Salman Rushdie: “Escrever livros é a coisa mais difícil e gratificante que sei fazer”
- 28/06/2026 21:14
- Redação
Foi com a música “Somewhere Over the Rainbow”, do filme “Feiticeiro de Oz” que abriu a sessão com o escritor Salman Rushdie, moderada pelo escritor Alberto Manguel, no Coliseu do Porto este domingo.
O autor de “Versículos Satânicos” (ed. D. Quixote) foi convidado pelo Festival Babell e a sua presença obrigou a apertadas medidas de segurança que acabaram por atrasar em 45 minutos, o início da conversa.
Além do trânsito cortado na Rua Passos Manuel antes, durante e depois da sessão, na entrada do Coliseu foram colocados detetores de metais e o público aconselhado a chegar cedo e a não levar mochilas grandes.
A fila pela rua acima era extensa antes do início da sessão que segundo a organização juntou cerca de três mil pessoas.
A conversa começou pelas memórias de infância do autor nascido em Bombaim, na Índia e terminou com uma pergunta sobre a morte. Alberto Manguel questinou Salman Rushdie sobre o seu medo da morte.
Com sentido de humor que lhe é habitual, o escritor respondeu: “Já olhei bem para ela! Não é fantástica!”. Rushdie que há 4 anos em Nova Iorque foi alvo de uma tentativa de homicídio lembrou “uma personagem de Herman Melville, o Bartleby que sempre que é questionado sobre algo, responde ‘eu preferia não o fazer’”, para dizer que essa é a sua “visão da morte - preferia não o fazer”.
De óculos, com a lente do lado direito preta, a tapar o olho que perdeu no ataque à facada que quase lhe roubou a vida, o autor que tem uma cicatriz bem visível na cara, explica que como ficcionista que é, vingou-se do seu homicida no livro “Faca” (ed.D. Quixote)
“Quando estava a escrever as memórias, a seguir ao ataque, percebi claramente que uma das figuras mais importantes da história, era o agressor. Cheguei a pensar ir à prisão onde estava detido e pedir-lhe um encontro. A minha mulher não achou que fosse uma boa ideia!”, disse gerando a gargalhada do público.
O autor chegou a interrogar-se “o que ganharia com esse encontro? Ele não vai abrir o coração”, pensou. Isso levou-o a recordar a arte que é a sua profissão. “Pensei, sou um romancista. Porque não o invento? Assim, ele pertence-me. E usei o talento que tenho para o fazer”.
No livro em que percorre cada dia que passou depois do ataque, todo o difícil processo de recuperação, Salman Rushdie empenhou-se a dar voz ao seu homicida e interroga-se sobre os motivos de alguém que “nunca” tinha lido, sequer, um livro seu.
“Como é que este jovem, que cresceu em Nova Jérsia, sem antecedentes criminais, pode decidir cometer um homicídio de um estranho? Imaginei isso. Então, neste livro que é completamente não ficcional, há um capítulo totalmente ficcional, com uma conversa com ele. Claro que para ser justo, era preciso dar-lhe algumas das melhores falas. Ele não poderia ser simplesmente estúpido. Bem… ele podia ser um pouco estúpido!”, disse com ironia.
O escritor que viveu anos escondido depois da “fatwa” decretada contra si pelo líder iraniano, o aiatola Khomeini, falou sobre a literatura, e em particular pela sua admiração pela escrita de Shakespeare.
“Há dias em que escreves algo e pensas, não lhe mexas mais. Esses dias não surgem todos os dias se não fores um Shakespeare. Ele escrevia uma peça ao ano. As pessoas dariam os dentes para escrever como ele”, apontou.
Numa sessão mais curta do que as outras do festival Babell e que durou pouco mais de 40 minutos, Salman Rushdie falou ainda das dificuldades da escrita. “É a coisa mais difícil que sei fazer, mas é também a coisa mais gratificante que sei fazer”, admitiu.
“Por vezes, quando se está a escrever um livro, ficamos bloqueados. As engrenagens da máquina parecem estar encravadas. Uma das coisas que aprendi é que, quando isso acontece, o erro nunca está nesse ponto. Está algures antes. Há algo que não foi devidamente imaginado, ou que foi subestimado, deste um passo em falso algures, talvez uma página antes ou 50 páginas depois, e de repente isso bloqueia a história”, explicou.
Segredos revelados por Salman Rushdie que no final da conversa foi aplaudido de pé e brindou com um copo de vinho do Porto, arriscando gritar em bom português: “Viva Porto!”
Nesta, tal como em outras sessões do Festival, antes do arranque de cada conversa, o comissário do evento, Rui Couceiro, informava o público sobre o uso de “acessibilidade linguística em tempo real”
Rui Couceiro que leu sempre o mesmo texto no início das sessões explicava que “as legendas apresentadas durante a sessão" eram "geradas em tempo real, a partir da interpretação simultânea realizada por intérpretes de conferência profissionais, com o apoio de inteligência artificial”.
A questão é que o sistema por vezes parava de traduzir, outras vezes trocava palavras, passava muito rápido e colocava pontuação em locais errados. Couceiro alertava o público apenas para alguns dos erros. A situação repetiu-se na sessão com Salman Rushdie.
Em conversas que nunca foram inclusivas com língua gestual portuguesa, explicava-se que “embora a tecnologia permita tornar o evento mais acessível a um público mais vasto, poderão ocorrer ocasionalmente pequenas gralhas, lapsos na transcrição de nomes próprios ou expressões específicas”, pelo que era pedida a “compreensão, apoio e tolerância".
Mas o sistema gerou críticas num festival dedicado à escrita e à palavra e que deu palco a alguns dos maiores escritores da atualidade. Alguns, com foi o caso dos Prémios Nobel Olga Tokarczuk e László Krasznahorkai, quiseram falar nas suas línguas, ou seja, em polaco e húngaro. Houve mesmo quem abandonasse as sessões do Babell.