Com uma ajuda dos pescadores, os peixes gigantes do Mekong podem escapar à extinção
- 30/06/2026 08:40
- Redação
Uma linha de emergência disponível 24 horas por dia e uma aplicação móvel estão a transformar a conservação dos maiores peixes de água doce do planeta no rio Mekong, no sudeste asiático. O sistema, implementado no Camboja no final de 2025, já permitiu resgatar e libertar dezenas de exemplares de espécies ameaçadas que tinham sido capturados acidentalmente por pescadores.
O Mekong, que atravessa seis países, alberga algumas das maiores espécies de água doce do mundo, entre elas o peixe-gato-gigante do Mekong, o barbo-gigante e a raia-gigante de água doce. Durante décadas, estas populações sofreram um declínio acentuado devido à pesca excessiva, à construção de barragens e às alterações do regime natural do rio.
A mudança começou com a criação da Mekong Fish App, uma plataforma que permite aos pescadores comunicar, em tempo real, a captura acidental de espécies protegidas. As informações são imediatamente transmitidas às autoridades e a uma equipa especializada, que se desloca ao local para medir os animais, instalar dispositivos de monitorização e devolvê-los rapidamente ao seu habitat natural.
Entre novembro de 2025 e fevereiro de 2026, a equipa conseguiu libertar 92 peixes de grande porte, incluindo 24 peixes-gato-gigantes do Mekong, 23 barbos-gigantes, 32 carpas-douradas-de-Jullien e 13 peixes-gatos-listados. Os investigadores consideram estes resultados inéditos e um sinal encorajador para espécies que, durante anos, estiveram próximas da extinção.
A confiança construída ao longo dos anos entre cientistas, autoridades e pescadores revelou-se essencial para o sucesso do projeto. Muitos pescadores passaram a contactar voluntariamente a linha de emergência sempre que capturam espécies protegidas, permitindo que sejam libertadas vivas em vez de serem comercializadas.
Apesar dos sinais positivos, os especialistas alertam que os desafios persistem. A maioria dos peixes resgatados continua a apresentar dimensões inferiores às registadas há algumas décadas, o que indica que as populações ainda são compostas sobretudo por exemplares jovens. Além disso, continuam a existir ameaças como a expansão da energia hidroelétrica, a mineração de areia e as alterações do caudal do rio.
Ainda assim, os investigadores consideram que a experiência do Mekong demonstra que a conservação pode produzir resultados mesmo em ecossistemas sujeitos a forte pressão humana. Para Zeb Hogan, cada peixe devolvido ao rio representa uma prova de que "a extinção não é inevitável" e reforça a importância da cooperação entre ciência, autoridades e comunidades locais para proteger uma das maiores riquezas da biodiversidade mundial.
Os maiores peixes de água doce do planeta estão entre as espécies mais ameaçadas do mundo. Desde 1970, algumas populações de mega-peixes — espécies capazes de atingir pelo menos 90 quilogramas ou 1,80 metros de comprimento — registaram quebras superiores a 95%. Em alguns casos, o desaparecimento foi irreversível, como aconteceu com o peixe-espátula-chinês, declarado extinto no início dos anos 2000.
O rio Mekong continua a ser um dos últimos refúgios destes gigantes. Graças à sua extensão, elevada produtividade e às cheias sazonais, oferece as condições ideais para o crescimento de espécies de grandes dimensões. Foi ali, em 2022, que investigadores capturaram, estudaram e devolveram ao rio uma raia gigante de água doce com 300 quilogramas, o maior peixe de água doce alguma vez registado.
Nas décadas de 1980, capturar peixes gigantes fazia parte da rotina dos pescadores em Kampong Cham, no Camboja. Huot Uong, hoje com 73 anos, recorda que as enormes redes de arrasto podiam trazer centenas de peixes e vários exemplares adultos de peixe-gato-gigante. Alguns eram tão grandes que eram precisas dezenas de homens para os retirar da água.
Mas essa abundância desapareceu rapidamente. A pesca intensiva, a construção de barragens, a extração de areia e a alteração do regime natural das cheias provocaram um forte declínio das populações. Desde a década de 1990, as barragens construídas na parte superior do Mekong alteraram as rotas migratórias dos peixes e degradaram o ecossistema.
"O sistema do Mekong está a funcionar contra os peixes e contra as dezenas de milhões de pessoas que dependem deles para alimentação", alerta Brian Eyler, especialista do Stimson Center e autor de Last Days of the Mekong.
Quando o investigador Zeb Hogan começou a estudar o peixe-gato-gigante, no final da década de 1990, a situação já era crítica. Os registos mostram que, se nos anos 1980 eram capturados cerca de 80 exemplares por época, em 1997 esse número tinha caído para menos de dez. Poucos anos depois, havia temporadas em que não era encontrado um único peixe.
Perante o colapso das populações na Tailândia, Hogan concentrou a investigação no Camboja, onde algumas lagoas profundas ainda serviam de refúgio para estas espécies. No entanto, a falta de meios dificultava o trabalho, já que muitos pescadores não tinham telefone e as informações sobre capturas demoravam a chegar.
"Quando estamos a estudar uma espécie ameaçada e deixam de surgir capturas, somos obrigados a admitir que pode ter desaparecido para sempre. Cheguei a sentir que estava a assistir ao fim destes gigantes", diz o investigador à National Geographic.