Margaret Atwood: “O que está a acontecer nos EUA é um prelúdio para a ditadura”

Margaret Atwood: “O que está a acontecer nos EUA é um prelúdio para a ditadura”

  • 27/06/2026 15:03
  • Redação

Com Salman Rushdie e a prémio Nobel da Literatura Olga Tokarczuk sentados na primeira fila, e uma plateia com mil e seiscentos lugares cheia e outras tantas centenas de pessoas de pé a tarde no Festival Babell, no Porto, este sábado foi de Margaret Atwood.

Entre risos e aplausos, a escritora canadiana foi respondendo às perguntas da escritora e tradutora Tânia Ganho mostrando o seu sentido de humor, mas não deixou de falar de temas sérios. Um deles a atual situação nos Estados Unidos, que considera é preciso estar atento.

“Neste momento nos Estados Unidos estão a tentar reprimir a dissidência política, e isso é um prelúdio para uma ditadura”, afirmou. A autora de “A História de uma Serva” (ed. Bertrand) considerou que “felizmente, os americanos não estão a acreditar totalmente nisso, e ainda não há meios de comunicação estatais”.

A escritora, vencedora do Prémio Booker, lamentou, no entanto, que haja “milionários pró-Trump que estão a comprar canais de televisão e jornais tradicionais”. Atwood, cuja sessão foi das primeiras a esgotar no Festival Babell, salientou, “no entanto, há um movimento de oposição, ou seja, novos meios de comunicação, novos canais com uma distribuição muito ampla na Internet. É algo a que temos de estar atentos”, rematou.

Na sessão foi usada Inteligência Artificial. O que Margaret Atwood diz aparece escrito no ecrã de fundo. Segundo a organização, há um tradutor que está à distância e cuja tradução é reproduzida por escrito, recorrendo à inteligência artificial. No início de cada sessão surge um aviso sobre o sistema usado, alertando para o facto de “poder conter erros”.

O tema da Inteligência Artificial foi um dos que foi abordado pela moderadora, com Margaret Atwood a assumir que já recorreu a ela para perguntar algo trivial como “quem matou a personagem Father Brown da série televisiva”.

Mas depois de uma gargalhada do público, a escritora explicou a conversa que teve com o sistema automático, e lembrou, no entanto, que “os seres humanos não são robots, mas são oportunistas. Se há uma forma de enganar e for difícil de o detetar, há muita gente que vai fazê-lo. A questão com a IA é que, se entra lixo, sai também lixo e nem sempre dizem a verdade”, exclamou, concluindo que “as pessoas que usam IA para negócios, devem verificar, como estas legendas”, referindo-se ao trabalho de tradução feito pelo Festival Babell.

Debaixo de sol, numa plateia a céu aberto, em que as pessoas tinham na cabeça com chapéus de palha com o nome Babell, distribuídos pela organização do evento, houve um momento em que, tal como aconteceu noutras sessões, o ruido da rua interferiu com a sessão.

Na tarde de sábado, foi a marcha de orgulho LGBTI+, que juntou cerca de 300 pessoas na praça vizinha da República, e que atravessou parte da Praça dos Leões onde decorria a sessão.

Poucos antes desta perturbação, Margaret Atwood falava sobre o seu best-seller “A História de uma Serva” e da sua influência na defesa da condição das mulheres. “Muitos dizem-me que ‘A História de uma Serva’ não é ficção, está a acontecer. Eu recebo cartas de todo o mundo, e de alguns países como Irão, que me dizem que não é ficção. Está a acontecer”, explicou referindo à falta de liberdade feminina.

“Podemos estar atentos e não ter resultado. Algumas das coisas que fizemos no PEN Club foi escrever cartas a algumas dessas pessoas, para saberem que não são esquecidas e isso ajudava-as”, contou sobre uma das iniciativas em que esteve envolvida.

Outro dos temas levantado pela moderadora foi a questão do feminismo. “Perguntam-me muitas vezes se sou feminista”, disse Margaret Atwood. “Antes de responder a isso pergunto: de que tipo? É que segundo a Wikipedia há 75 tipos”, disse a rir a autora. “Se feminismo é achar que todos os homens devem ser eliminados, excetuando uma pequena percentagem para fins de reprodução, a resposta é não. Estou interessada no direitos humanos e isso inclui os homens”, sublinhou.

A conversa que girou, no início, muito em torno do último livro publicado em Portugal, “O Livro das Minhas Vidas – Uma espécie de Memórias” abordou outros temas, como o primeiro livro que a autora canadiana escreveu.

“Eu trabalhava de dia e escrevia de noite. Era má a escrever à máquina e dei um amigo para passar à máquina e ele disse-me que não lhe parecia um primeiro livro. Isto foi em 1964. Um editor perguntou se eu poderia alterar o final. Foi divertido. Eu disse que não. Poderia ter estragado todo o livro”, relatou.

Numa sessão em que a escritora de 86 anos foi respondendo a um ritmado conjunto de perguntas de Tânia Ganho, Atwood falou da sua infância passada na floresta e que teve uma educação muito vivida ao ar livre, explicou como escreveu as suas memórias.

Confessa que mantém um diário, mas onde aponta muito pouco coisa. “Hoje escreverei Porto, junho, 2026” disse. Basta-lhe alguns dados, o resto diz é de memória. “É memória é aquilo que realmente lembramos. Por vezes coisas estupidas que fizemos, coisas estupidas que outros fizeram, não nos lembramos das coisas más, lembramos catástrofes, coisas divertidas, experiências de quase morte” disse

Arrancando o riso do público, sublinhou que “a coisa mais canadiana” nessa experiência de quase morte “é ser comida por um urso!”. “São histórias, mesmo as coisas más podem tornar-se divertidas”.

Ao contrário de outras sessões, esta não terminou com a autora a dar autógrafos, embora na plateia muitos tivessem na mão livros de Atwood. Ao público foi anunciado, no final, que estava à venda, uma centena de livros já previamente autografados pela autora na banca da livraria Flâneur.

  • Fonte: Rádio Renascença
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