Lobo protegido em Portugal pode ser caçado em Espanha. Organizações pedem estratégia comum para salvar a espécie

Lobo protegido em Portugal pode ser caçado em Espanha. Organizações pedem estratégia comum para salvar a espécie

  • 30/06/2026 10:35
  • Redação

Um lobo ibérico protegido por lei em Portugal pode atravessar a fronteira e ser abatido legalmente em Espanha. O alerta é lançado esta terça-feira por três organizações de conservação, que consideram que a ausência de uma estratégia comum entre os dois países está a colocar em risco o futuro da espécie, apesar de décadas de esforços de proteção em território português.

Num comunicado conjunto, a Green Impact ETS, a Rewilding Portugal e o Fondo para la Protección del Lobo Ibérico lembram que o lobo ibérico constitui uma única população biológica partilhada entre Portugal e Espanha, mas continua a ser gerido através de regimes legais distintos. Enquanto Portugal mantém a espécie sob proteção rigorosa desde 1988, em Espanha, sobretudo a norte do rio Douro, os animais podem voltar a ser alvo de caça e de outras formas de gestão letal, após alterações recentes à legislação.

Segundo as organizações, esta situação significa que lobos nascidos e protegidos em Portugal atravessam regularmente a fronteira e ficam sujeitos ao abate, comprometendo os investimentos feitos na conservação da espécie.

"O lobo ibérico merece um espaço único de conservação a nível europeu. Portugal demonstrou uma coragem extraordinária ao manter uma proteção rigorosa. Agora, deve aproveitar essa liderança para construir uma resposta coordenada com Espanha e exigir que a UE disponibilize o financiamento necessário para que a coexistência funcione", lê-se na nota.

Os dados apresentados pelas três organizações mostram que existem atualmente entre 250 e 300 lobos em Portugal, distribuídos por 58 alcateias, concentradas sobretudo a norte do rio Douro. O mais recente censo nacional concluiu que a área de distribuição da espécie diminuiu cerca de 20% nas últimas duas décadas, refletindo um estado de conservação considerado desfavorável.

Além da pressão exercida pela diferença de legislação entre os dois países, as associações apontam outros problemas que continuam a ameaçar o lobo ibérico em Portugal, como o furtivismo, a fragmentação do habitat provocada por infraestruturas, a mortalidade nas estradas e os atrasos no pagamento de indemnizações aos produtores afetados por ataques ao gado.

Entre 2007 e 2017, um estudo citado pelas organizações concluiu que 47% das mortes de lobos monitorizados com coleiras GPS no noroeste português resultaram de furtivismo, tornando esta a principal causa de mortalidade identificada para a espécie naquela região.

As organizações destacam que Portugal reafirmou, em junho de 2025, junto do Conselho da União Europeia, a intenção de manter uma proteção nacional rigorosa para o lobo ibérico, mesmo depois da alteração da Diretiva Habitats, que reduziu o nível de proteção da espécie a nível europeu.

Segundo o comunicado, esta decisão faz de Portugal "um exemplo de liderança" na conservação do lobo, mas alertam que o esforço nacional será insuficiente se não existir uma estratégia comum com Espanha, uma vez que os animais circulam livremente entre os dois países.

Para inverter esta situação, as três organizações propõem a criação de uma estrutura binacional permanente, semelhante à que permitiu recuperar o lince-ibérico da extinção.

A ideia passa por criar um organismo coordenado pelo Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) e pelo Ministério da Transição Ecológica de Espanha, responsável por elaborar uma estratégia conjunta de conservação, realizar um recenseamento anual único da população de lobos e harmonizar as medidas de proteção dos dois lados da fronteira.

As associações defendem ainda um reforço do financiamento europeu destinado à conservação dos grandes carnívoros, com verbas específicas para a monitorização científica, combate ao furtivismo, restauro de habitats, melhoria da conectividade ecológica e medidas de apoio aos agricultores, incluindo sistemas de proteção do gado e compensações por prejuízos.

No comunicado, as organizações sublinham que a proteção da espécie não depende apenas da lei, sendo necessário investir em medidas que permitam a coexistência entre o lobo e as comunidades rurais.

"O lobo ibérico é o fio condutor da atual erosão da proteção da natureza na UE. O que estamos a testemunhar na Península Ibérica é a consequência direta de uma decisão política tomada em Bruxelas: basta alterar o estatuto jurídico para que a pressão no sentido de retomar a gestão letal se torne quase irresistível a nível nacional. Os instrumentos para gerir a coexistência existem há anos (...). O que tem faltado é vontade política para os utilizar", afirmam as três associações.

As organizações apelam, por isso, aos governos de Portugal e de Espanha e às instituições europeias para que aproveitem o período de implementação do Programa Alcateia 2025-2035, recentemente aprovado em Portugal, para criar uma verdadeira estratégia ibérica de conservação, capaz de garantir a recuperação de uma espécie que continua classificada como "Em Perigo" em território nacional.

  • Fonte: Rádio Renascença
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