós, vai recolher bens essenciais, como alimentos não perecíveis e material médico básico no próximo domingo, a partir das 08h00, na praça em frente à Igreja Velha.
A Diocese do Funchal, na ilha da Madeira, também se juntou à mobilização nacional com uma coleta solidária em todas as missas dos dias 4 e 5 de julho, cuja receita será integralmente enviada para a Cáritas da Venezuela.
Segundo os dados mais recentes, cerca de dois terços da população venezuelana vive em casas precárias por causa da rápida urbanização do país nas décadas de 1960 e 1970.
Depois da presidência de Hugo Chávez, os anos de Maduro no poder foram marcados pelo colapso económico desde 2013 até ao início deste ano, momento que coincidiu com a operação militar dos EUA no país.
A hiperinflação, a escassez de bens essenciais e a repressão autoritária dos protestos levaram cerca de um quarto da população a abandonar o país nos últimos anos.
Soma-se a corrupção, as sanções petrolíferas de Trump e a exclusão da Venezuela das equações dos mercados financeiros e energéticos internacionais, com as forças norte-americanas a bloquear exportações e importações.
A Venezuela ainda estava a tentar erguer-se dos traumas financeiros, sociais e políticos que se foram acumulando nas últimas décadas e habituou-se a contar os trocos e medir sonhos.
Com a população a viver num modo constante de sobrevivência, as más gestões do país estenderam-se à falta de investimento nas infraestruturas de saúde, em equipas médicas, medicamentos e cuidados básicos.
À custa destas estratégias, ficou para atrás seguir o plano internacional, liderado pela UNICEF com o apoio da ONU, para saber responder a situações de emergência e desastres naturais.
Ou seja, o fornecimento de água potável segura, a construção de instalações sanitárias de urgência e a promoção de práticas de higiene não foram asseguradas.
A Venezuela é, neste momento, um povo desesperado que não confia nos militares do país para sobreviver, quanto mais para colocar a nação em ordem.
De acordo com o mais recente balanço oficial, divulgado este sábado, os sismos fizeram pelo menos 920 mortos e 3.360 feridos.
Há ainda dezenas de milhares de pessoas presas nos escombros de edifícios destruídos pelos tremores de terra.
Foi confirmada a morte de 28 cidadãos da comunidade portuguesa em resultado dos sismos na Venezuela.
Segundo os cálculos da ONU, os abalos podem ter afetado 6,7 milhões de pessoas.
Os contactos para comunicar situações urgentes são o número +58 414-466.53.50 e o e-mail cgcaracas@mnet.pt para a região de Caracas e o número +58 412-040.55.65 e o correio eletrónico valencia@mne.pt para a área de Valência.