"Tocava-lhe no nariz para ver se estava vivo." Como um recém-nascido salvou a mãe na Venezuela
- 29/06/2026 09:01
- Redação
"Enquanto ele estivesse vivo, eu também estaria viva. De vez em quando tocava-lhe no nariz para ter a certeza de que continuava a respirar." Dayana Patiño passou 32 horas debaixo dos escombros, sempre agarrada ao seu filho, um recém-nascido de 18 dias. Foi graças a ele que a mãe encontrou forças para sobreviver depois de dois sismos atingirem a Venezuela a 24 de junho.
A história de Dayana foi contada pela própria, na cama de uma clínica em Caracas, a vários órgãos de imprensa internacional.
Quando se apercebeu de que o abalo era mais forte do que lhe pareceu à primeira vista, a mãe não largou mais Juan David. "Comecei a chamar pela minha cadela: 'Kira, vem cá, vem cá.' Mas ela só corria de um lado para o outro, em direção à varanda, como se quisesse fugir por ali. Quando percebi que ela não me obedecia, virei-me para sair a correr."
"Não sei porquê, mas tive o instinto de fugir pelas escadas, apesar de viver no oitavo andar. Nesse momento, a varanda desabou e eu escorreguei. Caí com o bebé nos braços. Ainda hoje não sei como nunca o larguei", recorda Dayana sobre o momento em que o chão lhe fugiu literalmente debaixo dos pés.
"Senti como se tivesse mergulhado em água. Por um instante pensei que me estava a afogar. Era uma mistura de água e terra. Logo a seguir caí num buraco, fiquei presa contra um móvel, sempre com o meu bebé apertado contra o peito." Foi nessa altura que Dayana, sempre a proteger Juan David, começou a pôr em causa a sua fé.
"Caí assim, com ele encostado ao meu peito. E comecei a revoltar-me com Deus. Perguntava: 'Porque é que me fazes isto? Vou acabar assim? Se eu sou uma boa filha, uma boa esposa, nunca fiz mal a ninguém, porque é que me fazes isto?' Numa situação daquelas, revoltamo-nos muito. Sobretudo porque fiquei presa como se estivesse dentro de uma cápsula de cimento — foi essa a sensação que tive", relata a mãe venezuelana.
Quando voltou a sentir chão debaixo de si, Dayana percebeu que tinha um objeto por baixo do seu corpo. "A queda foi tão grande que eu devia ter partido a anca. No entanto, senti um volume atrás da cintura, como se fosse um pedaço de couro. Pensei: 'O que é isto? Não pode ser.' Quando o puxei, vi que era uma Bíblia."
Esse momento foi de viragem, e levou a venezuelana a acreditar que podia ser salva.
"Foi aí que pensei: 'Não sei como, porque parecia impossível tirarem-me daqui, mas eu vou sobreviver.' Acho que foi o meu filho — que esteve sempre acordado — e a Bíblia que me deram forças para continuar. Nunca perdi os sentidos. Nunca adormeci. Nunca senti claustrofobia. Sentia sempre que havia um pouco de luz e de ar", recorda.
Para sobreviver, conta que urinou muitas vezes, o que a ajudou a manter o seu corpo e o do filho quentes. O seu objetivo era que nenhum dos dois entrasse em hipotermia.
Dayana gritou várias vezes por ajuda, mas percebeu que ninguém a ouvia, apesar de ouvir os gritos de uma vizinha sua, com quem tentou comunicar, mas que nunca lhe respondeu.
"Foi então que percebi: 'Ninguém me ouve. Não vou desperdiçar energia.' Decidi que só voltaria a gritar quando ouvisse passos ou pessoas por perto. E foi assim... até ouvir a voz do meu irmão."
Depois do seu grito, Dayana ouviu o irmão responder: "Encontrei-te e prometo que não saio daqui enquanto não te tirar daí". A partir daí, começou a operação de salvamento, que terminou com mãe e filho a serem salvos.
A casa da família ficou completamente destruída, mas Juan David teve apenas ferimentos ligeiros. Dayana ficou com lesões nas duas pernas.
Tinha acabado de estacionar o carro, perto de casa, quando os sismos de 7.2 e 7.5 de magnitude aconteceram. Quando olhou para os escombros, temeu o pior. É por isso que a primeira palavra que disse, depois de ver a mulher e os filhos salvos, foi: "Milagre."
No vídeo do resgate, vê-se Gerson a abraçar o filho. "Foi indescritível. Pensei que tinham morrido. Quando vi o meu filho senti que tinha voltado a nascer. Não conseguia acreditar. Foi como se a vida tivesse regressado a mim."
Agora, com a casa, os bens e a cadela perdidos para sempre, o casal diz que terão de recomeçar do zero. "Perdemos quase tudo, mas estamos vivos. Vamos reconstruir tudo o que perdemos", assegurou Gerson.