Uma invasão de campo juntou Ronald e Cristiano. Em Miami ficou uma carta e uma mãe agradecida

  • 30/06/2026 05:25
  • Redação

Faltam nove minutos para as quatro da tarde em Vila Nova de Milfontes. Lá fora, 31 graus, temperatura pouco convidativa a passeios na hora da digestão. Um grupo de amigos vai conversando no sofá, enquanto tenta resolver um homicídio de bolso, de um livro de passatempos da moda.

De repente, um telemóvel vibra. É o meu. E a notificação faz nascer um brilhozinho nos olhos. Eram ótimas notícias para quem, daí a cinco dias, entraria num avião rumo a Miami, para fazer a cobertura do Campeonato do Mundo de futebol.

Era um novo e-mail a chegar e no cabeçalho da notificação lia-se "RE: Pedido de Entrevista | Ronald Gjoka”. O convite tinha seguido exatamente sete dias antes e a expetativa era grande.

Toquei na notificação. O ecrã mudou e o semblante também. Quem me respondia não era a mesma pessoa a quem tinha dirigido um pedido de entrevista. O convite foi para Ronald Gjoka. Quem? Talvez o nome até esteja perdido nos confins da sua memória, se for um dedicado adepto de futebol.

Estávamos em agosto de 2013, quando os torneios de pré-época nos Estados Unidos da América eram a grande moda do verão. Em Miami, Real Madrid e Chelsea jogavam mais um jogo da Internacional Champions Cup. Cristiano Ronaldo ainda jogava de branco e estava a começar uma longa época que culminaria com a conquista da Liga dos Campeões, em Lisboa.

A certa altura, ao minuto 65, o jogo é interrompido. Um jovem de apenas 19 anos, chamado Ronald Gjoka, completamente apaixonado por CR7, entra no relvado do agora chamado Hard Rock Stadium, onde Portugal defrontou a Colômbia. Faz um sprint digno de olímpico e abraça-se a Cristiano. O capitão da seleção não o afasta: abraça-o de volta, troca umas palavras com o menino, um carinho na cabeça e fim de festa.

Ronald Gjoka é detido e passa uma noite na prisão, a primeira de várias sem dormir com a sombra da deportação para um dos seus países de origem, o Canadá ou a Albânia. Os procuradores de Miami querem uma pena pesada, numa luta que duraria vários meses.

Eis que volta a entrar em campo Cristiano Ronaldo. O na altura Bola de Ouro envia uma carta aos procuradores a pedir para que deixem cair as queixas e... marca um dos melhores golos da carreira. Em dezembro de 2013, Ronald Gjoka escapa finalmente de vez à justiça, para nunca mais voltar a ter problemas desses.

Voltamos a 2026. O Mundial está à porta e coincidência: quis o destino que seja na América, que Cristiano Ronaldo ainda jogue e que, pelo destino do sorteio, a seleção portuguesa fique hospedada junto a Miami e a escassos minutos de onde ainda tem casa Ronald Gjoka, agora com 32 anos.

Obrigada por ser tão atencioso. O Roni teria adorado isto, mas infelizmente morreu este domingo, num acidente de carro. Estava muito otimista de que Portugal viria treinar a Palm Beach Gardens enquanto jogava futebol com os amigos, e esperava poder ver o seu ídolo, Cristiano Ronaldo.

P.S.: Se tiver oportunidade de falar com o Cristiano, por favor, agradeça-lhe por tudo o que fez pelo meu filho e o quanto significou para ele".

A excitação de uma possível resposta positiva transformou-se em choque. Era terça-feira naquela tarde quente em Milfontes. O e-mail mencionava que o acidente fora no domingo, dois dias antes. Seria possível que esta mãe estivesse a responder a e-mails de jornalistas dois dias depois de perder o filho? E se fosse falso? Desde aquela aventura de 2013, o endereço de Ronald Gjoka poderia ter ido parar a mãos avessas, a alguém que quisesse agora uma brincadeira de muito mau gosto.

Naquela sala, deixou-se de se tentar resolver um homicídio de papel, para tentar encontrar pistas para uma morte real: uns pesquisavam nas notícias de Miami por um alegado acidente automóvel; outros pelo nome do rapaz; mas nenhum truque ou pesquisa resultava. As únicas notícias que apareciam, continuavam a ser as de 2013, com o caso que correu mundo do rapaz que foi salvo por Cristiano Ronaldo.

