O adeus de Julian Barnes à escrita: “Sinto que já disse tudo o que tinha a dizer”
- 28/06/2026 14:02
- Redação
De fato preto com riscas brancas e umas meias vermelhas de riscas coloridas, Julian Barnes mostrou ao Porto, no Festival Babell, como as suas respostas são tão desconcertantes quanto a cor das suas meias num fato preto.
“Sinto que já disse tudo o que tinha para dizer”, atirou. “Vou continuar a escrever, ensaios, críticas e coisas do género”, admitiu, no entanto, colocando assim fim à sua carreira como ficcionista.
“Os escritores são um pouco como os alcoólicos. Se conseguem ver o próximo gin tónico na prateleira, conseguem apreciar melhor o que está a beber e eu, a certa altura, revi todas as ideias que tinha anotado ao longo de 20 anos e que ainda não tinha utilizado. Eram todas ideias para coisas que eu poderia ter escrito naquela altura. Não eram ideias para algo que estivesse pressionado a escrever agora”, disse o autor de “O Papagaio de Flaubert” (ed. Quetzal).
Num tom sempre muito calmo, Barnes acrescentou: “Achei que era justo. Sou um autor publicado há 45 anos. Tive uma trajetória afortunada”, sublinhou e, com o seu tom irónico, garantiu que não fará “uma digressão de despedida, para depois voltar”. “Não vou voltar”, concluiu.
Numa sessão em que o público foi desafiado por Richard Zimmler a levantar o braço e mostrar que livro traziam de Barnes, ficou claro que a maioria exibia o último romance publicado em Portugal, de capa amarela, “Partida” (ed. Quetzal)
É um livro também ele de despedida, onde aborda temas como a morte e a doença. Na sessão deste domingo no Babell, Julian Barnes foi claro ao dizer com ironia novamente: “Tenho um tipo de cancro de sangue que, tenho orgulho em dizer, é bastante raro”.
“São diagnosticados 500 casos por ano na Grã-Bretanha, e perguntei a uma médica, de forma mais casual possível: “Suponho que não tem cura?” Ela respondeu: “Não, mas é gerível”. Eu pensei: “Incurável, mas gerível... é como a vida.”
Questionado no final da sessão sobre se há futuro para a literatura, Julian Barnes voltou a usar o seu fino humor: “Quando olho para os lindos olhos castanhos da plateia, acho que há um futuro para a Humanidade. A literatura foi sempre para uma minoria, porque muitos não sabiam ler ou era impedidos de ler. Shakespeare não era para todos. Nem todos o conseguiam ler. Mas haverá sempre bons leitores, se houver bons escritores”, concluiu, dizendo que aquelas eram as suas “últimas palavras”.