Entrevista a Pedro Martins: "O que mudou o futebol foi a Itália ganhar ao Brasil em 1982"
- 29/06/2026 07:55
- Redação
Quando Pedro Martins começou como treinador principal, depois de guardar na mala algumas aprendizagens perto da sombra de José Couceiro, os staffs eram ligeiramente diferentes. Tinha apenas um treinador de guarda-redes e um preparador físico na sua primeira aventura, na União de Lamas. Foi há 20 anos.
“São 20 anos de grandes momentos, de grandes recordações. Olhar para o percurso enche-me de satisfação”, confessa a Bola Branca, o treinador do Al-Gharafa do Qatar, onde está há quatro anos e por quem renovou por mais duas temporadas. Se o homem pouco mudou, o treinador é outro, pois está muitíssimo “mais habilitado”, garante. “Sinto-me um privilegiado por fazer parte, durante tantos anos, desta profissão que tanto adoro.”
Este homem, que fala lentamente e com certezas, garante que tem mercado em geografias várias, como Grécia, Brasil, Médio Oriente e até Inglaterra. É aqui, nas terras da realeza britânica, que gostava realmente de trabalhar, seja no Championship, seja na Premier League, pois é ali que “a essência do jogo é pura”.
Então e um regresso a Portugal? “Sou sincero: ou venho para uma equipa grande ou não me vejo a trabalhar em Portugal”, informa. Quando estava a treinar no Olympiacos, onde foi campeão três vezes em quatro temporadas, recebeu um telefonema. Era um clube grande a querer garantir os seus serviços, mas a mudança não aconteceu.
“Não foi possível, havia compensações. Lá está, emocionalmente eu estava muito envolvido [com o Olympiacos], acabou por não acontecer porque o projeto não tinha acabado. É o que é. Não lamento, as oportunidades acontecem e vão acontecer.”
Ao longo da conversa, Pedro Martins lembra alguns treinadores que teve, como Quinito e o senhor que mudou a sua posição de ponta de lança para trinco (e a quem deve a carreira que teve). Sobre Carlos Queiroz, o homem que vai fazendo história no Campeonato do Mundo pelo Gana e pelo seu nome próprio, deixou rasgados elogios.
“Foi o responsável por aquilo que vivemos atualmente na formação de treinadores”, reflete. “É um treinador que mudou tudo no futebol português. Muitos de nós bebemos aquilo que é a formação dada nos cursos, o que ele transmitia, o que fez. Ainda hoje se trabalha assim. Eu, pessoalmente, bebi muito da metodologia do Carlos Queiroz.”
Questionado se o legado daquele treinador é respeitado por cá, Pedro Martins concede que a figura teve alguns desaguisados mas não tem dúvidas: “Ele não tem a imprensa que outros têm e se calhar com muito menos resultados, isso é claro. Não só como treinador, mas como formador que ele também foi. Ele revolucionou o futebol do treino em Portugal. Depois, Mourinho, mais tarde, veio dar uma imagem e transportar isto para outra dimensão. Mas aquilo que o Carlos Queiroz fez na década de 80 e inícios de 90 é brutal. A seleção mudou completamente.”
O treinador, que jura “jamais castrar uma equipa” e apostar em autocarros, estranha quando ouve na televisão que a liga saudita nem nas 20 primeiras está. “Não sabem o que estão a dizer, não podem saber”, atira, lembrando o investimento, os jogadores que por lá andam e que estão a disputar o Campeonato do Mundo. “Dizer isso é profundo desconhecimento da realidade”, garante, reconhecendo que o Qatar tem um campeonato mais equilibrado do que o saudita, que conta com o peso do fundo soberano em alguns emblemas.
Pedro Martins, um confesso orgulhoso pelo trabalho que fez no Marítimo (“é como se tivesse sido campeão”) e alguém que via Raphinha pronto para altos voos no Vitória SC, sabe o que vem aí no futebol.
“Muitos dados, muitas ações programadas, podemos passar ao que é o futebol americano, com jogadas estudadas desde a construção até ao final, passando pelas bolas paradas no meio-campo ofensivo e defensivo”, arrisca. “Vamos castrar um pouco a criatividade do jogo.”
Como treinador do Olympiacos, defrontou gente como Pep Guardiola na Liga dos Campeões. A certa altura, na conversa fala-se sobre o “copy paste” que a nova geração tenta fazer do guardiolismo. Pedro Martins considera esse Barça e essa cultura, que bebeu de Johan Cruijff, como um caso à parte. Afinal, seria difícil fazer isso no Sporting ou no Vitória de Guimarães, revela. Para ele, o ponto de inflexão no futebol foi outro.
“O que mudou o futebol foi, em 1982, quando a Itália ganhou o Mundial e ao Brasil, que tinha uma equipa absolutamente fantástica, das melhores do mundo, uma das melhores que vi jogar e perdeu aquele jogo. A partir daí há um…”
Como o silêncio se prolongava, o entrevistador acrescentou “quando morreu o futebol, o futebol-arte”. Pedro Martins aceitou a sugestão.