Como já não tinha visto de residência nos Estados Unidos, passava apenas algumas temporadas em Juno Beach, na Florida, a apenas 13 minutos de carro do centro de estágios da seleção nacional, em Palm Beach Gardens. Foi precisamente aí que se deu o acidente que lhe roubou a vida, bem como o funeral, que encheu a igreja de St. Patrick's. Quis o destino que o último adeus de Ronnie fosse no dia da estreia de Portugal no Campeonato do Mundo.

Encontrámo-nos numa livraria em Palm Beach Gardens, com Malva a trazer alguns objetos do filho: um cartão assinado pelos amigos do grupo de jovens da igreja a que Ronnie pertencia; uma bola de futebol assinada por todas as mais de 80 pessoas que estiveram no funeral; e uma camisola, claro, de Cristiano Ronaldo, que o filho esperava voltar a ver.

"Os bilhetes para os jogos estão muito caros. E para dizer a verdade, nós não temos condições para os pagar, porque temos a mensalidade da escola e tudo mais. Mas ele ia tentar vê-lo, porque eles estão a treinar aqui, em Palm Beach Gardens. Lembro-me de ele dizer 'estou tão feliz, vou lá dar uma vista de olhos. Não vou incomodar ninguém. Vou só observar de longe e, se puder, agradeço ao Ronaldo'.

A mãe suspeitou nova confusão por causa de CR7 e avisou o filho para ter cuidados redobrados desta vez. Ronald tinha um plano. "Ele queria subir às árvores no centro de treinos. E eu perguntei-lhe 'como é que vais subir às árvores? A polícia está lá'. Eu pensei logo que ele ia meter-se em problemas novamente, mas ele prometeu que não", explica Malva a Bola Branca.

Até porque não era seu hábito. Ronnie adorava animais – principalmente gatos –, tinha um sentido de humor apurado; chegou a ser DJ, e era muito ativo na comunidade católica de St. Patrick's, fazendo parte de um grupo de jovens católico. Tudo isto está no obituário do jovem de 32 anos, publicado poucos dias antes do seu funeral. O texto tem vários parágrafos, mas é logo nos cimeiros que aparece o seu maior ídolo.

"Ele adorava tudo o que fosse diversão e relacionado com futebol, e chegou a conhecer o seu ídolo, Cristiano Ronaldo, em 2013", lê-se logo no terceiro parágrafo. E foi precisamente por causa do capitão da seleção que a vida de Ronnie mudou. E podia ter mudado ainda mais.

Era apenas mais um dia a ajudar imigrantes para Richard Hujber. O advogado, especialista em casos de imigração, tem escritório em Boynton Beach, a cerca de meia hora de Juno. Um dia, em 2013, um jovem marca uma consultoria com ele. Aparece, pequeno, franzino, mas independente. Precisa de ajuda para se livrar das acusações de invasão de um estádio e do risco da deportação. Esse rapaz é Ronald Gjoka, mas Hujber ainda não sabe o que aconteceu.

"Ele fez-me rir, porque eu sou de outra geração. Não sou da era das redes sociais. E ele virou-se para mim e diz 'como assim não viste o meu vídeo no YouTube? Já tem mais de um milhão de visualizações, cliques, seguidores e tudo mais'. E eu só respondi 'Não sei do que é que estás a falar'".

Richard Hujber não tinha visto o jogo entre o Real Madrid e o Chelsea em que Ronnie invade o relvado. Na altura não acompanhava futebol. Mas este caso teve o condão de o aproximar ao "desporto-rei". "Nessa altura, eu não era tão fã de futebol como sou agora. E sou fã principalmente por causa do Ronald, para ser sincero. Fiquei um grande fã".

Tanto que, no ano seguinte ao tão afamado caso, Richard foi até ao Brasil para assistir ao vivo ao jogo entre Estados Unidos e Portugal, do Mundial 2014. Um jogo muito motivado pelo caso de Ronnie, até porque Richard tinha uma missão secundária nessa viagem: agradecer a Cristiano e ao agente Jorge Mendes pela ajuda para ganhar o processo.

Mas afinal... que ajuda tão grande foi esta que Cristiano Ronaldo e Jorge Mendes deram a Gjoka e Hujber? Numa altura em que os procuradores de Miami continuavam a pedir uma pena mais pesada para Ronnie – como a deportação –, Richard teve uma ideia: e se Cristiano Ronaldo escrevesse uma carta para demover a justiça do caso?

Mas uma questão: que elementos seriam importantes conter na carta? Ninguém melhor para responder do que um advogado norte-americano, especialista em casos de deportação. Hujber tomou a iniciativa, sem Ronald nunca descobrir a verdade. "Fui eu que escrevi a carta, mas o Cristiano assinou-a. E assinou-a tão rapidamente e enviou-a tão depressa por FedEx, que já cá estava no meu escritório no dia seguinte. E não tive a coragem de dizer isso ao Ronnie, porque ele pensava mesmo que tinha sido o Ronaldo a escrever a carta".

