Procura-se a "Trichi": o pequeno inseto australiano que pode ajudar a salvar os ecossistemas portugueses

Procura-se a "Trichi": o pequeno inseto australiano que pode ajudar a salvar os ecossistemas portugueses

  • 30/06/2026 07:25
  • Redação

Há um novo desafio para quem gosta de passear pela natureza: encontrar a "Trichi". Não é um Pokémon, nem uma personagem de desenhos animados. É um pequeno inseto australiano que está a revelar-se um aliado precioso no combate à acácia-de-espigas, considerada uma das plantas invasoras mais problemáticas de Portugal.

Discreta e praticamente impercetível, a Trichilogaster acaciaelongifoliae , conhecida simplesmente por "Trichi", não pica, não faz barulho e não representa qualquer perigo para as pessoas ou para outras plantas . Pelo contrário: desenvolve-se exclusivamente na acácia-de-espigas, onde impede a formação de flores e reduz a produção de sementes, travando a expansão desta espécie invasora que, há décadas, ocupa dunas, matas e outras zonas costeiras portuguesas, ameaçando os ecossistemas e a biodiversidade.

O desafio é simples: encontrar acácias-de-espigas, observar os ramos, procurar as pequenas galhas, fotografá-las e registar a observação. Mesmo quando as galhas não existem, essa informação continua a ser importante para os investigadores.

"Sabemos que o agente está espalhado por muitas zonas, mas precisamos de muito mais olhos no terreno para perceber onde está, onde ainda não chegou e que efeito está a ter na acácia-de-espigas. É aqui que a ciência-cidadã pode fazer toda a diferença", explica Elizabete Marchante, investigadora da Universidade de Coimbra e membro da equipa da INVASORAS.PT, citada em comunicado.

A acácia-de-espigas, originária da Austrália, foi introduzida em Portugal há mais de um século para estabilizar dunas e em projetos florestais. Com o tempo, tornou-se uma das espécies invasoras mais problemáticas do território continental.

A espécie cresce rapidamente, forma extensos povoamentos, altera os habitats naturais e compromete a biodiversidade. Além disso, produz milhares de sementes que podem permanecer viáveis no solo durante vários anos, tornando extremamente difícil a sua erradicação.

Foi precisamente para travar essa capacidade de propagação que, em 2015, investigadores portugueses introduziram a "Trichi", após vários anos de estudos e testes de segurança.

O inseto desenvolve-se exclusivamente nas gemas florais da acácia-de-espigas, formando galhas — crescimentos anormais em partes da planta semelhantes a tumores — que impedem o desenvolvimento das flores. Menos flores significam menos sementes e, consequentemente, uma redução gradual da capacidade invasora da planta.

Desde então, investigadores do Centro de Ecologia Funcional da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra e do CERNAS – Centro de Investigação de Recursos Naturais, Ambiente e Sociedade, do Instituto Politécnico de Coimbra, acompanham a dispersão deste agente de controlo biológico.

A campanha dirige-se a caminhantes, amantes da natureza, escolas, estudantes, voluntários ambientais, técnicos municipais, associações e investigadores.

Não são necessários conhecimentos científicos. Basta identificar uma acácia-de-espigas, procurar as galhas e registar a observação através da aplicação Epicollect5, no projeto "Registo de Trichilogaster acaciaelongifoliae", ou da plataforma iNaturalist/BioDiversity4All.

Os dados recolhidos permitirão perceber até onde a "Trichi" já chegou, onde ainda não está presente e qual a eficácia deste agente na redução da capacidade invasora da acácia-de-espigas.

A campanha pretende reforçar a participação pública na monitorização de espécies invasoras e contribuir para uma das mais relevantes experiências de controlo biológico de plantas invasoras atualmente em curso na Europa.

Na próxima caminhada, vale a pena olhar com atenção para as acácias. Aquelas pequenas galhas nos ramos podem parecer insignificantes, mas escondem um aliado fundamental para proteger a biodiversidade portuguesa.

  • Fonte: Rádio Renascença
Envie fotos, vídeos, denúncias e reclamações para nossa equipe pelo E-mail contato@portugalemfoco.pt.

Compartilhar: