"Casinha de Nossa Senhora". Como uma creche se reinventa num convento de Lisboa

"Casinha de Nossa Senhora". Como uma creche se reinventa num convento de Lisboa

  • 30/06/2026 07:34
  • Redação

A Fundação Obra Social das Religiosas Dominicanas Irlandesas (FOSRDI) inaugurou, esta segunda-feira, um novo piso da creche que tem a funcionar no Convento do Bom Sucesso, em Belém, Lisboa. São três novas salas, no rés-do-chão do edifício, para mais 36 crianças (dos zero aos três anos), elevando para 80 o total de vagas nesta resposta social.

Instituição particular de solidariedade social (IPSS) desde 1993, a Fundação também tutela o Centro da Sagrada Família, em Algés, que sofreu igualmente obras de requalificação e abriu duas salas para mais 28 alunos. Dois alargamentos importantes, mas ainda insuficientes face à procura, admite o presidente da Fundação.

"Temos mais de 200 crianças em listas de espera", conta João Sales Luis, que espera manter as novas vagas na rede "Creche Feliz", que assegura que a mensalidade é gratuita para as famílias.

O alargamento do acordo de cooperação para os novos lugares não foi ainda formalizado, mas na inauguração da obra, que decorreu esta segunda-feira, 29 de junho, a secretária de Estado da Segurança Social deixou a garantia de que possíveis entraves que ainda existam serão desbloqueados.

"Já abrimos o procedimento para isenção do PROCOOP nas obras que estão a terminar o PRR. Há sempre documentação que é necessária, mas não está, de forma alguma, comprometido o Acordo de Cooperação", assegura, considerando "muito positivo" que esta obra financiada pelo PRR tenha sido concluída "no tempo previsto", e esteja "disponível para receber mais crianças e apoiar mais famílias".

"O Governo está aqui e reitera o compromisso com as instituições e com o trabalho extraordinário que fazem. Temos consciência de que temos de continuar a aumentar os equipamentos sociais, designadamente no que diz respeito a creches", admitiu.

Lembrando que "o prazo do PRR termina em agosto", espera que outras instituições "consigam concluir as suas obras nesta fase", e confia que a solução criada para gerirem as vagas na Creche Feliz (agora através do site e da App da Segurança Social) também dará frutos. "O principal objetivo é identificar as vagas que existem, simplificando muito a vida das famílias".

As obras de ampliação do edifício onde funciona a creche Casinha de Nossa Senhor, e as que também foram feitas no Centro Sagrada Família, em Algés, só foram possíveis graças ao Plano de Recuperação e Resiliência, mas o processo sofreu com a "burocracia a mais", incluindo nesta reta final, admite João Sales Luís.

"Confesso que tivemos muitas dificuldades. Houve instituições que desistiram, câmaras municipais e misericórdias", conta, acrescentando que "as obras estão finalizadas deste fevereiro. Ainda falta algumas coisas, mas estamos convencidos que em setembro vamos ter o processo finalizado, com o Acordo de Cooperação."

O apoio financeiro foi fundamental. "Há três anos, quando nos candidatámos, os valores foram atribuídos de acordo com determinados critérios: o principal foi o número de novas crianças que vêm e também as que já existem, por causa das obras de conservação. Outro critério foi o da eficiência energética, que a Europa, os fundos europeus, privilegiam muito. Seja nos vidros, seja nas placas de energia solar, cumprimos o que exigiam, e neste momento estas duas instituições estão no topo da eficiência energética", explica este responsável, reconhecendo que "seria difícil fazer isto sozinho".

O apoio também incluiu a "compra de equipamentos, mobiliários, computadores". O investimento total rondou os 800 mil euros. "100 mil vamos pagar nós, 700 mil são do PRR. Claro que esse dinheiro foi aprovado, mas só foi dado à medida que fomos fazendo. Sim, foi um processo muito burocrático, gostaríamos que fosse melhor, mas estamos na reta final e tudo vai ficar bem".

A presença de religiosas irlandesas em Portugal remonta ao século XVII, quando muitas freiras – e também monges e frades – foram expulsos das suas casas e os seus bens confiscados. O Convento de Nossa Senhora do Bom Sucesso é, assim, um dos mais antigos no mundo, mas as últimas quatro irmãs irlandesas saíram há já 10 anos.

"Deixaram de viver cá em 2016, regressaram à Irlanda, a Dublin. Das quatro, três já faleceram. Uma delas, que foi presidente quase sempre da Fundação, faleceu há muito pouco tempo", explica João Sales Luís.

"Elas anteciparam muito bem os sinais dos tempos, desafiaram leigos, obviamente com espiritualidade dominicana, para que continuassem a missão. Eu sou leigo dominicano, estou como presidente da Fundação há 12 anos, mas elas estão muito envolvidas, são as donas do convento e participam no Conselho de Administração periodicamente. Agora, a 15 e 16 de julho vão estar aqui presentes, vêm ao Conselho de Administração. Nós fazemos uma reunião anual dos colaboradores todos. A espiritualidade dominicana está muito viva na pastoral dos alunos, no nosso trabalho, etc...".

Com sede em Lisboa, a Fundação desenvolve a sua missão educativa e social através do Colégio do Bom Sucesso (privado) e da creche Casinha de Nossa Senhora – ambos no edifício do Convento, em Belém –, e do Centro Sagrada Família, em Algés.

"A nossa missão, como fundação, é importante dizer isto, é educação com valores", sublinha João Sales Luís.

Com as novas vagas que vão abrir vão ficar, ao todo, com mais de mil alunos: 750 no colégio, 80 na creche Casinha de Nossa Senhora e 240 crianças no Centro Sagrada Família, para além de 165 colaboradores, fixos, e "alguns voluntários e equipas que ajudam".

Em Algés, onde asseguram creche e pré-escolar, desenvolvem o projeto social 'Famílias com Alma', lançado ainda pelas irmãs dominicanas para os bairros pobres de Algés. "Somos das entidades mais antigas com acordo com o Banco Alimentar. Acompanhamos atualmente 130 a 140 famílias, damos alimentação, 60 refeições diárias, e distribuímos cabazes semanais e temos uma mercearia social, Mas, o nosso grande intento é a formação e integração das pessoas no mercado de trabalho".

Na inauguração das novas instalações da creche, em Belém, Sandra Sobreira, diretora da Casinha de Nossa Senhora, lembrou que "quando pensamos numa creche, é fácil a pensar em salas, equipamentos e horários. Mas, uma creche é muito mais do que um edifício", e que o investimento agora feito "é uma renovação do compromisso de continuar a colocar cada criança no centro de tudo o que fazemos".

"Ao passarmos de 44 para 80 lugares na Casinha da Nossa Senhora não estamos apenas a aumentar uma resposta social, estamos a abrir as portas a mais 36 crianças e às suas famílias. Estamos a reforçar o compromisso de uma comunidade que acredita que investir na primeira infância é investir numa sociedade mais justa, mais humana e mais inclusiva", afirmou.

Também Carla Correia, responsável pelo Centro Sagrada Família, defendeu que "investir na infância é muito mais do que criar novas vagas, novas salas, novos edifícios. É investir nas famílias, reduzir as desigualdades".

"Este investimento é muito mais do que um aumento da nossa capacidade de resposta. Representa a vontade de contribuir, de estar ao lado das famílias, respondendo às necessidades da comunidade e garantindo que mais crianças têm acesso a um contexto educativo de qualidade, independentemente da sua realidade". Porque, "quando uma comunidade investe nas suas crianças, está, na verdade, a investir no futuro".

  • Fonte: Rádio Renascença
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