Essa carta, tenha sido ou não escrita por Ronaldo, ficará para sempre guardada pela mãe Malva. "Ele não conseguia acreditar. Não conseguia acreditar. Foi um momento bonito, ele emocionou-se. Para ele, aquilo significava tudo".

Mesmo assim, a carta de Cristiano Ronaldo não foi suficiente. A justiça de Miami considerava que o crime não tinha sido cometido contra o astro português, mas sim contra o Estádio de Miami, na altura chamado Sun Life Stadium. "Eu enviei a carta ao Ministério Público, ao procurador, ao procurador-geral e até ao tribunal. Eles insistiam que o Ronaldo não era a vítima, mas sim o estádio. E eu só dizia 'mas do que é que vocês estão a falar? Vítima de quê? Só se for de embaraço, pela falta de segurança", lembra Richard.

O caso só ficaria resolvido verdadeiramente com outra carta, enviada ao magnata Wayne Huizenga, dono do estádio. Só aí, em dezembro de 2013, quatro meses depois do duelo entre Real Madrid e Chelsea, é que Ronald Gjoka ficou totalmente livre. Mas, para Richard Hujber, Ronaldo foi mesmo essencial.

"A carta do Ronaldo foi definitivamente útil, porque acho que na cabeça de qualquer pessoa ele era o principal envolvido. Para mim, era quase cómico que o estádio fosse a vítima e que tivesse de continuar a lutar por este jovem".

O desfecho foi importantíssimo para a mãe Malva. "Para dizer a verdade, na altura fiquei zangada com ele. E perguntava-me especialmente "porquê a prisão?". Porque na altura ele era estudante aqui e eu disse-lhe "isto é toda a tua vida, já não vens mais para a América, na escola estás feito". Depois de todo o dinheiro que te demos e tudo mais".

Malva tinha genuíno receio de que o filho fosse deportado. Felizmente tal não aconteceu e, por isso, pôde continuar a ver jogos de futebol com o filho.

Ronald Gjoka tem quase uma dezena de camisolas de Cristiano Ronaldo. Vão desde os tempos do Manchester United, passando pela Juventus, acabando na seleção portuguesa. Uma paixão que não foi construída sozinho, mas com a ajuda da mãe. E até da avó.

"Víamos todos os jogos. Eu, ele e a avó, que nem fala inglês. Em cada jogo, três mosqueteiros. Mesmo quando ele estava no Canadá, víamos à distância, pelo computador, remotamente. Ele costumava dizer 'estou convosco nisto, pessoal. Estou convosco nisto'", conta Malva Gjoka a Bola Branca.

Os "Três Mosqueteiros" de que Malva fala não incluem o pai de Ronald. O jovem canadiano-albanês cresceu sem pai e Ronaldo foi uma espécie de "figura-paterna", um "mentor" como dizem Malva e Richard sem sequer saberem que usaram a mesma expressão. Para Richard, também foi essa a chave para Cristiano ajudar o jovem estudante em 2013.

"Ele reviu-se no miúdo e não quis que nada de negativo ou de mal lhe acontecesse. Era um jovem de 19 anos, com visto de estudante nos Estados Unidos, que poderia ser deportado e perder tudo". Não perdeu, com a ajuda de Richard, Cristiano e Jorge Mendes. E assim, os Três Mosqueteiros continuaram, durante mais 13 anos, a partilhar jogos e aventuras.

Memórias que não vão voltar a ser reproduzidas e que custam particularmente mais agora. "Quando penso no Mundial, quando vejo os jogos e tudo mais, o meu coração vai-se muito abaixo. Muito abaixo. Eu não consigo mesmo acreditar". O único incentivo para Malva é mesmo saber que Cristiano está perto. E com isso, Ronnie também.

"Se eu pudesse falar com o Cristiano agora, o que lhe diria? Obrigado. Obrigado por teres salvado a vida do meu filho. Obrigado por me teres dado mais uns anos com ele, porque se calhar ele tinha ido para a cadeia e eu não tinha tido esses anos. Eu adoro o homem que ama tanto a sua mãe como o meu filho me amava a mim".

Bola Branca honrou o pedido da mãe de Ronnie e entregou à Federação Portuguesa de Futebol, em Palm Beach Gardens, a mensagem enviada por Malva Gjoka.

  • Fonte: Rádio Renascença
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