2.ª edição do Festival Babell? “Temos ideias incipientes, mas não há decisão tomada”
- 29/06/2026 09:31
- Redação
É a pergunta que se tem colocado. No último dia do Festival Babell, no Porto, ela é repetida. Haverá uma segunda edição? Segundo o comissário do evento, que encheu plateias estes dias para escutar alguns dos escritores mais destacados da atualidade, há “ideias e algumas conversas, mas tudo incipiente”.
“Não é um balanço económico. É um balanço de vontades. Para se fazer uma coisa destas tem de haver vontades convergentes. E nós temos de perceber qual é a vontade das pessoas”, sublinha.
A tarde de segunda-feira termina com a presença dos escritores Lídia Jorge à conversa com Gonçalo M. Tavares e o lançamento do livro de Valter Hugo Mãe. Já Luís Osório fará uma “Aparição”, na varandim da Torre dos Clérigos para um monólogo.
Na hora do balanço, Pedro Pinto reconhece que “há coisas para afinar” numa primeira edição, contudo faz um “balanço extraordinário”. Os livros são “uma arma silenciosa”, afirma o presidente da fundação que quer usar essa ferramenta da literatura para gerar lucro intelectual.
“Nós pensamos ajudar a transformar o território. Há impacto na vida das pessoas, gerando lucro. Não lucro fiscal ou lucro económico, mas gerando lucro interior”, aponta o promotor que destaca a “adesão do público” às sessões e a “adesão da cidade”.
Sem fugir ao seu sotaque do norte, Pinto considera que “estas coisas são fundamentalmente para a cidade, mas também para quem a visita”. Para chegar também aos turistas, o Babell distribuiu “um jornal com 50 mil exemplares, em português e em inglês,” nos cinco dias do evento.
Sem o outro lucro, que não o “interior”, como lhe chama Pinto, não há ingredientes para montar um festival da dimensão deste que juntou no Porto dois Prémio Nobel da Literatura, ou nomes como Julian Barnes e Margaret Atwood.
Questionado sobre se o custo do Babell poderá ser superior a 3 milhões de euros, Pedro Pinto esclarece que “o investimento inicial, o orçamento, era ligeiramente superior a 3 milhões de euros. Mas houve coisas que não se realizaram”. Explica que queriam trazer ao Porto “o maior DJ do mundo”, mas não conseguiram.
“Esta é a nossa fórmula de pensar. Não sei quanto é que isto vai custar no fim, mas será muito próximo do número que acabou de dizer”, reconhece Pedro Pinto. Na base do suporte financeiro desta megaoperação está a Livraria Lello e as suas entradas pagas, bem como os livros que vende.
Durante o festival foi anunciado, pela livraria, mais um nome atrativo para o público. A cantora Dua Lipa que, depois de ter falado nas suas redes da Lello “com um dos locais do mundo” que recomenda, colocou no novo espaço da livraria uma biblioteca de livros censurados.
“A biblioteca ‘Manifesto’, não é só uma questão comercial. Não é para vender livros. Neste caso, a biblioteca Manifesto nem vende nada. É apenas um espaço onde posso estar a perceber determinada tipologia de livros e de que modo é que eles, apesar de serem atuais, ainda são censurados no mundo”, sublinha Pedro Pinto.
O Babell, em comparação com os demais festivais de literatura de dimensão que se realizam pelo país, foi diferenciador na forma como decorreram as sessões com os escritores. A literatura tomou as ruas, em sessões ao ar livre.
Se é verdade que o público parava para ver e por vezes se juntava ao evento, assistindo de pé, também é verdade que por vezes o burburinho da cidade interferia com a escuta das conversas.
Neste que foi o primeiro festival com entrada paga, através de um bilhete comprado com a compra de um livro, houve muitas sessões esgotadas, como a de Margaret Atwood com uma plateia de mil e quinhentas pessoas ou a de Salman Rushdie com três mil pessoas.
Mas nem tudo correu bem, no que toca à tradução das sessões, em particular no caso das conversas com os dois Prémio Nobel da Literatura, a polaca Olga Tokarczuk e o húngaro László Krasznahorkai que quiseram falar nas suas línguas.
As traduções, como referia Rui Couceiro no início de cada sessão, contava com “acessibilidade linguística em tempo real”. “As legendas apresentadas durante a sessão são geradas em tempo real, a partir da interpretação simultânea realizada por intérpretes profissionais, com o apoio de inteligência artificial”, explicava.
Contudo, o sistema por vezes parava, gerando a reação sonora do público, outras vezes trocava palavras, colocava pontuação em locais errados, tornando a compreensão das frases confusa.
Couceiro, que alertava o público para a hipótese de alguns dos erros, pediu a “compreensão, apoio e tolerância” do público. Mas nem todos a tiveram e houve mesmo quem tivesse abandonado sessões.
O cartaz do festival contou com momentos de grande público. Fora das sessões dedicadas à literatura foi organizado um cartaz musical que encheu a Avenida dos Aliados, em particular com o concerto que juntou GNR, Pedro Abrunhosa e Rui Veloso, bem como a atuação conjunta de Barbara Bandeira e Carminho.
Outro dos pontos altos que reuniu milhares de pessoas foi o espetáculo do artista chinês Cai Guo-Qiang nas margens do Rio Douro. “One Page” fez milhares de pessoas esperarem para ver um espetáculo de pouco mais de 6 minutos com recurso a fogo de artificio e 600 drones. “Soube a pouco”, diziam alguns dos espetadores, recordando o fogo de artificio do São João, no Porto, embora tenham se mostrado agradados com a criação.