"A escravização não é história do passado", alerta escritora brasileira Conceição Evaristo

  • 30/06/2026 17:56
  • Redação

Já foi empregada doméstica. Hoje é uma das escritoras brasileiras mais destacadas. Conceição Evaristo diz que escreve “como mulher negra”, e não sobre mulheres negras.

Afrodescendente, a autora de “Canção para Ninar Menino Grande” (ed. Orfeu Negro) está preocupada com as eleições presidenciais de outubro, no Brasil. Conceição Evaristo diz que o país vive com “a ameaça” do regresso da “direita maquiavélica”.

Eu não escrevo sobre a mulher negra, eu escrevo como mulher negra. Tudo que produzo, tanto na parte literária, na ficção, como também na teoria, escrevo sempre a partir da perspetiva de uma mulher negra na sociedade brasileira.

Essa perspetiva, ela se apresenta e constrói a partir de ser uma perspetiva de dentro. Eu não estou posicionada de fora, a contemplar as mulheres negras. Eu estou como mulher negra, criando uma personagem.

Essas personagens são colocadas de maneira diferente daquela que a literatura até hoje as construiu. A vivência, quando ela não é uma vivência a partir experiência estritamente pessoal, é uma vivência que só captada de uma experiência coletiva.

A sua vida nem sempre foi a escrita. Nasceu numa família desfavorecida, teve a experiência de viver numa zona de favela. A escrita resgatou-a de tudo isso, mas também precisou de tudo isso para ser a escritora que é?

Eu precisei de tudo isso, é isso que me faz escritora, a experiência da pobreza. Mas tenho dito, não é fazer a apologia da pobreza.

A pobreza, ela vale como ensinamento, como lugar epistémico. Quando você vence a pobreza, quando a pobreza deixa de ser limitação na sua vida, porque enquanto a pobreza for limitação, ela te impede de ser.

A pobreza impede que você coma, tenha uma possibilidade de médicos, a pobreza impede que você vá a um teatro.

Não é fazer a apologia da pobreza. A pobreza não é boa, não é um bom lugar de se viver, não é um bom lugar de ser.

Sim, ela me serviu como matéria literária, e muito. Talvez tenha tirado ou aproveitado essa pobreza até como matéria de ficção, porque eu venci. Consegui chegar a uma escola, fazer um doutorado, que não é comum para as mulheres negras e pobres.

Eu não vivo mais numa linha de pobreza. Essa possibilidade que tive de me mover, faz com que eu olhe para trás e veja a pobreza de uma maneira diferente.

Em livros, como o primeiro livro que tem editado em Portugal, “Ponciá Vicêncio”, de alguma forma, tem parte dessa sua história?

É uma mulher que vem de fora da cidade, vem viver para a cidade, adapta-se ao meio com todas as dificuldades que enfrenta.

Da minha história pessoal, não. Essa personagem sai para trabalhar na casa das "madames". O que faz parte da minha história pessoal, talvez seja no plano da subjetividade.

A minha família toda trabalhou como doméstica, eu mesma trabalhei como doméstica, mas é um livro que traz muito uma memória da escravização.

Essa personagem tinha um avô que não conheceu, ou conheceu pequenininha que tinha sido um homem escravizado.

Então essa memória da escravização, ela atravessa o livro. E atravessa em suas consequências, porque tem ainda a terra dos brancos, a terra dos pretos, tem um senhor, o coronel, que manda na região.

O Brasil de hoje ainda tem muito dessa herança estratificada da escravatura, ainda subsistem até hoje essas diferenças?

Olha, subsiste sim. A escravização não é uma história do passado, é geradora ainda de uma consequência atual.

A população negra é a população mais pobre. As mulheres negras são as mulheres que ainda desempenham papéis subalternizados.

A população negra é aquela que tem mais dificuldade para aceder aos cargos altos na sociedade brasileira. Então essa mentalidade ainda existe.

Não é só uma questão económica, é uma questão de uma ideologia, de uma mentalidade mesmo, de uma desvalorização das pessoas negras, de um esquecimento da história do Brasil, porque o Brasil se ergue com uma mão escrava e depois com uma mão trabalhadora.

O Brasil está a meses das eleições presidenciais. Como é que a Conceição Evaristo vê o que pode vir a acontecer? O que é que a preocupa no Brasil político?

Preocupa-me em termos de esperança. A gente espera que o Presidente Lula seja reeleito.

Nos últimos anos foi o Governo Lula e o Governo Dilma os que mais se aproximaram das demandas populares.

A gente precisa acreditar e precisa fazer tudo para o Brasil poder continuar nessa linha de governança que realmente tem uma preocupação com as classes populares, que tenham políticas que possam ajudar as classes populares.

A gente hoje está entre a esperança e o desespero, porque não sabe o que pode acontecer.

É, ela nos persegue, justamente com essa ameaça ainda dessa direita maquiavélica retornar ao poder.

Que lugar de escuta é que tem do mundo que sente depois a impulsão de trazer para a sua escrita?

Não tem nenhum romantismo nisso. Mas os povos africanos são povos que, apesar de todo o sofrimento, é muito como a Fénix. Você olha para o continente africano, você vê o quanto que o povo africano já sofreu. Mas não desiste.

Muitas vezes até confiam no que não é para confiar. E as classes populares, nós somos assim também. A gente tem que ter sempre esse movimento de esperança.

E para mim esse movimento de esperança é o movimento de impulsão de vida. Olhar para o mundo, por exemplo, é olhar uma mulher que sai para trabalhar, caminha, toma várias conduções no Rio de Janeiro e de tarde essa mulher está lá de volta.

No final de semana essa mulher está numa roda de samba e está cantando, dançando e buscando alegria.

Acho que a gente tem que sair da gente mesmo para poder perceber essa pulsão de vida. Às vezes nas populações mais pobres essa pulsão de vida está lá.

A Conceição também é filha dessa herança. Também traz isso para a literatura?

Trago isso para a literatura. Procuro, inclusive, fazer da oralidade uma das estéticas do meu texto. Eu busco as palavras faladas pelo povo.

Eu busco construções que ferem a gramática e busco conscientemente nesse “Olhos d'água” que está adaptado ao português de Portugal.

A frase, “a gente combinamos de não morrer”, gramaticalmente é considerada errada. Mas é consciente. Eu quero fazer uma concordância verbal semântica com a ideia. É o que o povo fala.

Adapta-se. Engraçado que possibilita essas várias formas de assunção da língua.

Aliás, outro dia o [José Eduardo] Agualusa estava dizendo que o português poderia ser chamado “língua geral”. Fala-se em Portugal, fala-se nas ex-colónias, como o Brasil com vários modos de articulação, de apropriação da língua.

“Canção para Ninar Menino Grande” é um livro que tem tido muito acolhimento aqui em Portugal. Que livro é este, Conceição?

Engraçado que “Canção para Ninar Menino Grande” é um livro em que o personagem principal é um homem. Mas quem conta a história desse homem são as mulheres.

O homem está no centro da cena, mas não é ele que fala sobre ele. São as mulheres com quem ele teve relacionamento. E esse livro é criado um pouco para pensar a situação inclusive do homem negro no Brasil. Ele é bastante vulnerável.

É um sujeito machista, mas na sociedade brasileira quando a polícia, se tiver um homem branco e um homem negro o primeiro suspeito é o homem negro. Então, ele vive uma fragilidade também na sociedade brasileira.

Aí eu quis escrever muito sobre isso, para a gente reconhecer que o machismo dele não o coloca no lugar de superioridade.

  • Fonte: Rádio Renascença
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